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Pierre Lévy e o novo papel do conhecimento na era digital

Muito do que é estratégico relevante é cognitivamente distante – Giovanni Gavettida coleção de frases

 

Foto: Thelma Vidales

 

Estive no final de agosto na Petrobras para a palestra de Pierre Lévy, aqui no Rio.

(Finalmente, Lévy ao vivo, a cores e em 3D.)   

Lévy tem se dedicado mais recentemente a desenvolver uma nova
linguagem, um projeto prático que visa a facilitar a interpretação dos
códigos da rede.

Quer humanizar o que ainda é não humanizável na rede digital, tal
como os resultados do Google, de tal forma a você mexer dentro dele,
poder manipular os algoritmos.

Só vamos poder ver se tem valido a pena não tê-lo escrevendo mais e
mais na hora em que sair algo concreto, que possamos experimentar.

No seu último projeto prático, não se massificou, como foi o caso do software da árvore do conhecimento.

Tenho dúvida se esse é o melhor caminho dele (mais prático do que teórico), mas quem sabe agora ele acerta?

Porém, com certeza, o forte de Lévy é a sua rara capacidade
associativa/sintética que consegue criar um cenário. baseado na história
humana, mais factível das mudanças que estamos passando com a chegada
da rede digital (Internet) e escrever isso, como sugere Einstein, de tal
forma que qualquer vovó entende.

Levy está a uns 20 anos na frente, assim como esteve em 99, quando
avaliou a partir da história o que estávamos enfrentando com a internet – a
chegada de nova era cognitiva no seu livro Cibercultura (que recomendo como porta de entrada para quem não conhece a sua obra).

Na palestra da Petrobras, ele não trouxe
algo totalmente novo, pois vem aprofundando a base que o fez um dos
maiores pensadores atuais e um, senão o principal,  sobre internet.

Em resumo ele disse:

  • É preciso olhar a história para compreender a internet, senão nos perdemos;
  • A internet permitirá mudanças no planeta com repercussões em vários aspectos da nossa vida.

Percebi que deu uma arrumada melhor na sua divisão histórica, antes
falava nas fases (tempos de espírito) – oral, escrita e digital.

Hoje, inclui a relevância do alfabeto e da mídia de massa como passagens relevantes, etapas da evolução da mídia, que chamou de midiosfera. E começa a fazer a relação entre essas mudanças na política e na economia (até onde ele mostrou por lá).

Mas foi só no sábado, pedalando, quando a poeira do encontro
assentava, que me veio claramente a importância do legado de Levy que
tem influenciado um amplo leque de pesquisadores pelo país afora, dentre
os quais me incluo.

Levy propõe, na verdade, ver o mapa mundi de cabeça para baixo.

 

Explico.

Alguns pensadores ao longo da histórica tiveram esse mérito.

Pegaram um ponto adormecido da maneira que olhávamos o mundo e
repensaram, recolocando ou trazendo luz, nos dando a possibilidade de ver
a realidade sob outro ponto de vista, a partir de problemas que não
podiam mais ser pensados da mesma maneira, pois geravam crises de
percepção, que, por consequência, desembocavam em crises práticas.

(Basta ver o despreparo das organizações para lidar com a rede digital.)

Entre outros:

  • Darwin/Marx – Evolução/Economia/Ideologia – Século XIX;
  • Freud/McLuhan/Einstein – Inconsciente /Comunicação/Relatividade – Século XX;
  • Lévy – Conhecimento/Mídia/Informação – Século XXI.

A grande bandeira de Lévy é muito ousada e, portanto, tão difícil de
ser digerida pela sociedade e, principalmente, pelo dito mercado.

Ele nos propõe a repensar completamente o papel do
conhecimento/informação/comunicação na sociedade, pois víamos esses
fatores como algo secundário influenciado pela política e economia, por
exemplo.

Eram condicionados e não condicionantes.

A chegada da internet nos colocou uma realidade tal que esse tipo de
visão não é tão eficaz, pois a sociedade começa a fazer macro-mudanças
inexplicáveis por causa da chegada da rede.

