Quando o consumidor muda, tudo muda! – Nepô – da safra 2011.

O ser humano estabelece redes sociais desde que saímos das árvores e das cavernas.
Essas redes sociais são baseadas na confiança entre os membros para
que todos possam se sentir seguros para resolver seus problemas da
melhor forma com o menor esforço.
As redes sociais criam relações baseadas na comunicação, na
informação e no relacionamento que vão construindo uma base sólida de
trocas de todos os tipos.
Motivo: sobrevivência.
Isso é algo constituinte do ser humano, que muda e se adapta, conforme as necessidades históricas.
Sempre foi assim e sempre será assim, com variações das épocas, pois somos animais grupais e sem o grupo tendemos a perecer.

Temos crescido em população a taxas cada vez maiores (principalmente nos
últimos 200 anos – de 1 bi para 7 bilhões) e criamos um setor produtivo
sofisticado para permitir que todos possam sobreviver e viver na atual
sociedade.
O setor produtivo para gerar valor foi sentindo necessidade de
sofisticar essa relação com seus consumidores para que estes, a partir
da confiança, da memória, da lembrança de determinado produto ou do produtor se
sentisse impelido/ou tranquilo para consumir.
Esse processo estratégico cada vez mais sofisticado de trocas e de criação de imagem é o que podemos chamar de marketing.
Marketing é um elemento fundamental para a sobrevivência das
empresas e também da sociedade, pois é ele que faz o ajuste entre a
oferta e a demanda para deixar todos menos insatisfeitos possível
nessa constante troca.
(Obviamente, que o marketing não se resume apenas ao setor
produtivo, pois todos os setores da sociedade – Igreja, ONGs, Governos
– fazem marketing, porém quando falamos do marketing acabamos falando mais
do setor produtivo, pois é o que acaba empregando a maioria.)
O marketing procura estabelecer uma imagem positiva em quem consume
para que se sinta vontade de se continuar trocando com aquele
produto/produtor.
Há diversas atividades do marketing, mas esta é a essência: manter a
relação ativa, o canal de troca aberto, através de várias ações nessa
direção, transformando desejos e latências em produtos.
Por fim, o marketing se estabelece tanto em termos de ações reais e
concretas, mas também – e cada vez mais até aqui – na capacidade dos
produtores de criar uma determinada imagem do produto ou produtor.
O marketing é parte ação e parte criação de ilusão.

Já que toda imagem construída é uma ilusão que vai se reforçando, ou
se quebrando, a partir da relação que vai se estabelecendo no longo do
tempo.
Não há, entretanto, imagem que resista a problemas ou à consciência
dos mesmos ou ainda ao conhecimento de que o outro produtor está
oferecendo algo melhor.
Ou seja todo trabalho do marketing pode se desmanchar no ar.
O marketing trabalhar assim com percepções e nem sempre com fatos.
Um jogo entre ilusão de um lado, e frustração, de outro.
O objetivo permanente é que o consumidor tenha uma imagem positiva do produto/produtor sem deixar a frustração chegar.
Isso pode ser feito de duas maneiras: manter a ilusão, quando os
problemas aparecem, criando fumaça. Ou tentar resolver o problema,
provocando e mantendo o fogo.
Podemos dizer que hoje estamos saindo da fase do marketing fumaça e com um grande desafio do resgate do marketing do fogo.
A variação entre essas duas taxas (fumaça/fogo) é
dependente dos canais pelos quais circulam as informações, as
comunicações e os relacionamentos entre os consumidores.
Quanto mais controlado forem esses canais, mais o
marketing tem espaço para criar ilusão e fumaça, pois menos poder tem o
consumidor para influir no processo; e quanto menos controlado, mais
esse espaço se reduz, mais poder tem o consumidor e mais o marketing tem
que produzir fogo.
Ou seja, dizer algo e fazer outro é possível, desde que o espaço
entre as duas ações não seja descoberto, fique escondido na fumaça.
O ser humano se aproveita da sombra quando é possível, como afirma
Freud, que é a civilização que contém o ser humano, que não é bom por
natureza.
Para isso, o marketing desenvolveu um conjunto de recursos bem
sofisticados que a rede social da mídia de massa ajudou a construir.
O marketing atual se viciou na fumaça e está pouco preparado para viver no mundo do fogo.
Na solução dos problemas do consumidor.
As empresas dizem que é o consumidor que tem razão, mas, de fato, é o
acionista, antes de tudo, e o lucro de curto prazo que estão no topo da
pirâmide.

