Atlassian reconstrói pipeline de métricas com OpenTelemetry sem trocar a interface do gostatsd
A empresa substituiu o gostatsd por uma pipeline OpenTelemetry Collector para processar dados de cerca de 100 mil hosts em 14 regiões, mantendo o mesmo endpoint StatsD que milhares de serviços já usavam.

A Atlassian publicou, em post no blog da CNCF assinado por Iris Grace Endozo, Farzad Vazirnia e Albert Kerr, o relato de como reconstruiu sua plataforma de métricas trocando o gostatsd por uma pipeline baseada em OpenTelemetry Collector, segundo reportagem da InfoQ. O sistema recebe dados de aproximadamente 100 mil hosts em 14 regiões e opera sob um SLO de 99,95%, o que tornava qualquer troca de motor uma operação de alto risco: os mesmos dados alimentam alertas de produção.
O problema: um protocolo que não cresce mais
O gostatsd funcionava de forma confiável havia anos, mas seu desenho era UDP-only e não suportava traces nem logs. Ao mesmo tempo, cada vez mais serviços internos já geravam dados no formato OpenTelemetry. Continuar apostando no gostatsd significaria reconstruir, dentro de casa, funcionalidades que a comunidade do OpenTelemetry Collector já desenvolvia.
A saída que a equipe escolheu evitou o caminho mais óbvio: pedir que milhares de serviços trocassem, de uma vez, o cliente StatsD por SDKs OpenTelemetry. Em vez disso, o time manteve a interface StatsD-sobre-UDP intacta e reconstruiu tudo o que existia atrás dela.
Mantivemos a interface e reconstruímos tudo por trás dela, o que transformou uma migração de toda a organização em uma migração de responsabilidade só do time de plataforma.
We kept the interface and rebuilt everything behind it, which turned an org-wide migration into a platform-team migration.Iris Grace Endozo, Farzad Vazirnia e Albert Kerr, Atlassian
Quatro estágios, uma reconstrução por vez
A nova plataforma segue o modelo de pipeline do OpenTelemetry Collector, no qual receivers recebem dados, processors os transformam e exporters os enviam a um ou mais destinos. A Atlassian dividiu a operação em quatro estágios (coleta, ingestão, agregação e encaminhamento), o que permitiu trocar cada parte isoladamente sem substituir as demais.

Coleta. O sidecar do gostatsd foi substituído pela mesma distribuição de Collector já usada pelo time de tracing. Aplicações continuaram enviando pacotes StatsD para o mesmo endereço, enquanto um receiver OTLP passou a aceitar métricas OpenTelemetry de serviços mais novos. Unificar métricas e traces num único sidecar economizou em média 3,9% de CPU nos serviços mais caros da plataforma Micros, e a equipe estima um corte de cerca de 30% no custo de sidecars em toda a frota. Uma extensão OpenTelemetry para Lambda preserva a mesma interface em cargas serverless, onde não há como rodar sidecar.
Ingestão. A agregação de métricas é stateful: todo ponto de uma série temporal precisa chegar ao mesmo agregador. O antigo proxy nomad fazia hash por serviço e ambiente, concentrando os maiores serviços em poucas réplicas sobrecarregadas. O novo sistema usa o load-balancing exporter do OpenTelemetry Collector Contrib para fazer hash por stream ID, mantendo cada série temporal junta enquanto distribui um serviço grande por todo o pool. O resultado, segundo a Atlassian, foi distribuição de CPU mais uniforme, menos shards quentes e melhor escalonamento fora de pico.
Agregação. É aqui que está o maior ganho em volume de dados. A plataforma recebe cerca de 4,8 bilhões de pontos de dados por minuto e armazena aproximadamente 220 milhões, uma redução de cerca de 96%. Como os componentes upstream do OpenTelemetry não agregavam métricas delta do jeito que a Atlassian precisava, a empresa desenvolveu e abriu o código de seu próprio processador de agregação. A nova camada usa cerca de metade da CPU para o mesmo tráfego.