Novas empresas, novos movimentos políticos, novas formas de se
vender, de comprar, de se informar, de se comunicar, de se relacionar.

E não é nem a economia, nem a política e nem o social que estão
provocando tais fatos, mas a macro-mudança no ambiente da mídia, que
envolve o conhecimento, a informação e a comunicação.

Como isso é possível dentro das teorias que temos hoje?

Ou seja, a rede digital criou um desafio teórico, que Lévy resolveu encarar de frente.

E gerou, a partir de suas teorias, uma crise paradigmática, de
concepção, que nos faz repensar a base de como vemos a sociedade e nós
mesmos.

Lévy sugere inverter o mapa conceitual vigente, demostrando, através
de uma lógica histórica, que, ao contrário de nossa vã filosofia de que
o conhecimento/informação/comunicação, encapsulados em uma nova mídia,
criam a estrada na qual a economia, a política e a sociedade irão
trafegar de forma radicalmente diferente no futuro.

E não, como achávamos antes, o contrário.

Ou seja, se não entendermos as mudanças nesse campo,
não conseguiremos entender a dos outros. Isso é uma ruptura radical na
nossa maneira de enxergar a realidade! E o principal desafio teórico do
século XXI. É o mundo teoricamente de cabeça para baixo.

A nova rede digital influencia a sociedade, que passa a influenciar a
rede, mas, sem a rede, a sociedade não poderia se influenciar e ser
influenciada.

Ele lembra que há momentos na história tal como a chegada da fala, da
escrita, do alfabeto, da mídia de massa, da internet que uma grande
mudança serve como marco, que permite que as outras (econômicas,
políticas e sociais) possam ocorrer em larga escala.

Não é causa, mas uma forte consequência.

Lévy deixa isso claro: não é a mídia que cria a mudança, mas sem ela as mudanças seguintes não serão e não foram possíveis.

A nova mídia é o berço no qual o bebê se deita.

Ponto.

Outros autores, principalmente historiadores, falaram algo parecido,
mas não com a clareza, a simplicidade e o alcance que os pensamentos de
Lévy atingiram na sociedade entre uma parcela importante de
pesquisadores e pensadores, principalmente os menos preconceituosos e
menos dogmáticos.

Leia abaixo com cuidado essa comparação entre economia x mídia para reforçar a ideia do que influencia o que.

Note
que Lévy apresenta que a chegada de novas mídias afeta e permite a
economia das caçadas, da agricultura, do comércio industrial e agora
da economia do conhecimento.

Assim, podemos dizer que o erro teórico principal atual é ignorar o
papel da chegada da rede digital como um fator relevante de análise para
o futuro!

Por exemplo, quando se analisa os recentes movimentos dos países
árabes ou europeus (Espanha ou Inglaterra), lembra-se do papel da rede,
mas não imagina-se que estamos procurando construir uma nova forma de
fazer política, viável agora com o novo ambiente da mídia.

Só uma visão Levyniana permite ver com mais amplidão esses fenômenos,
como primeiros passos de uma nova forma de fazer política e não
movimentos isolados do movimento histórico do avançar de uma nova mídia
desintermediadora.

Ou quando se fala do futuro da economia (capitalismo cognitivo e/ou
digital) e da política (2.0) não se enxerga, quase nunca, o papel que
a nova rede digital terá de forma contundente, marcante nesse processo,
fundando uma nova civilização.

Onde você lê isso com destaque nas revistas de economia?

Ignoram as teorias de Lévy e de outros que caminham na sua trilha, tal como Castells no Brasil e no mundo.

Esse é o principal papel de Lévy para as teorias
sobre a sociedade. Olhávamos o mundo da economia, da política e da
sociedade como influenciadores do conhecimento, da informação e da
comunicação, e não o contrário.

E é esse mapa_teórico_mundi  invertido que estamos vivendo hoje e é tão difícil de aceitar e ver de forma distinta.

