Persuasão no content marketing: por que ela nem sempre funciona?
Veja um exemplo de tentativa de persuasão em um discurso político.
Mês passado, depois de ter dado por concluído um longo dia de trabalho, liguei a tevê do meu quarto no propósito de “fazer um som”. Creio que a necessidade de “fazer um som” seja relativamente comum àqueles que, como eu, moram sozinhos (e que a minha filha de quatro patas não me leia), mas, para quem não vive essa experiência, basta dizer que se trata daquele momento em que o silêncio perturba, e aí vale qualquer som pela casa ‒ música pelo celular, personagens das novelas da Globo se ofendendo, o cachorro do vizinho latindo (com perdão ao vizinho pelo duplo sentido), propaganda eleitoral…
Na noite a que me refiro, particularmente, eis que a propaganda em questão era do PSD (Partido Social Democrático), e começava da seguinte maneira:
Aqui em São Paulo a desigualdade cresce e os problemas se acumulam.
Enquanto alguns bairros têm acesso a tudo, a maioria da população tem dificuldade para marcar uma simples consulta médica, não consegue nem uma vaga para colocar o filho na creche.
Até então, eu estava parada no meu quarto, olhando enternecidamente para o aquecedor ‒ deveria ou não levá-lo para o banheiro, considerando que desligar o chuveiro seria, por si só, um desafio à parte? Na verdade, nem eu mesma sabia que, de algum modo, estava dando atenção à fala daquele político (que depois identifiquei como vereador Matarazzo), até que, ao final da palavra “creche”, alguma conexão (ou melhor, a ausência dela) suscitou em mim um certo “estranhamento”. O provável candidato a prefeito de São Paulo prosseguia:
Milhares de paulistanos, principalmente jovens, estão desempregados.
Falta saneamento básico, moradia decente, e a segurança preocupa todos. […]
Bem, não vou me deter em transcrever a sua fala na íntegra porque, na prática, interessa-me muito mais que nos concentremos na primeira parte já registrada.
Em busca da propaganda eleitoral na Internet, encontrei-a postada em 17 de junho na página do PSD no Facebook e, assistindo a ela, agora com mais atenção, pude elaborar com um pouco mais de critério o porquê daquele meu estranhamento inicial (se possível, antes de prosseguir com o artigo, releia-o agora, com mais tranquilidade. Que lhe parece?).
Vejamos: no site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, ao qual muitas vezes recorro para alguns esclarecimentos em atividades de revisão, encontramos o título “Os conectores mais utilizados no discurso político”, no qual estão especificados o que chamamos de “conectores ou articuladores discursivos”. E, embora o nome remeta a algo que nem todos identifiquem de pronto, o fato é que se trata daquelas expressões por meio das quais apresentamos o nosso raciocínio de maneira mais organizada, coesa, estabelecendo uma relação entre as ideias.
O que isso significa na prática?
Na prática, isso significa que, se introduzo uma questão por meio da expressão “por um lado…”, espera-se, naturalmente, que mais adiante eu retome essa questão mediante a expressão “por outro…”. Da mesma forma, estabelece-se uma relação quando se diz “não apenas…”, na qual se espera a adição de “como também” ou de “mas também”, e assim sucessivamente. Se, por exemplo, eu lhe pedisse para completar a sentença iniciada por “Enquanto uns têm tudo…”, o mais provável é que você respondesse que “…outros não têm nada”. E não haveria qualquer problema de lógica nessa construção, pois o paralelo entre “uns X outros” e “têm tudo X têm nada” seria perfeitamente inteligível e coerente, correto?
O mesmo não se pode dizer, porém, em relação ao discurso veiculado pela propaganda do PSD. Afinal, quando o enunciador da tal propaganda pronuncia “Enquanto alguns bairros têm acesso a tudo”, o simples uso do “enquanto” estabelece uma relação de lógica que não se confirma ‒ no caso, “outros [bairros] não têm acesso a nada”.
Numa “manobra linguística” que somente o redator desse discurso político saberia justificar (saberia?), note-se que, em vez de dar prosseguimento a um paralelo entre os bairros que têm acesso a tudo X os bairros que não têm acesso a nada, o enunciado, de repente (e não mais do que de repente!), toma o referente “bairros” por “população” como se eles se equivalessem (“bairros” = “população”), como se essa correspondência fosse “natural”, “legítima”.
