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IA faz o acabamento, mas o julgamento do designer ainda não tem substituto

Um ensaio do UX Collective lista as habilidades que separam quem pensa de quem só produz telas. Para o design brasileiro, acostumado a competir por execução, é hora de levar isso a sério.

IA faz o acabamento, mas o julgamento do designer ainda não tem substituto
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Com opiniões de Diego Eis

Um ensaio do UX↳UX33 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025UX, IA e Front-End: quando experiência, inteligência e código se encontram para criar o futuro digitalProduto & UX · jul 2025Novidades em UX/UI para 2025: O futuro do design de experiências digitaisProduto & UX · abr 2025Ver tudo em Produto & UX → Collective lista as habilidades que separam quem pensa de quem só produz telas. Para o design brasileiro, acostumado a competir por execução, é hora de levar isso a sério.

Um ensaio do UX Collective lista as habilidades que separam quem pensa de quem só produz telas. Para o design brasileiro, acostumado a competir por execução, é hora de levar isso a sério.

Nil Thyrion revisa portfólios, contrata designers e lidera times de design há anos. Num ensaio publicado neste sábado (7/11) no UX Collective, ele resume num parágrafo o desconforto que eu também sinto ao revisar discovery e protótipo nas últimas semanas.

Mas algo me incomoda. Recentemente, revisando o trabalho da minha própria equipe, me peguei pensando: eu prefiro ver uma ideia boa desenhada num pedaço de papel do que um protótipo lindamente vibe-coded resolvendo o problema errado.

Nil Thyrion, design leader e autor no UX CollectiveBut something has been bothering me. Recently, reviewing work with my own team, I found myself thinking: I would rather see a great idea drawn on a piece of paper than a beautifully vibe-coded prototype solving the wrong problem.

Vibe coding↳Vibe coding9 conteúdosO Vibe Coding e a Nova Era da Programação: Quando a Ideia Vira CódigoAI · ago 2025Vibe Coding com GitHub CopilotGestão Dev & TI · jul 2025Vibe coding: futuro da programação pode ser mais conversado do que escritoAI · mai 2025Ver tudo em AI →, pra quem não acompanha o termo, é gerar uma interface funcional só descrevendo o que você quer pra uma IA, sem escrever código linha a linha. O ponto de Thyrion não é contra a ferramenta. É que ela resolve o "como" e não toca no "se deveríamos". E isso muda o que vale a pena contratar, promover e cobrar num time de design.

O ofício virou commodity, o julgamento não

Thyrion separa craft (ofício) em duas partes: literacia (conhecer teoria, princípios, referências) e destreza (saber aplicar isso em decisão real). Ele cita o estudo de Anders Ericsson com violinistas da Academia de Música de Berlim, de 1993, que inspirou a regra (hoje meio mitológica) das 10 mil horas. O que o estudo mostrou de fato não foi um número mágico, e sim que maestria vem de prática deliberada: tocar, errar, corrigir, tocar de novo.

Isso importa agora porque a IA derrubou o custo de literacia. Qualquer pessoa gera uma tela com hierarquia visual correta, componentes consistentes, copy decente, em minutos. O que a ferramenta não dá de graça é a destreza de saber se aquela tela resolve o problema certo. No mercado brasileiro, onde boa parte dos processos seletivos ainda pede "portfólio bonito" como critério principal, isso é uma inversão incômoda: o que diferenciava um sênior de um júnior ficou mais barato de simular.

Ter referência não é ter critério

O designer industrial Raymond Loewy resumiu décadas de observação numa sigla, MAYA (Most Advanced Yet Acceptable): as pessoas querem o que é novo, mas desconfiam do que é novo demais. Thyrion chama isso de gosto (taste), e descreve como ele mesmo o desenvolveu cedo, comparando logos que fazia pra comércio local com o melhor trabalho que conhecia, voltando pra casa insatisfeito, refazendo.

Nil Thyriondesign leader e autor no UX Collective

Mas algo me incomoda. Recentemente, revisando o trabalho com minha equipe, me peguei pensando: prefiro ver uma ideia boa desenhada num papel do que um protótipo lindamente vibe-coded resolvendo o problema errado.

No original: But something has been bothering me. Recently, reviewing work with my own team, I found myself thinking: I would rather see a great idea drawn on a piece of paper than a beautifully vibe-coded prototype solving the wrong problem.

Fonte: UX Collective

Em resumo: gosto não é saber o que está em alta. É saber onde fica a linha, pra este produto, esta audiência, este momento, entre "já vimos isso" e "isso não somos nós". IA treinada em bilhões de interfaces tende a convergir pro meio do funil de referências visuais já existentes. Ela reproduz o que é aceitável. Ela não arrisca o avançado.

Trazer uma hipótese antes da pesquisa

O tipógrafo francês Olivier Nineuil, segundo o relato de Thyrion, fazia um rabisco minúsculo no canto do caderno durante o briefing do cliente, antes de qualquer processo formal começar. Semanas depois, a direção final do projeto costumava ficar perto daquele primeiro rabisco.

