
Hoje, dia 23 de abril, comemora-se o dia Internacional do Livro. Neste dia nasceram Cervantes, Shakespeare, Maurice Druon, K.Laxness e Vladimir Nabokov.
Desde 2004, eu tentava imaginar como poderia ser a internet como ambiente de criação narrativa de ficção. O primeiro resultado dessa curiosidade foi um livro tradicional, de papel, o “Santos Dumont Número 8: O Livro das Superstições” [Universo dos Livros, 2006], que apresenta, através da personagem Abayomi, um leitor que ao ler livros vivencia, misteriosamente, as histórias que lê, como se a sua leitura invadisse aos poucos a sua angustiada [e supersticiosa] realidade. Entretanto, a ficção também não deixava de ser uma metaficção pois, utilizando-se da metáfora dos cubos de Rubik [um quebra-cabeças] e de Necker [uma ilusão de ótica], podia ser lida pelo menos de duas formas diferentes: sequencialmente ou hipertextualmente.
A partir de 2007, comecei a achar que um romance poderia [porque não?] ser publicado em uma rede social, mas deveria, obrigatoriamente, absorver as características peculiares dessas redes sociais. No mesmo ano, criei o blog Pontolit onde, desde então, passei a analisar, sob diversos aspectos, o impacto da tecnologia sobre o processo de escrita e leitura. Sempre tive a impressão de que o SD8, por suas características fragmentárias e hipertextuais, se adaptaria melhor à internet. Este ano, como anunciado há poucas semanas aqui mesmo no iMasters, o projeto @sd8, literalmente, saiu do papel. A twitterização do romance “Santos Dumont Número 8” entra na sua terceira semana e tem sido comentado em blogs e outros veículos jornalísticos do Brasil e do mundo.
O objetivo do projeto, lembro, é analisar a internet como ambiente de criação narrativa ficcional e, principalmente, a partir do seu potencial de adaptação, identificar formas de personalizar a experiência de leitura, de acordo com as preferências do leitor. A grande maioria dos e-books [que, penso, são coisas bem diferentes do que pretendemos realizar com o @sd8 ainda são muito baseados nos livros de papel. Um romance, por exemplo, desde o ‘Dom Quixote de la Mancha’, de Cervantes, considerado o primeiro romance moderno, levam a assinatura [como co-autor] de Johannes Gutenberg, pois o meio [no caso, livros impressos em papel] influenciam a mensagem.
Um romance na internet é algo um pouco diferente, e deverá levar a assinatura [em co-autoria] de Tim Bernes Lee, ou seja, deverá ter características de interatividade, além de ser configurável, personalizável e multimídia. Por isso, acredito que o romance @sd8 [será que ainda o chamaremos assim?] poderá ser lido de uma forma no Twitter e de outra, por exemplo, através das canções [diversas canções são citadas na história e elas estarão no Blip e Youtube, ou das citações a livros e escritores, já que a experiência colaborativa da internet foi no livro em papel, e, claro, também o é nessa versão twitterizada, um dos principais pontos de orientação da própria trama.
A adaptação para o twitter e outras redes sociais não se trata, como tenho repetido, de um mero ‘copiar-e-colar’ do romance original. No romance original, seu suposto autor [que no twitter é representado pelo perfil @sd8_souzasoares, em determinada altura da história conclui:
O autor podia muito bem estar morto, estirado na esquina, não faria diferença, pois o seu fantasma era eloqüente, ao mesmo tempo em que morria sua vida, vivia sua morte, destituindo-se, fragmentando-se de sua existência transfigurada nas personagens, esvaziava-se de suas personagens.
No Twitter, o autor, efetivamente, esvazia-se de suas personagens, elas adquirem vida própria e vivem/contam a história. Assim, obrigatoriamente, a história é a mesma e outra, não há como copiar e colar o romance original em pequenos trechos. Deixo os personagens me surpreenderem com alguns pontos de vista que, na terceira pessoa, me foi impossível apreender há quatro anos, quando “descobria” o romance original.
O processo de publicação de um romance em uma rede social, percebo, deve usufruir da distribuição de diversos recursos multimídia e colaborativos da internet. No caso do @sd8, eu primeiro publico o conteúdo original no CommentPress. De lá, alguns trechos são trabalhados exclusivamente levando-se em consideração os recursos particulares do Twitter. Os trechos roteirizados são então associados aos oito perfis criados através dos quais a história se deixa contar.
Uma twitterização ipsis litteris do romance original seria praticamente impossível, pois seriam necessários aproximadamente 10 mil tweets. Logo, escolhi que os personagens contassem a história do ponto de vista deles, inclusive, caso seja possível, interagindo com o público, já que existirão oportunidades de interação durante a twitterização, proporcionando, potencialmente, uma experiência imersiva, para a comunidade de leitores, mas também para o autor. Creio que, pela internet, cada vez mais no futuro, leitores lerão ao vivo, assim como escritores escreverão ao vivo [no site http://www.santosdumontnumero8.com.br instalei o o software meebo, que permitirá que durante algumas horas do dia os leitores possam me conversar comigo, ao vivo, durante o processo de twitterização do romance].
Mas, nem tudo são flores. O Twitter, é notório, dificulta uma absorção sequencial da história [esse foi um dos motivos por eu ter escolhido dividi-la entre vários perfis]. Os twitterstreams, por exemplo, são como diálogos, e os leitores entram e saem deles como se zapeassem os canais de uma tevê. A narrativa é capturada de forma fragmentada, assim, ofereceremos alternativas para os leitores “capturados” no twitter possam sempre acompanhar e ler a história como um todo. Já estamos incluindo hash tags [a nossa é #sd8] que ajudam na contextualização, filtragem e exploração do conteúdo na Twittosfera. Existe também um blog, acessado em http://www.santosdumontnumero8.com.br, que será uma espécie de diário do projeto, onde comentarei o percurso do projeto e prepararei a versão twitterizada do romance que publicaremos logo depois do final do experimento, prevista para 20 de julho, dia de aniversário de Santos-Dumont.
Em linhas gerais, o processo como um todo tem sido bastante divertido pois tem me permitido experimentar muitos programas diferentes em busca da melhor solução para os problemas que se apresentam. Por isso, acredito que o Twitter [entre outras redes sociais] deva sim ser compreendido como um espaço de criação que trará problemas específicos para os quais o escritor deverá encontrar a solução. Essa é a função do escritor, encontrar a solução que lhe apresentam o meio através do qual conta sua história. Desde sábado, o romance ‘Santos Dumont Número 8’ também se encontra disponível no Facebook, no FriendFeed e em celulares. Se existe alguma parte chata nesse processo? Bem, não existe exatamente uma parte chata, mas me assombra, de alguma forma, constatar que toda ficção é, potencialmente, inesgotável, um paradoxo para quem, como eu, um analista de sistemas, trabalha diariamente na construção de algoritmos.







