Design & ProdutoARTIGO

Figma Make gera protótipo funcional com IA e joga a qualidade técnica para o lado do design

O código deixa de nascer só na engenharia. Entender o que muda no handoff (e onde recai a responsabilidade de quem desenha) vale mais que a demo bonita.

0
Figma Make gera protótipo funcional com IA e joga a qualidade técnica para o lado do design
Imagem gerada por IA

O problema que o Figma Make ataca não é novo: a distância entre a tela estática que o design entrega e o produto que o usuário toca. Por décadas essa ponte foi o handoff, o momento em que o designer passa o Figma para a engenharia e torce para que o resultado se pareça com o que imaginou. A página oficial do Figma Make resume a promessa em três verbos: "Prototype. Polish. Ship." Traduzindo o que isso significa para quem trabalha com produto no Brasil: o próprio designer passa a gerar código funcional a partir do design, com IAInteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI no meio. E aí a conversa muda de lugar.

O que o Make faz, na prática

O Figma Make é uma ferramenta de geração assistida por IA que produz protótipos (e, segundo a Figma, cada vez mais coisas prontas para produção) a partir de um prompt somado ao contexto de design. A diferença em relação a um gerador genérico de código está justamente nesse contexto: o Make consome os design systems, bibliotecas de estilo, componentes e imagens que já existem no arquivo. Pela documentação da própria página, isso acontece via Make kits (que sincronizam pacotes npm, estilos de biblioteca e guidelines), anexos de frames do Figma, PDFs e outros arquivos.

O ponto técnico que importa: a Figma afirma que "tudo o que você constrói é code-backed e visualmente editável", ou seja, o resultado é código de verdade, e não um mockup interativo fingindo ser app. Você pode alternar entre editar no canvas e mexer no código. Há um Plan mode que estrutura a intenção antes de gerar (esclarecer o que se quer antes de sair produzindo), Point and edit para clicar num elemento e pedir mudança direto no preview, histórico de versões que rastreia cada edição (de IA ou manual) e até prompting por voz. Existe também uma versão em beta anunciada como "coming soon" para rodar o Make sobre o codebase local e converter designs em assets prontos para produção.

Ou seja: o Make não é só um brinquedo de protótipo. A intenção declarada é encurtar o caminho da ideia até a feature entregue.

Por que isso mexe com o handoff

O argumento de venda que a Figma escolheu destacar é velocidade. Vishal Kapoor, SVP de produto da Affirm, é citado na página dizendo que, em vez de uma ideia levar seis semanas para virar algo tangível, agora leva "apenas algumas horas". Brian Muehlenkamp, PM da Ticketmaster, diz que o Make "encurtou o caminho da ideia até a feature finalizada de um jeito que não consigo imaginar substituir".

Essas frases são depoimentos de fabricante, e vale lê-las como tal. Mas a mudança estrutural que elas apontam é real e merece atenção de quem desenha: quando o protótipo já sai como código que se parece com o produto final, o momento do handoff deixa de ser uma entrega limpa ("aqui está o layout, implemente") e vira uma zona cinzenta. O design chega mais perto do funcionando de verdade, e a engenharia recebe algo que já tem estrutura, comportamento e, potencialmente, dívida técnica embutida.

É aqui que o eixo da responsabilidade se desloca. Se o designer gera o código, o designer também gera as decisões que antes eram da engenharia: hierarquia de componentes, estados de erro, comportamento em telas pequenas, e (o ponto que mais me preocupa) acessibilidade.

Onde a qualidade técnica passa a recair sobre quem desenha

Gerar uma interface bonita e clicável com IA é fácil. Gerar uma interface que funciona para todo mundo é outra história, e a demo de marketing nunca mostra essa parte. Alguns riscos concretos que passam a ser problema de quem prototipa no Make:

O ganho de velocidade é verdadeiro. Mas velocidade sem critério de qualidade só empurra o trabalho para depois, geralmente para a engenharia limpar, o que anula boa parte do ganho de tempo prometido.

Um jeito de encaixar isso no fluxo

O caminho que eu proporia para uma equipe de produto que quer adotar o Make sem cair na armadilha do protótipo-que-parece-pronto:

  1. Use o Plan mode antes de gerar. Definir intenção, estados e requisitos de acessibilidade como parte do plano é mais barato que corrigir depois.
  2. Amarre os Make kits ao design system de verdade. Se o sistema tem componentes com acessibilidade já resolvida, force a geração a usá-los, não a inventar novos.
  3. Trate o código gerado como rascunho, não como entrega. O code-backed do Make é uma vantagem justamente porque permite inspecionar e corrigir a marcação. Use isso.
  4. Coloque acessibilidade na checagem de handoff. Teste por teclado, rode um leitor de tela, valide contraste. Isso não é etapa opcional de fim de projeto, é parte de dizer que o protótipo está pronto.
  5. Deixe explícito quem valida o quê. Se a fronteira entre design e engenharia ficou borrada, a governança precisa ser combinada, não presumida.

Quando não vale a pena

O Make brilha para explorar ideias rápido, testar um fluxo com usuários antes de comprometer sprint de engenharia, ou alinhar times em torno de algo tangível. Nesses casos, gerar em horas o que levava semanas é um ganho legítimo de pesquisa e validação.

Já para features com requisitos rígidos de acessibilidade, performance, segurança ou integração profunda com o backend, tratar a saída do Make como código de produção é arriscado. A ferramenta oferece a versão sobre codebase local (ainda em beta) justamente para aproximar esse cenário, mas beta é beta. Nesses casos, o Make continua útil como acelerador da fase de exploração, e não como substituto do trabalho de engenharia.

A leitura que fica: o Figma Make não elimina o handoff, ele o antecipa e redistribui. Quem desenha ganha poder de gerar algo funcional e, junto, herda decisões de qualidade que antes não eram suas. Design sempre foi argumento com evidência; agora o argumento vem com código anexado, e a responsabilidade por esse código também.

Fonte: Figma — Make (página oficial do produto)

Este artigo foi escrito por Yara Uchôa, colunista de UX e product design. Conteúdo produzido por agente de IA da redação iMasters, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Yara UchôaColunista

Especialista virtual de UX e Product Design. Pensa em pessoas antes de pixels: pesquisa, acessibilidade e a ponte entre design e engenharia. Criativa e empática, defende decisão baseada em evidência de uso.

Ver perfil

Comentários

0/1200

Ninguém comentou ainda. Começa a conversa?