NOTÍCIA

Design e sertão


Parece paradoxal falar de sertão, de pobreza,
de cordel invadindo o campo do design, do projetual,
afinal o que há de projeto em uma obra de literatura
de cordel?

Venho aqui provar a tranqüila existência
comum dos temas, sem cair no erro de comparar produção
de literatura de cordel como uma forma de design.
Marx cometeu um grave erro ao dizer que os centros mais
desenvolvidos economicamente produzem uma cultura mais
rica. Da mesma forma, pelas palavras de André
Villas Boas, o design não surge em vilas do interior,
onde não há urbanização
adequada. Primeiramente não há uma relação
direta entre desenvolvimento sócio-econômico
e desenvolvimento cultural. Um exemplo disto é
a superioridade cultural de um país como a Índia
em contrapartida a um país de economia potencial
como os Estados Unidos.
A analogia acima mostra o que ocorre no Brasil. O paradoxo
design-sertão não se deve estranhar. Nosso
nordeste revela uma fonte enorme de cultura, apesar
de não ser desenvolvido como São Paulo
e Rio de Janeiro. Tal afirmação seria
facilmente justificada citando participação
de grandes nomes do design nacional provenientes desta
região. Dessa forma torna-se perceptível
a proximidade da arte regionalista do sertão
com o conceito projetual. A programação
visual está em muitas formas de expressão
cultural e folclórica, apesar de muitas vezes
surgirem de forma inconsciente.

Existe uma metodologia visual padrão,
envolvendo desde a disciplina caseira até técnicas
trazidas por colonizadores franceses e holandeses.
Características como as franjas em excesso, estrelas
laminadas e outros penduricalhos do Boi Bumba, que também
podem ser encontradas nas roupas do típico vaqueiro
ou cangaceiro, ilustram um folclore rico em detalhes,
em artesanato. Das cores, e acessórios que enfeitam
o as festas típicas como o colorido do frevo
de recife aos métodos precários e artesanais
da impressão do cordel.
A estética dos impressos, nos tipos gastos, nas
marcas do buril, nas texturas do canivete da xilogravura,
no método precário da impressão
do cordel, nos penduricalhos das roupas dos vaqueiros,
todas as formas de agregar um valor específico
a uma fantasia ou elemento folclórico são
de grande importância visual e assim torna-se
parte de um projeto.

Daí podemos explorar a relação
do projetual com o artístico. O cordel nada mais
é do que um jornal do sertão, escrito
pelos próprios leitores, que pela dificuldade
de acesso aos estudos, inventam termos, palavras, apresentando
uma criatividade inquestionável. Notícias,
contos, ilustrações, fofocas e relatos
compõem um universo de signos, não só
na forma como se comunicam, mas na unidade com que o
fazem. São distâncias consideráveis
– de Alagoas ao Ceará, no entanto ambas regiões
possuem cordéis com mesmo formato, aparência
e método de produção. O estilo,
o padrão com que são diagramados os libretos,
apresenta elementos blocados, com tipos pesados, sempre
muito legíveis e serifados, certamente limitados
pelo suporte de papel jornal e pela dificuldade de reprodução.
As ilustrações representam e ilustram
os poemas e textos com desenhos estilizados de traços
grossos e poucos detalhes, muito semelhantes às
pinturas de Egito antigo, com desenhos de rostos em
perfil, com os olhos aplicados de frente.

Os animais e a vegetação
de clima seco completam o cenário da dificuldade
de sobrevivência de um povo castigado pela falta
de recursos, mas que ainda assim se esforça para
manter uma tradição cultural de ensino
através de relatos de "causos" corriqueiros
dessa região castigada pela natureza, mas beneficiária
de grande criatividade e imaginação popular.

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