Mais especificamente: em primeiro lugar, quando o candidato diz “Enquanto alguns bairros têm acesso a tudo”, seria de se perguntar o que, para ele (e para o seu partido, evidentemente), significa “ter acesso a tudo”. Para mim, por exemplo, os “bairros que têm acesso a tudo” seriam uma alusão àqueles bairros onde o morador encontra todos os serviços de que precisa, sem a necessidade de percorrer longas distâncias para encontrar um supermercado, uma farmácia, um pronto-socorro, opções de lazer etc. Além disso, também seriam uma alusão àqueles bairros cujo acesso a outros lugares é facilitado (aqueles que neles residem têm fácil acesso a rodoviárias, aeroportos, centros comerciais etc.). Assim, no meu entendimento, “ter acesso a tudo” implica que esse seria, por assim dizer, um bairro com uma excelente infraestrutura.
Acontece que, se refletirmos melhor a respeito, a excelente infraestrutura de um bairro não garante, obrigatoriamente, a qualidade dos serviços públicos que ele disponibiliza aos seus moradores. Afinal, entre outros problemas, o bairro pode contar com renomados hospitais particulares, mas também com hospitais públicos cujo atendimento deixa a desejar; pode contar com ótimas escolas de ensino infantil, mas com pouquíssimas creches, já superlotadas. E aí está, mais precisamente, a relação de oposição evocada no discurso durante a propaganda eleitoral do PSD, mas que não se sustenta. Isso porque, em contestação aos “bairros que têm acesso a tudo”, o político apresenta “a maioria da população” que “tem dificuldade para marcar uma simples consulta médica, não consegue nem uma vaga para colocar o filho na creche”, instituindo uma comparação ‒ no mínimo ‒ “questionável”.
Na desconstrução do discurso, portanto, observamos a tentativa de se propor um problema a partir de uma base inconsistente, numa relação de antagonismo que não se sustenta:
| [Lógica verdadeira:] | Enquanto alguns… | (x) | …outros… |
| A quem se refere: | bairros | (x) | a maioria da população |
| O que eles têm: | acesso a tudo
(infraestrutura geral?) |
(x) | dificuldade para marcar uma simples não consulta médica(qualidade dos serviços públicos) |
Ao pretender tomar partido em nome da maioria da população, desfavorecida, o PSD se utiliza de proposições verdadeiras, mas distintas: com efeito, alguns bairros têm acesso a tudo, e também é verdade que sofremos com os desserviços públicos. No entanto, a articulação que o autor do discurso estabelece entre uma coisa e outra produz um sofisma ‒ na definição do Houaiss, um “argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa”.
Para validar a relação que, ao que parece, pretendia-se estabelecer, bastaria que se dissesse: “Enquanto alguns poucos têm fácil acesso a todo tipo de serviço, a maioria da população tem dificuldade para marcar uma simples consulta médica, não consegue nem uma vaga para colocar o filho na creche.”. Nesse caso:
| Lógica verdadeira: | Enquanto alguns… | (x) | …outros… |
| A quem se refere: | alguns poucos(minoria da população) | (x) | a maioria da população |
| O que eles têm: | fácil acesso a todo tipo de serviço | (x) | dificuldade de acesso aos serviços que podem ser considerados mais elementares (atendimento médico, creche para os filhos, etc.) |
A diferença é evidente, não?
Bem, transportando-me para o seu lugar de leitor, suponho que eu objetaria: “Mas, Iara, a inconsistência no texto dessa propaganda não seria perceptível somente para você, que gosta de brincar de analista do discurso? Para as ‘pessoas normais’, isso não passaria despercebido?”.
Na verdade, não e não, já respondendo às duas perguntas. Isso porque, por mais que a esmagadora maioria das pessoas que conheço não se aventurasse a essa análise mais pormenorizada, é certo que a maior parte delas não se sensibilizaria ante a fala do candidato do partido. Muito provavelmente (e até por serem “normais” ‒ risos), elas não manifestariam o mesmo estranhamento que eu tive com a associação (forçada) entre “alguns bairros” e “a maioria da população”, mas o fato é que, sem que soubessem especificar o porquê, não se sentiriam convencidas.