O que acabou resultando na sociedade uma imagem do consumidor, que interpreta a palavra marketing como mentira, com algo que não é real, com alguém que quer passar a perna no outro.
Não é fato?
É esse modelo ilusório do marketing fumaça que está ficando obsoleto com a chegada da rede digital.
E esse é o principal desafio do marketing 2.0,
resgatar o conceito original do marketing que é estabelecer uma relação
entre produtor e consumidor com menos fumaça possível, em uma relação
ganha-ganha.
Para isso, há necessidade de uma mudança mais profunda das
organizações, que começa no topo e que o marketing é mais um setor que
precisa se alinhar a ela.
Nesse sentido, muito mais do que um problema de marketing, são
as empresas que estão na berlinda, pois precisam repensar seus valores,
cujo o marketing é o espelho.
A transparência que a internet traz para o mundo deixa o rei da corte e os nobres do marketing nus.
E, como já ocorreu com a chegada de novas redes sociais no passado,
há uma crise de ética que começa a se formar, gerando cada vez mais
crises, entre o que se diz que faz e o que se vê, de fato, através da
lente de aumento de um mundo mais transparente.
O que antes era aceito por desconhecimento ou falta de articulação social passa a não ser mais.
É uma crise que afeta a sociedade como o todo, as organizações
principalmente e, por sua vez, o marketing que é a ponta dessa relação
com o mercado.
Quando o consumidor muda, tudo muda!

O que está mudando, afinal?
Estamos aprendendo a duras penas que as redes sociais humanas mudam
com o tempo, pois as redes sociais cognitivas de troca (informação,
comunicação e relacionamento) que achávamos que eram montanhas são vulcões.
As redes sociais não são estáticas e quando mudam de forma radical vão alterando a sociedade com ela.
Não são causa, mas provocam consequências e aceleram as causas.
E isso é fundamental para pensar marketing e sua respectiva estratégia para o século XXI.
Ou seja, já tivemos:
- O marketing na rede social oral, que fazia um tipo de relação, vide igreja até o século XIV;
- O marketing na rede social do papel impresso;
- O marketing na rede social da mídia de massa;
- E o marketing na era da rede social digital.
Mesmo que não chamássemos o marketing assim no passado ele estava
lá cumprindo a sua função, mediando a relação entre pessoas e
instituições.
O que muda nessas passagens?
O consumidor vai ganhando, a cada uma dessas etapas, mais canais de
informação, de comunicação e de novos relacionamentos, e vai adquirindo
mais poder e maturidade, impedindo que o setor produtivo, incluindo o
poder estabelecido, possa continuar a fazer determinadas coisas que
faziam antes.
Vai colocando um tipo de marketing ilusório na berlinda.
A relação muda, pois há mais poder do lado do consumidor, que obriga
mudanças de atitudes éticas do produtor, que se refletem na estratégia
do marketing.

Ou seja, o espaço de algumas práticas do setor produtivo se reduz
quando novas redes mais abertas chegam à sociedade, pois o que estava
mais na sombra vem mais para a luz, pois sempre haverá sombras e a
tentativa de se jogar luz.
Assim caminha a humanidade.
Apontaria, então, alguns pontos que são visíveis na passagem da rede social da mídia de massa para a rede social digital:
- o consumidor sabe mais sobre os produtores e se articula muito mais
do que antes, pois pode blogar, filmar, postar, comentar, criticar,
espalhar e conversar e saber o que pensa e sofre o outro consumidor.
Isso é fatal para quem quer iludir; - as ferramentas permitem que você compre de desconhecidos, alterando o
critério de reputação, o que abre espaço para micro-empreendedores, que
podem se tornar mega-competidores, tanto com projetos comerciais ou
livres (como foi o caso do Linux, por exemplo, que criou uma enorme dor
de cabeça para a Microsoft, por exemplo); - empresas não produzirão mais sozinhas, precisarão do consumidor, o
que altera a maneira de atrair, pois passamos do consumo passivo para o
consumo ativo, aumentando muito a fidelização e a relação contínua com
os clientes.
Em resumo, há um reequilíbrio de forças entre o setor produtivo e os
consumidores, que passam a ter mais poder do que tinham antes e isso nos
leva a tendências:
- mais coerência entre o que se diz e o que se faz/o que se diz
que vende e o que de fato vende (o que anda se chamando de capitalismo
2.0); - uma relação de diálogo, de co-criação (que exige uma relação de confiança muito maior);
- e um alinhamento do marketing com outros setores da empresa, pois
estabelece-se uma grande rede produtiva (e não mais ações isoladas em
que um vai para um lado e o outro, para o outro).
Pois bem, o marketing existe independentemente de estar no mundo digital
ou não, portanto, concordo quando muita gente diz, inclusive a Martha
Gabriel, que existe Marketing no mundo digital e não Marketing Digital.
Porém, há mudanças históricas na sociedade, pois a base do
relacionamento produtor/consumidor está em desequilíbrio cada vez mais
evidente com a transparência da rede, e isso afeta diretamente como vai
se estabelecer essa base de relação de confiança, que agora precisa ser
cada vez mais estreita.
As empresas precisam e estão procurando se renovar, procurando
reconceituar o seu papel ético na sociedade. E o marketing 2.0 vai junto
se alinhar e ajudar nessa tarefa.
É isso.
Que dizes?







