
Vejo que estamos atribuindo ao modelo capacidades que, na prática, pertencem à arquitetura inteira do agente. Essa distinção se torna particularmente importante quando sistemas de IA↳Inteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI → deixam de apenas responder e passam a consultar dados, utilizar ferramentas e executar ações.
Para entender essa arquitetura, precisamos separar modelo, workflow, agente, harness, ferramentas e ambiente de execução. Essas fronteiras não são universalmente padronizadas e variam entre implementações, mas a separação conceitual ajuda a entender onde estão capacidade, execução e controle.
O modelo interpreta o contexto disponível e produz inferências. Pode gerar texto, classificar informações, propor próximos passos e selecionar ou solicitar ferramentas. Isoladamente, isso não o transforma necessariamente em um agente.
A diferença entre workflow e agente está principalmente em onde fica a lógica que determina os próximos passos. Em um workflow, o caminho é predominantemente definido pelo software. Pode haver condições, desvios e decisões baseadas nas respostas de um LLM, mas a estrutura geral foi estabelecida pelos desenvolvedores.
Em sistemas mais agênticos, parte dessa escolha é delegada ao modelo. A partir do estado disponível, ele pode selecionar ferramentas, interpretar resultados e determinar próximos passos dentro dos limites definidos pelo sistema.
Não são categorias excludentes. Um workflow pode incorporar agentes e um agente pode operar dentro de processos maiores, com etapas determinísticas e limites predefinidos. Na prática, muitas arquiteturas empresariais serão híbridas.
O harness é uma forma útil de descrever o software ao redor do modelo que o conecta aos demais componentes. Pode organizar contexto, estado, memória quando necessária, ferramentas e ciclos de execução. Também pode implementar ou acionar políticas, verificações, observabilidade↳Observabilidade11 conteúdosObservabilidade para APIs: os desafios e benefícios dessa abordagemDev (Back & Front) · jan 2025Falhas em Observabilidade afetam os Apps e a Segurança das OrganizaçõesDev (Back & Front) · nov 2023ADK Java 1.0: O Google quer que você pare de gambiarra Python no seu backendMarketing Tech · abr 2026Ver tudo em DevSecOps → e controles. Mas não existe uma definição universal que determine que todas essas funções pertençam necessariamente ao harness.
Imagine pedir a um agente que analise um contrato, identifique riscos e compare suas cláusulas com políticas internas. O modelo pode solicitar o contrato. O sistema encaminha a solicitação à ferramenta apropriada, dentro das permissões existentes. O documento retorna como contexto. O modelo pode então solicitar outra fonte, comparar informações e propor o próximo passo.
Forma-se um ciclo de inferência, proposta de ação, execução, observação e nova inferência. É aqui que aparece uma distinção fundamental. Saber fazer, poder fazer e estar autorizado a fazer são coisas diferentes.
O modelo pode produzir uma solicitação para apagar um registro. Uma ferramenta pode ser tecnicamente capaz de executá-la. Isso não significa que a operação deva ser permitida.
A autorização precisa depender da identidade utilizada, de quem delegou aquela autoridade, das permissões concedidas, do recurso envolvido, do contexto da operação e das políticas aplicáveis.
Isso introduz uma questão frequentemente negligenciada em arquiteturas agênticas. Em nome de quem o agente está agindo?
Agentes que executam ações precisam de identidades e credenciais administráveis, permissões mínimas e, em determinados processos, segregação de funções. A capacidade técnica de executar uma operação não deve definir a autoridade para executá-la.
Existe também o ambiente de execução, ou runtime, no qual o software opera. É nele, juntamente com outras camadas de infraestrutura e controle, que se materializam muitas fronteiras concretas de acesso a sistemas, redes e recursos.
Quando agentes executam ações reais, problemas clássicos da engenharia reaparecem. Imagine que uma ferramenta processe um reembolso, mas a conexão caia antes de confirmar o resultado. Se o sistema simplesmente repetir a operação, poderá realizar dois reembolsos.
A arquitetura precisa saber verificar o estado anterior, tratar falhas e repetições, estabelecer limites de tempo, recuperar operações e, quando possível, compensar ou reverter ações. Agentes não eliminaram os problemas clássicos dos sistemas distribuídos. Acrescentaram componentes probabilísticos a eles.
A segurança também muda de dimensão. Um contrato, e-mail, página ou documento recuperado pode conter instruções maliciosas destinadas a influenciar o modelo. Conteúdo externo deve ser tratado como dado potencialmente não confiável, não como fonte automática de autoridade.
Informação não é instrução. E instrução não é autorização. Por isso, dizer ao modelo o que ele não deve fazer não equivale a impedir tecnicamente que determinada ação seja executada.
Controles críticos precisam existir também nas fronteiras de execução, por meio de identidade, permissões, validações determinísticas, isolamento, limites operacionais, aprovações e mecanismos de interrupção proporcionais ao risco.
Há ainda outro componente essencial. Observabilidade. Quando um agente age, precisamos conseguir reconstruir o que aconteceu. Qual objetivo recebeu, qual contexto relevante utilizou, quais ferramentas chamou, quais ações solicitou, sob qual identidade operou, quais políticas foram aplicadas, quais aprovações ocorreram e qual foi o resultado. Sem isso, investigar erros e atribuir responsabilidades se torna muito mais difícil.
Também não basta avaliar o sistema uma única vez. Mudanças no modelo, prompts, ferramentas, dados, políticas ou integrações podem alterar seu comportamento. Agentes empresariais precisam de avaliações antes da implantação, monitoramento em produção e critérios claros para ampliar, reduzir ou retirar autonomia. Isso explica por que melhorar o modelo não significa automaticamente melhorar o agente.
Um sistema empresarial depende também de dados confiáveis, integrações, identidade, estado, observabilidade, tratamento de falhas, políticas e controles. Mesmo trocar apenas o modelo exige reavaliar o comportamento do conjunto, especialmente seleção e uso de ferramentas. Um modelo excelente não compensa, por si só, uma arquitetura deficiente.
A distinção final pode ser resumida assim. O modelo fornece capacidade de inferência. O agente é o sistema configurado para executar tarefas orientadas a objetivos utilizando essa capacidade. O harness coordena parte da interação entre modelo e demais componentes. As ferramentas oferecem capacidades de consulta ou ação. O runtime fornece o ambiente no qual o software executa.
A autoridade precisa ser definida e aplicada por mecanismos externos à simples intenção expressa no prompt. Quando o sistema apenas responde, grande parte da avaliação está na qualidade da resposta. Quando começa a agir, surge outra disciplina. Precisamos determinar quem pode fazer o quê, em nome de quem, sobre quais recursos, em quais circunstâncias e dentro de quais limites.
Quanto maior a autonomia operacional concedida, maior deve ser a capacidade de observar, limitar, interromper e auditar suas ações. O desafio, portanto, não é apenas construir agentes mais capazes. É desenvolver uma verdadeira engenharia de autoridade para permitir que sistemas com componentes probabilísticos atuem no mundo real sem transformar capacidade técnica em autoridade irrestrita.










José Carlos Macoratti
Cezar Taurion
John Calistro