Ressalte-se aqui: por mais que não estejamos falando de estudiosos do discurso, estamos nos referindo a usuários da língua. Não importa que não se conheçam as técnicas ou os rótulos científicos: existe um uso interiorizado em cada um de nós, uma “intuição linguística” a respeito daquilo que efetivamente condiz com a (nossa) própria lógica ou não. E é exatamente disso que muitos profissionais do Marketing de Conteúdo (bem como do Marketing e da Publicidade em geral), por exemplo, ainda não se deram conta, subestimando essa avaliação mais crítica por parte do seu público ou do seu público-alvo em potencial.
Mas, Iara, no mundo do Marketing e da Publicidade, o que vale não são aqueles tais elementos de persuasão?
Certamente; porém, não apenas. Quando, por exemplo, esses elementos de persuasão são aplicados a um raciocínio construído a partir de premissas falsas, ou construídos a partir de premissas verdadeiras que pretendem criar uma falsa verdade, os elementos não persuadem por si sós. É necessário que haja uma congruência entre todos esses aspectos.
Para ilustrar: ouvi falarem bastante a respeito de um profissional que ganhou bastante visibilidade no seu segmento de marketing de conteúdo. E, interessada em conhecer um pouco mais do seu trabalho (que respeito), acessei o seu site e, logo no topo, acabei me deparando com a seguinte inscrição:
Junte-se a mais de 150.000 leitores inteligentes e receba atualizações, artigos e dicas imperdíveis para ter sucesso com o seu blog (é grátis)!
Conforme é possível averiguar, somente nesse trecho já é possível destacar três elementos de persuasão: 1) há um significativo número de leitores; 2) não são quaisquer atualizações, artigos e dicas, mas, sim, atualizações, artigos e dicas “imperdíveis” para que eu tenha sucesso com o meu blogue; 3) tais atualizações, artigos e dicas são oferecidos gratuitamente.
Até aí, tudo muito bem, não fosse a (falsa) premissa sugerida por trás desses elementos: o profissional faz o convite para que eu me junte a “mais de 150.000 leitores inteligentes”; logo, se eu optar por não me juntar a esses leitores, que são inteligentes, é porque eu mesma não sou uma leitora inteligente (será?).
Ainda no site desse profissional, vi se abrir uma janela que me questionava: “Quer fazer o seu negócio decolar?”. Abaixo da pergunta, surgia uma pequena chamada a respeito de um e-book (que, como elemento de persuasão, promete impulsionar o meu negócio) e, pouco mais abaixo dessa chamada, duas opções de respostas: “Sim! Quero baixar agora o eBook grátis!” e “Não. Meu negócio já faz muito sucesso”.
… (Aquelas reticências para se refletir…)
Ora: apresentavam-se a mim duas respostas visivelmente direcionadas, sendo que, no caso da resposta negativa, trabalha-se com aquilo que, para o autor do site, seria o único argumento capaz de justificar a recusa quanto ao e-book: “Meu negócio já faz muito sucesso”.
Vejamos: se, por um lado, a premissa pode ser verdadeira (apesar de pouco provável, é possível que o visitante do site tenha um negócio que já faça muito sucesso), a conclusão que aí se propõe pretende criar não apenas uma ilusão de verdade, mas uma provocação que atenda ao interesse do dono do site. Afinal, se o negócio do visitante ainda não faz muito sucesso, a única opção na qual lhe restaria clicar seria a primeira: “Sim! Quero baixar agora o eBook grátis!”. Contudo, onde estaria a opção de não baixar o e-book simplesmente porque não há interesse?
Tanto na propaganda eleitoral do PSD exibida em junho quanto nos exemplos dados a respeito do site voltado ao marketing de conteúdo, o que se constata é que, no propósito de atender a determinados objetivos do enunciador (seja ele o candidato, o partido político ao qual o candidato está afiliado ou o autor do site que também vende cursos), aplicam-se elementos de persuasão em cima de raciocínios “fabricados” e que, se descontruídos, revelam não apenas a sua “fragilidade”, mas também os objetivos pelos quais foram “manobrados”.
Nesse contexto, talvez valesse a pena perguntar: em vez de persuadirmos por meio de lógicas que buscam criar uma falsa verdade e legitimar a nossa própria necessidade, não seria mais efetivo se privilegiássemos o interesse e os argumentos do próprio público-alvo, oferecendo-lhe contrapartidas que realmente satisfizessem as suas demandas?







