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A IA já consegue fazer compras. O problema é quando começa a gastar o seu dinheiro.

A IA já consegue fazer compras. O problema é quando começa a gastar o seu dinheiro.
Imagem: Cezar Taurion

No final de uma palestra, me perguntaram o que eu pensava sobre as previsões de que o comércio agêntico dominará o comércio eletrônico↳E-commerce21 conteúdosECBR Club: novo espaço para devs se conectarem ao ecossistema de e-commerceDev (Back & Front) · mai 2025TOTVS anuncia joint venture com VTEXMarketing Tech · mai 2019Jovens da Brasilândia recebem formação gratuita em tecnologiaGestão Dev & TI · jul 2025Ver tudo em Marketing Tech → nos próximos anos.

Minha resposta foi direta: não acredito nessa transformação no ritmo anunciado. Estamos confundindo a capacidade tecnológica de executar uma compra com a disposição de consumidores e empresas para delegar decisões financeiras a sistemas de IA↳Inteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI →.

A promessa é realmente atraente. Um agente pesquisa produtos, compara preços, encontra promoções e conclui uma compra. Mas existe uma diferença enorme entre recomendar um produto, preparar um pedido e efetivamente movimentar dinheiro em nome de alguém.

O entusiasmo não é infundado. Pesquisas recentes mostram que consumidores brasileiros estão entre os mais receptivos ao comércio agêntico. Entretanto, declarar intenção de uso é muito diferente de autorizar um software a realizar pagamentos sem confirmação humana.

E o Brasil acrescenta desafios particulares. Nosso comércio eletrônico combina Pix, cartões, parcelamento, marketplaces, múltiplos vendedores, sistemas antifraude, logística complexa e um conjunto de obrigações decorrentes do Código de Defesa do Consumidor e da LGPD↳LGPD14 conteúdosComo utilizar a LGPD com o objetivo de conformidade e inovação?Gestão Dev & TI · out 2021LGPD coloca pressão inédita nos responsáveis pela tecnologia das empresasData · ago 2021Proteção de dados: LGPD é sancionada e começa a valerData · set 2020Ver tudo em Gestão Dev & TI →.

Um agente precisa compreender não apenas o preço, mas o custo total, os juros do parcelamento, o frete, os prazos, as condições de devolução e a identidade do vendedor.

No Pix, a liquidação rápida exige controles rigorosos. Existem mecanismos de devolução para situações específicas, como fraude e falhas operacionais, mas eles não resolvem automaticamente uma compra equivocada realizada por um agente.

Também existe uma questão jurídica essencial. Autorizar um agente a procurar um produto não significa necessariamente autorizá-lo a aceitar qualquer preço, contratar serviços adicionais ou compartilhar dados pessoais. A responsabilidade por transações indevidas não desaparece porque a decisão foi executada por software.

Há ainda o problema da segurança. Instruções maliciosas inseridas em páginas de produtos, avaliações ou mensagens podem tentar manipular agentes. O phishing ganha uma nova dimensão quando o atacante procura induzir o software a agir, não apenas convencer o consumidor.

E existe um conflito econômico pouco discutido. Marketplaces construíram seus negócios controlando busca, publicidade, recomendações, pagamentos e relacionamento com clientes. Agentes externos podem deslocar parte desse poder para quem controla a interface de compra. A reação das plataformas provavelmente combinará integração seletiva, agentes próprios e restrições comerciais.

Não considero o comércio agêntico inviável. Vejo aplicações promissoras em reposição recorrente, comparação de ofertas e compras corporativas padronizadas, com fornecedores homologados, limites financeiros e trilhas de auditoria. Mas também não devemos confundir assistência à compra com autonomia para gastar.

Minha tese é que o maior obstáculo não será a inteligência dos modelos. Será construir confiança, autorização verificável, segurança transacional e mecanismos claros de responsabilização.

No Brasil, a infraestrutura de pagamentos e a receptividade dos consumidores podem acelerar a adoção. Mas nossa complexidade comercial, regulatória e operacional também aumenta o custo dos erros.

O comércio agêntico certamente terá espaço. Poderá transformar a descoberta de produtos e a jornada de compra muito antes de controlar a conclusão das transações.

Prever que dominará o e-commerce em poucos anos ainda é uma aposta, não uma conclusão demonstrada. A IA já consegue participar de uma compra. Confiar a ela o poder de gastar dinheiro é uma decisão muito mais complexa.

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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