Outro dia estava almoçando com um CIO de uma grande empresa que está na reta final para implementar um projeto de nuvem privada. Claro que esse foi o prato principal do almoço.
Como cloud computing ainda está na infância, existem muitas dúvidas e questionamentos sobre o que é possível fazer hoje: o que realmente é concreto e o que não é. Acredito que os principais pontos da conversa podem ser compartilhados aqui.
Pra começo de conversa
Em minha opinião, cloud computing é uma mudança irreversível que vai afetar toda a cadeia de TI, dos fornecedores aos consumidores, de recursos e serviços. Mas seu efeito a médio e longo prazo ainda são desconhecidos.
Por outro lado, esse desconhecimento nos obriga a colocar cloud nas nossas estratégias, porque se seu efeito poderá e deverá ser altamente significativo, simplesmente não podemos ignorá-lo.
A estratégia desse CIO é correta. Ele não está lutando contra, mas buscando se posicionar para melhor entender o que é cloud. O seu primeiro passo é iniciar um projeto piloto para tentar colocar um pouco de ordem na confusão que é cloud hoje.
Essa confusão é causada não só pelo simples fato que estamos nos estágios iniciais de uso de cloud, mas também porque muitos fornecedores divulgam suas próprias visões de cloud – muitas vezes conflitantes entre si. Ainda existe muito hype sobre o assunto.
Esclarecendo discursos e processos
Um ponto que me chama atenção é o foco excessivo no discurso que cloud afeta apenas TI, reduzindo custos, como se fosse uma simples extensão do processo de virtualização.
Porém, enxergo claramente que em breve veremos pela frente o conceito de “Cloud Business”, no qual “Cloud IT” vai não apenas tornar a empresa mais eficiente operacionalmente, mas poderá abrir novas oportunidades de negócio – que não são possíveis sob o modelo atual de TI.
Cloud não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas como alavancador de novas oportunidades de negócio.
Debatendo ideias, promovendo mudanças
Na conversa, destaquei o fato que, diante desse contexto, ele deveria desde agora debater mais intensamente o conceito de cloud com os executivos de negócio da empresa, não tornando o projeto de cloud um mero projeto de TI. Um futuro “Cloud Business” será fruto dessas discussões. Ele, como CIO, deveria assumir a liderança desse movimento.
Além disso, implementar cloud em sua plenitude mudará de forma significativa a própria área de TI. As mudanças serão graduais e tenho a expectativa de que o atual modelo de software on-premise não desaparecerá, mas fará parte do novo mundo “cloudificado”.
Na prática, o que veremos é um modelo híbrido, com empresas usando recursos computacionais on-premise e nas nuvens. Assim, na minha opinião, o debate não deverá ser cloud versus on-premise, mas de onde será mais eficiente e adequado para cada empresa prover suas funcionalidades computacionais.
Não deve ser um jogo de tudo ou nada, mas de buscar o ponto de equilíbrio. É inegável que esse cenário gera novos desafios para TI, que criou e refinou todo um modelo de governança baseado exclusivamente no modelo on-premise.
Fazendo escolhas entre crescentes opções
Na
conversa surgiu também a sempre presente possibilidade das áreas usuárias
bypassarem cloud para implementarem soluções específicas de âmbito departamental.
É um risco real.
Com a crescente opções de ofertas SaaS e IaaS, existe a tentação de áreas usuárias, não satisfeitas com a velocidade de resposta de TI, buscarem soluções em nuvem. O CIO não vai poder lutar contra, mas deve assumir a liderança do processo, e assim influenciar e coordenar melhor qualquer tentativa dessa natureza.
Mesmo porque, mais cedo ou mais tarde, os usuários vão demandar integração dos serviços em nuvens com as aplicações on-premise. Ignorar a situação e deixar que SaaS entre livremente pode, portanto, ser uma bomba relógio.
Repensando maneiras e recursos nas nuvens
Como havíamos falado anteriormente nas mudanças que cloud gerará em TI, esse tema voltou ao debate. Para mim, as mudanças vão se dar em diversos aspectos da relação de TI com o negócio, desde a interface (menos interação face-to-face e mais automatizado), passando por mudanças nos processos de governança e portanto se refletindo na organização de TI, seus skills e modelos de funding.
Operar sob o modelo de nuvem obrigará TI a repensar a maneira de como opera e entrega os recursos computacionais aos seus usuários.
Na minha opinião, a tecnologia não é a principal barreira. É claro que muitas tecnologias ainda estão imaturas, faltam padrões de interoperabilidade e surgem os inevitáveis questionamentos de segurança.
Mas ao longo dos próximos anos elas vão amadurecer e deixar de serem questionadas. Foi assim com todas tecnologias. Já aconteceu com os bancos de dados relacionais, que no início eram considerados ineficientes e inadequados para processamentos transacionais, lembram? Foi assim com o modelo cliente-servidor e mais recentemente com a internet participando ativamente nas operações do negócio, como no E-Commece e no Internet Banking.
Políticas de governança e alocação de recursos
Um dos novos desafios que meu amigo CIO terá pela frente estará na mudança das políticas de governança e alocação de recursos aos usuários. A nuvem privada não é ilimitada. É restrita à capacidade computacional da empresa.
Claro que aos poucos o conceito de nuvens híbridas vai se consolidar e muitas das limitações impostas pelas nuvens privadas poderão ser mitigadas usando-se também recursos computacionais em nuvens públicas.
A estratégia dele é bem cautelosa. Vai começar com um ambiente controlado (desenvolvimento e teste de aplicações) e depois, pouco a pouco, irá ampliando o uso da nuvem.
Lembrei a ele que existe uma curva de aprendizado no uso da nuvem por parte dos próprios usuários e não apenas pelo pessoal de TI. Os usuários têm que se acostumar ao novo modelo.
Como a interface para provisionar e alocar recursos é simples e fácil, existe a tendência natural de se requisitar excessivamente os recursos. Mas como estes não são infinitos, deve existir uma política de pagamento (chargeback) pelo seu uso.
Por exemplo, cada área usuária poderá ter determinado limite de uso de recursos que, se excedido, obrigará esse usuário a liberar algum outro para solicitar um novo.
Cloud computing na prática
Na prática, ao contrário da imaginação que diz que com a nuvem não existem limites, quando se fala em nuvens privadas, deve ser criado um modelo de provisionamento baseado em controle e restrições. Caso contrário, o excesso de solicitações poderá ultrapassar a capacidade instalada, gerando desconforto e insatisfação.
Mas, atenção, TI deverá atuar como coordenador dos recursos e não como seu guardião. O modelo de alocação e funding dos recursos em nuvem deverá ser construído em comum acordo com os usuários e não determinado unicamente por TI.
Uma sugestão é criar um algoritmo de provisionamento e cobrança que leve em conta o valor dos recursos solicitado para o negócio. Na minha opinião, será criado na base da tentativa e erro. Ainda não temos expertise e experiências suficientes em cloud para dizer qual o melhor modelo para cada empresa.
Benefícios e usabilidade
É claro que ao longo do tempo os benefícios com adoção da nuvem vão se destacar: maior flexibilidade e agilidade para provisionar recursos computacionais.
A maior padronização e automatização dos processos de provisionamento e alocação de recursos computacionais reduz a demanda de trabalho manual, deslocando profissionais de TI para tarefas mais nobres e rentáveis para a empresa.
A melhor utilização dos recursos implica uma melhor relação de custo benefício destes. O resultado é que a empresa poderá se tornar bem mais ágil e apta a desenvolver novas oportunidades de negócio.