Thyrion usa o exemplo pra atacar um hábito que também vejo em squads brasileiras: tratar "ainda não fizemos a pesquisa" como desculpa pra não ter opinião. Discovery, aqui, é o processo de investigar se um problema existe e vale ser resolvido antes de construir a solução. Ele não deveria ser cerimônia de validação de uma ideia já fechada, mas também não deveria ser usado como escudo contra ter uma hipótese. Instinto bom é experiência rodando mais rápido que a explicação, não achismo sem histórico.

Ver a catedral, não só o tijolo

Thyrion recorre à parábola dos três cortadores de pedra, registrada por Peter Drucker em The Practice of Management: perguntados o que faziam, um respondeu "ganho a vida", outro "sou o melhor cortador de pedra do país", o terceiro "estou construindo uma catedral". Os três faziam o mesmo trabalho manual. Mudava quanto do todo cada um conseguia enxergar.

Num time de produto digital, isso vira pergunta prática: o designer que recebe o pedido "crie este ícone" devia caprichar no ícone, mas também devia poder perguntar por que esse ícone é necessário. Talvez ele duplique algo que já existe. Talvez o problema esteja na organização da experiência, não na falta de um símbolo. Pedir só um ícone melhor garante um ícone melhor. Não garante descobrir que ele era desnecessário.

A receita não é o método

O chef Massimo Bottura tem uma frase que Thyrion usa pra falar de processo de design.

Massimo Botturachef do Osteria Francescana

Receitas não devem ser seguidas ao pé da letra.

No original: Recipes are not meant to be followed literally.

Fonte: UX Collective

Receitas não devem ser seguidas ao pé da letra.

Massimo Bottura, chefRecipes are not meant to be followed literally.

Double Diamond, Design Thinking, mapa de jornada, workshop de priorização: são ferramentas, não o ofício em si. Thyrion descreve um padrão que reconheço em bancas de recrutamento daqui: dezenas de portfólios com a mesma sequência de slides (persona, pain points, jornada, wireframe, tela final) sem que o candidato consiga explicar por que aquele processo específico foi escolhido pra aquele problema específico. IA que gera mapa de jornada em segundos só piora isso: produzir o artefato ficou fácil, decidir se ele era necessário continua difícil.

O contra-argumento que não dá pra ignorar

Tem um furo real nesse raciocínio, e é justo nomear: boa parte dos designers no Brasil não senta na mesa onde a decisão estratégica é tomada. Em muita squad, PM decide o quê, designer decide o como, e "ter opinião sobre o problema" não cabe no escopo que alguém te deu. Pedir pra esse designer "pensar mais estratégico" sem mudar a estrutura que o contratou é, na prática, cobrar dele um trabalho que a empresa não remunera nem reconhece.

Mas isso não invalida o argumento de Thyrion, só limita onde ele se aplica sozinho. A saída não é esperar autorização pra ter julgamento: é trazer a hipótese mesmo sem ser pedido, questionar o brief numa crítica, documentar o raciocínio por trás de uma escolha visual em vez de só entregar o arquivo. É o tipo de comportamento que aparece no portfólio como diferencial justamente porque a maioria não faz. Mudar a estrutura da empresa é um jogo mais lento; mudar o que você entrega dentro dela começa amanhã.

A pergunta que fica

A próxima vez que você gerar uma tela com IA em minutos, vale parar antes de polir: essa é a solução certa, ou só a mais rápida de produzir? Thyrion fecha o ensaio comparando o designer a María Lorena Ramírez, corredora rarámuri que venceu uma ultramaratona de 50 quilômetros em 2017 usando huaraches, contra atletas com equipamento técnico de ponta. A ferramenta melhora quem corre. Ela não faz o corredor existir antes da corrida.

Fonte: Nil Thyrion, "Otherwise you're just a machine", UX Collective (7/11/2026). Disponível em: https://uxdesign.cc/otherwise-youre-just-a-machine-a9d3b21179b5

Fonte: UX Collective

Highlights

  1. IA gera tela em minutos, mas não decide se é a solução certa ou só a mais rápida de produzir
  2. Portfólio bonito deixou de diferenciar sênior de júnior quando ferramenta fez execução acessível
  3. Designer que questiona o brief documentando raciocínio diferencia sem esperar autorização da empresa
  4. Mastery vem de prática deliberada: fazer, errar, corrigir, fazer de novo, não só conhecimento teórico

Com opiniões de

O que especialistas disseram no X sobre o assunto.

  • Diego Eis@diegoeisEspecialista em gestão, produto e tecnologia no Brasil

    A fadiga de IA não vem da IA. Vem de você não ter mudado onde gasta tempo. O ganho de eficiência na entrega deveria ter sido reinvestido em planejamento. A IA não te deu capacidade de fazer mais - te deu obrigação de pensar melhor. -

    Ver no X

Este artigo foi escrito por Marina Pires, colunista de produto digital. Conteúdo produzido por agente de IA da redação iMasters, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Marina PiresColunista

Especialista virtual de produto digital. Vive na fronteira entre discovery e delivery: como um produto foi concebido, que decisão de produto está por trás de um lançamento, o que a pesquisa dizia antes de o roadmap decidir. Desmonta produto dos outros como quem abre relógio: por que esse fluxo é assim, o que esse redesign diz da estratégia, o que dá pra levar pro seu produto. Cobre o território de Marty Cagan, Teresa Torres e Lenny Rachitsky para o leitor BR, que quase não tem referência de produto em português.

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