Encaminhamento. Um serviço próprio de forwarding foi substituído por uma distribuição stateless de Collector chamada metrics-gateway. Exporters upstream agora distribuem dados para destinos como SignalFx e S3, com o Collector cuidando de retry, enfileiramento e backpressure. Segundo os autores, adicionar um novo destino virou mudança de configuração em vez de projeto de integração separado.
Como a migração foi conduzida
A Atlassian recomenda começar por ambientes de desenvolvimento e staging, escolher early adopters que tenham algo a ganhar com a mudança e depois escalar o rollout em estágios de 1%, 10%, 50% e 100%. O time também defende preservar os fluxos operacionais já conhecidos enquanto sistema antigo e novo rodam em paralelo, e medir sob carga real de produção em vez de confiar só em benchmarks pequenos.
Testes pequenos e benchmarks não foram suficientes; profiling contínuo em produção foi o que realmente nos mostrou onde otimizar.
Small tests and benchmarks were not enough; continuous profiling in prod is what actually told us where to optimise.Iris Grace Endozo, Farzad Vazirnia e Albert Kerr, Atlassian
A Atlassian afirma que a agregação do gostatsd e o nomad ainda respondem por cerca de 38% da CPU requisitada nos clusters de métricas, sendo que o nomad sozinho consome cerca de 13% do total. Removê-los vai completar a pipeline OpenTelemetry de ponta a ponta. O próximo passo planejado é migrar a instrumentação das aplicações de StatsD, DogStatsD e clientes de fornecedores para SDKs OpenTelemetry.
Atlassian, Airbnb e Skyscanner: três rotas diferentes
A abordagem da Atlassian difere de outras migrações recentes de métricas para OpenTelemetry. A Airbnb, em cobertura anterior da InfoQ, usou emissão dupla a partir de uma biblioteca de métricas compartilhada e adotou o vmagent da VictoriaMetrics para agregação em streaming, chegando a processar mais de 100 milhões de amostras por segundo. A Skyscanner, por sua vez, padronizou instrumentação e transporte em OpenTelemetry desde o início e migrou mais de 300 microsserviços↳Microsserviços24 conteúdosArquitetura de Microsserviços em Node com o MoleculerJSDev (Back & Front) · jun 2025Segurança das APIs: como proteger seu ecossistema de microsserviçosDev (Back & Front) · dez 2023Você provavelmente não precisa de microsserviços (ainda)Dev (Back & Front) · mar 2026Ver tudo em Dev (Back & Front) → atualizando uma biblioteca comum.
A Atlassian escolheu preservar o endpoint StatsD e mover a pipeline por baixo dele, em vez de pedir reinstrumentação imediata. Nos três casos, a migração da aplicação foi separada da substituição da infraestrutura central, mas a Atlassian isolou ainda mais o risco: com milhares de serviços internos, reinstrumentar tudo de uma vez seria um programa mais longo e mais arriscado do que reconstruir o motor por trás de uma interface já estável.
Em um relatório traduzido de uma conferência, Iwahori, líder de infraestrutura de monitoramento da GREE, classificou a abordagem da Atlassian como bem pensada, valorizando em particular o roteamento por stream ID e o processador de agregação delta personalizado. Iwahori levantou uma questão prática sobre como escalar uma camada de agregação stateful, e a resposta da Atlassian indicou que essa parte ainda depende de configuração manual.
O que isso significa para quem opera infraestrutura no Brasil
O caso da Atlassian é um roteiro replicável para qualquer time que tenha um protocolo legado (StatsD, DogStatsD, ou telemetria proprietária) espalhado por centenas de serviços e não possa parar tudo para migrar. A lição central não é o OpenTelemetry em si, mas a decisão de separar a interface pública da implementação: quem depende do endpoint não precisa saber que o motor mudou.
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Fica em aberto, como o próprio Iwahori apontou, como escalar a camada de agregação stateful sem depender de configuração manual, algo que qualquer equipe pensando em adotar esse desenho vai esbarrar mais cedo ou mais tarde.
Fonte: InfoQ
Este artigo foi escrito por Redação iMasters. Conteúdo produzido por agente de IA da redação iMasters, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
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