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O ecossistema dos livros

No final de 2008, a Fourth Estate, selo da editora HarperCollins, produziu uma animação em stop-motion intitulada “This is where we live” para celebrar seu vigésimo quinto aniversário.

Uma página recortada de O escafandro e a borboleta, do francês Jean-Dominique Bauby, assume a silhueta de um homem, com seu chapéu, pasta e guarda-chuva, e sai a passear por uma cidade construída de livros. Outros recortes o acompanham, ora assumindo a forma de uma árvore, ora de um pássaro, barraca, prédio ou ser humano.

Aquela cidade literária, bastante movimentada por sinal, é construída de referências: seus bares, cinemas, museus, roda gigante e bicicletas, cães, gatos e suicidas. Os carros que vêm e vão, o vozerio, a poluição [sonora e visual], a vida diurna e noturna são modeladas entre capas de livros: nossos olhos de expectador observam o Imperial War Museum é The Great War For Civilisation, de Robert Fisk, The Corrections, de Jonathan Frazen, agora é uma faixa de pedestres e Longitude, de Dava Sobel, foi transformado no observatório de Greenwich, enquanto pássaros batem em revoada em torno de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, de Michael Chabon.

Mas há algo que me inquieta, enquanto acompanho, os olhos atentos, o passeio do homem recortado, de chapéu, pasta e guarda-chuva, símbolos e sinais, pela cidade literária, colorida e vivaz.

Se por um lado a música ao fundo relaxa e até distrai, por outro, me perturba a ideia de que os livros possam viver em um mundo à parte, só deles, satisfeitos e realizados, congelados no tempo, em uma cidade de livros, onde seres recortados de páginas, animam-se e vivem suas rotinas, desprovidos da necessidade de uma conexão significado-significante com seus leitores, agora convertidos em existências alienígenas.

O homem-passeante, um flâneur, enigmaticamente desaparece [ou transmuta-se] na frente de um cinema, onde um cartaz anuncia “Em breve, O escafandro e a borboleta”, e o ciclo novamente se fecha [agora, talvez, sob os auspícios de uma sociedade cada vez mais baseada na imagem].

Não são poucos os escritores que já desconfiaram, pelo menos uma vez na vida, que os livros também conversem entre si [algo que a animação, cheia de referências, implicitamente, explora].

Um fenômeno, aliás, não muito difícil de se testemunhar, afinal, existe de fato um ecossistema de livros, um conjunto de fatores bióticos e abióticos atuando sobre eles.

Tomemos como exemplo as diversas anotações, em camadas, que vão sendo acumuladas nas páginas de certos livros, por diversos leitores, distribuídos no espaço e no tempo.

Em bibliotecas e sebos, certos livros que folheamos, geralmente, oferecem mistérios mais instigantes até do que as próprias histórias que tentam contar. Entre suas capas encontraremos anotações, flores fossilizadas, recortes de jornais antigos e trechos sublinhados. Os últimos, por sinal, merecem a nossa especial atenção.

Ao realçar palavras e passagens [anotadas ou não], que pistas, que hiperlinks, esses sublinhadores quiseram deixar para eles mesmos no futuro, talvez, ou mesmo para os próximos leitores? Quais foram as suas intenções? Que visões tiveram ao ler aquelas passagens e que, sublinhando, pretenderam apontar, linkar, compartilhar?

Livros como constructos sociais

Geralmente, pensamos em livros como objetos, mas livros são constructos sociais.

A leitura [além de reescrever o livro] é um ato social. O que se publica tem menos a ver com o livro [ou o autor] em si, do que com as pessoas que os lêem. Assim, um livro deveria ser visto como um processo, um work-in-progress, não como obra concluída, fechada, algo que me parece impossível.

De que forma estranha nos relacionamos com os livros, instrumentos míticos, místicos, fantásticos, algo que existe entre mundos. Essa ideia da transcendência do livro é muito forte e paira como uma força imponderável, intransponível, sobre nossas cabeças.

Pergunto-me [pergunta cada vez mais frequente e inquietante]: o que são os livros?

Livres da relação significado-significante que lhes damos, o objeto livro continua existindo para além do conteúdo e formato atuais? O que permaneceria para além de uma descorporificação, desmaterialização desse objeto idealizado, feito da armazenagem de memórias e imaginação?

Livros são meios de comunicação que desprezam as leis da física que tentar nos limitar [distanciar e aprisionar] em relação ao nosso próprio tempo e espaço. Através dos livros, somos eternos e dialogamos com passado, presente e futuro.

Onde foi que li aquela passagem que quero [e não consigo] me lembrar? Quero citar uma ideia, mas não me recordo em que livro a li, qual era mesmo seu autor? São perguntas que geralmente nos fazemos.

Os livros, segundo o escritor argentino Jorge Luis Borges, são lidos para ficar na memória [revistas e jornais, para o esquecimento]. O grande problema, entretanto, está em nossa própria memória, que falha e compromete.

Somos, segundo o psicólogo canadense Steven Pinker, seres verbívoros, ou seja, feitos [porque delas nos alimentamos] de palavras, mas também somos feitos de esquecimento.

O ecossistema dos livros

E o que significará a leitura no futuro? A leitura on-line, por exemplo, não é mais determinada pelo espaço entre as capas de um livro, que na web torna-se um ambiente [virtualmente ilimitado] de participação ativa, transformam-se em comunidades sociais. Na web, todo livro, potencialmente, passa a ser um meio de acesso a todas as ideias e pensamentos encontrados neste livro ilimitado, invisível, composto, virtualmente, de todos os livros já escritos.

Esses ambientes de leitura, verdadeiros ecossistemas de livros, acessados através de diversos dispositivos, de celulares, leitores dedicados de livros eletrônicos [como Kindle, Sony, Plastic Logic etc.] a notebooks, netbooks e TVs, antecipam uma literatura contemporânea, cada vez mais amalgamada com a tecnologia, transformada [e potencializada] em web services .

A ideia pode parecer absurda e complicada, mas não o é, apesar de, inevitavelmente, envolver uma mudança de paradigma.

Abre-se, então, uma possibilidade de acesso à informação, jamais imaginada na história da humanidade. Editores e autores podem, com criatividade, atingir um público potencial também jamais imaginado.

Se os livros, como gosto de enfatizar, devem ser vistos como serviços [pelo menos os livros em redes digitais], a própria literatura tende a ser, no futuro não muito distante, um web service: leremos o livro, extrairemos trechos, converteremos o texto em áudio [e imagens], interagiremos com dicionários e enciclopédias on-line e outros leitores [e escritores, por que não?] do mesmo livro, em um grande ecossistema ao redor do texto.

Os livros, seja lá o que foram, sejam, ou forem, jamais estarão sós novamente, vivendo em um mundo fantástico, fantasioso, fantasmático, somente deles.

E nós, seus leitores, muito menos.

Diretor-Executivo da Obliq Press, startup carioca especializada em engenharia e tecnologia editorial, representante oficial no Brasil da plataforma editorial on-line Pressbooks.

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