As
campanhas das eleições presidenciais de 2010 estão sendo marcadas por algumas
especificidades, destacando-se as seguintes:
- forte polarização entre
candidatos; - o presidente Lula como um de seus principais
protagonistas; - a presença da Internet como um dos mais importantes
meios de campanha.
Com o crescimento do número de pessoas que tem acesso
ao computador, é inevitável supor que a Internet deverá ser um fator
diferencial nesta campanha, principalmente se tomarmos como horizonte a
campanha de Barack Obama à Casa Branca e a popularização tipicamente
brasileira das redes sociais, como Twitter, Facebook, Orkut e blogs de
todos os gêneros.
Mas
a largada desta campanha se demonstra, até aqui, bastante estéril e
imatura. Uma análise feita durante um período de dois meses nos
possibilitou auferir, por exemplo, a quantidade e a qualidade das
citações a determinadas marcas e nomes, no caso, os candidatos nas
redes sociais. Já foi possível constatar a falta de qualificação do
debate e dos conteúdos políticos e os ataques gratuitos que vicejam na
web.
Parte
deste cenário desanimador pode, sim, ser imputado aos próprios
candidatos que, se não exortam seus eleitores a esta batalha cibernética
insana, também não inibem este comportamento. Os comandos estratégicos
das campanhas, afinal de contas, são responsáveis pela qualidade ou a
falta dela no debate político-eleitoral.
Há,
por trás disto tudo, uma estratégia caótica de guerra em curso, na qual
os dois principais candidatos parecem se valer do que no mundo da
internet é chamado de “missionários digitais”. Este termo, que foi
criado para designar os profissionais que dispõem de tempo para promover
as empresas na web e que é um bom exemplo de estratégia digital nos
EUA, desvirtuou-se por aqui. Nesta lógica, é possível ver militantes na
Internet trabalhando para convencer indecisos, acusando adversários e
rebatendo críticas no pior exemplo da desqualificação política.
As
etiquetas básicas das mídias sociais são na maioria das vezes
esquecidas, e um debate de surdos flui surpreendentemente. Parece não se
perceber que a Internet é um instrumento singular e poderoso de
mediação de conteúdos e que a eficácia de uma campanha depende da
combinação da potência do meio com a qualidade do conteúdo.
Um
olhar mais próximo da blogosfera mostra que boa parte de seus
influenciadores possui algum tipo de ligação com a grande imprensa ou
são celebridades. A transmissão das propostas de governo dos principais
candidatos está ainda confusa, e isso atrapalha vínculo entre a
comunidade web e a qualificação do debate.
As
estratégias adotadas nas redes sociais comprovam a percepção de que os
presidenciáveis ou os responsáveis por suas campanhas não enxergaram
ainda a necessidade de responder a algumas perguntas básicas. Onde meu
eleitor está? Quem ele influencia? Por quem é influenciado? Como ele usa
as tecnologias do ponto de vista da política? Ele apenas assiste a
conteúdos, compartilha com os outros, comenta, cria ou modera
comunidades? Que tipo de ações específicas deveriam ser usadas para cada
grupo? Como responder a acusações infundadas? Como propagar minhas
ideias de forma eficiente e sintética?
Um
breve comparativo entre as “tags” “José Serra”, “Dilma Rousseff” e
“Marina Silva” na blogosfera, num período de 30 dias (até 14 de julho),
mostra que o primeiro foi responsável por 44.5% das menções, a segunda,
por 39.33% e “Marina Silva” por 16.20%. No dia 30 de junho, o termo
“José Serra” alcançou mais de 3.000 menções no Twitter. O anúncio do
vice Índio da Costa foi bastante responsável por esse buzz. Já a
comparação entre as expressões “José Serra”, “Dilma Rousseff” e “Marina
Silva” na twittosfera, num período de 30 dias, (também até 14 de julho),
o primeiro é responsável por 46.4% das menções, a segunda, por 21.9%, e
o termo “Marina Silva”, por 31.8%, com 27.509, 12.984, 18.854,
respectivamente. Um pouco menos de 1/4 das citações sobre Dilma Rouseff
no Twitter são relacionadas ao presidente Lula.
Além
dos EUA, mais recentemente, Inglaterra e Colômbia vivenciaram intensa
campanha política pela Internet. Nestes países foi possível verificar
que, muitas vezes, a Internet pautou o debate transbordando a discussão
para bares, escolas e casas, algo que até agora não vem ocorrendo no
Brasil. Parece que será mais bem-sucedida a campanha que souber escrever
este roteiro e quem apostar principalmente nos jovens, que são os mais
conectados.
Os
jovens mais escolarizados são grandes influenciadores na sociedade.
Eles têm na rede mundial uma fonte inesgotável de pesquisa e informação
e, nesta eleição, este processo não será diferente. Indiretamente, a
internet se tornará um veículo de comunicação política para pais,
familiares, colegas de classe, amigos, entre outros. A dica é seguir o
comportamento destes jovens em vez de seguir a tecnologia de forma
obstinada e sem critérios. Os jovens se importam com o que pessoas da
mesma idade e comunidade pensam, e o bom debate político terá mais
espaço entre eles do que com qualquer outro público internauta.
Como
nenhuma outra, esta eleição tem um caráter de experimentação devido à
popularização da internet nos últimos anos. Erros serão normais, mas o
inadmissível será a perda do pudor, das boas maneiras e da inteligência.
Talvez a maior contribuição deste fenômeno seja a inevitável introdução
da escuta estratégica do eleitorado, que, com o advento da web social,
passou a fornecer pistas e informações vitais na condução de uma
campanha e de projetos políticos. Mudanças de rota, coisa que antes
levaria dias para acontecer, a internet levará segundos para mostrar a
necessidade da adoção de táticas diversas e eficazes. Perderá quem não
perceber que o online também constitui o real. Até mesmo na política.