Lévy apresenta um atalho mais eficaz para compreender o mundo, mas a
sociedade não quer ver, ignora, pois estamos, como sempre estaremos, no
piloto automático, avessos às novas ideias radicais, como sofreram os
pensadores associativos/sintéticos do passado como Marx, Freud, Darwin,
Einstein, entre outros.

Acho que nessa direção vale a leitura do texto “A nova psicologia da liderança estratégica“, da Harvard Business Review, edição brasileira, de julho, de Giovanni Gavetti,  parte do texto pode ser lida aqui.

Gavetti nos diz que, ao se pensar o futuro, as pessoas
(principalmente os estrategistas) tendem a vê-lo com os olhos do passado
e, no máximo, do presente imediato.

E que se perde muito tempo analisando o que está fora (fatos) e não o
que está dentro “nossos processos mentais” (como pensamos).

Ou a maneira equivocada, viciada, domesticada de vermos o mundo.

Que os estrategistas (responsáveis pelos cenários do porvir)  tendem a
chegar às mesmas conclusões, pois pensam de uma forma muito esquemática
e pouco criativa, não associam, apenas somam as informações.

Que as grandes oportunidades disponíveis (e as mais lucrativas) não serão atingidas se continuarmos pensando de forma usual.

Que temos a tendência de nos deixar levar pelos pensamentos cognitivamente próximos daquilo que as empresas fazem e rejeitar ideias cognitivamente distantes.

Para isso, segundo ele, é preciso praticar um tipo de cognição associativa que nos tire do senso comum.

(Vejo hoje no mercado justamente essa GRANDE dificuldade ainda
mais por que somos filhos, netos e bisnetos da escola não-associativa
muito mais baseada na memória do que na criatividade.)

Estamos tão viciados e tão aflitos para resolver os problemas do hoje
(fala-se em valor e lucro imediato) como se todos estivessem vendo o
mundo de forma prática, mas no fundo da mesma maneira.

Aqui vale chamar o Cortella:

“O mundo ocidental capitalista especializou-se nos “comos” e deixou de lado os “por quês”” – (do Livro “Qual é a tua obra? que considerei um dos melhores de 2011.)

Queremos resolver o como e não perguntamos os porquês das coisas, aonde estão as grandes mudanças que geram as grandes oportunidades!

Nos cursos que faço, muitos dos participantes querem tudo mastigado, pois não querem pensar cognitivamente distantes.

Acham pouco prático algo que será extremamente útil.

Querem resolver demandas e não criar demandas, a partir de um cenário
construído por ideias distantes como estas do Lévy e afins.

Mas, como lembra Gavetti, precisamos olhar as coisas de forma diferente se quisermos pensar a estratégia de forma mais eficaz.

E é justamente isso que Lévy traz para o mundo.

Essa visão cognitiva distante de Lévy, que bate de frente
com a visão do mundo que tem pressa de ganhar dinheiro para ontem,
mas, por incrível que pareça, e está cada vez mais cego para as grandes
oportunidades que pensadores associativos/sintéticos projetam de
forma eficaz para o futuro.

Justamente onde estão as grande oportunidades de gerar valor.

Ou seja, quer se gerar valor, desde que não precise mudar quase nada!

É o valor da mesmice!

Esse é o dilema (e mesmo o drama) dele e da nossa civilização, a primeira da nova era digital.

Nossas cabeças cognitivamente viciadas não conseguem (por enquanto)
compreender o que, de fato, vivemos e o mega-desafio que temos pela
frente.

Lévy está aí para ajudar, mas quem quer, de fato, ouvi-lo e praticar o que ouviu?

Fica tudo uma grande curiosidade, mas quando acaba todo mundo volta para casa e para a sua mesa de trabalho..ouve-se:

Ok, agora vamos voltar para “a realidade”. 

É isso!

Que dizes?

é Consultor estratégico de Internet, incentivador de inovação disruptiva digital, publica originalmente em nepo.com.br e divulga no Twitter @cnepomuceno (Twitter) e facebook.com/carlos.nepomuceno, além do canal do Youtube: http://www.youtube.com/user/cnepomuceno

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