DevSecOpsARTIGO

Da virtualização para cloud computing: da teoria para prática

Há poucos dias participei de um webcast com o iMasters abordando temas importantes dentro de Cloud Computing. A ideia era debater com mais detalhes e enfoques práticos de como implementar cloud, com o título sugestivo de “Road Map da Virtualização para Cloud Computing”. Vocês podem conferir a íntegra do webcast através do vídeo com cerca de 85 minutos de duração.

Cloud computing, embora muitos talvez ainda não tenham percebido, tem o potencial de mudar de forma radical a indústria de TI, afetando tantos os produtores como os consumidores de produtos e serviços.

Da mesma forma que o modelo cliente-servidor provocou um choque sísmico na indústria de TI,  criando novas empresas como Oracle e Microsoft, esse modelo também eliminou outras como Digital e Control Data, que não souberam compreender a mudança.

O mesmo acontecerá com a indústria de TI atual. Novas empresas estão surgindo e outras ainda surgirão, enquanto algumas, tradicionais, podem até mesmo desaparecer.

Modelos e conteúdo do webcast

O modelo de cloud se baseia em três pilares básicos: virtualização, padronização e automação. Em consequência, surge a possibilidade de se requisitar e obter os recursos de TI por meio de portais self-service.

No webcast abordei em mais detalhes os benefícios obtidos com este modelo, bem como os riscos a que toda novidade se expõe. Também mostramos um road map que orienta as empresas a desenharem sua jornada em direção à computação em nuvem.

Um item que mereceu certo destaque foi quando debati as “lessons learned”, uma coletânea de erros e acertos que envolveram dezenas de projetos de implementação de Cloud Computing em todo o mundo. Vale a pena investir hora e meia e assistir ao vídeo (é um longo tempo, eu sei…), já que o tema está cada vez mais no centro das telas dos radares das empresas.

Mergulhando nas dimensões da nuvem

Gostaria de aproveitar este artigo para fazer alguns comentários adicionais ao webcast. Primeiro, embora já se fale muito no assunto, ainda vejo um certo desconhecimento quando se mergulha nos detalhes. Ou seja, quando nos deslocamos do conceito para a prática.

Uma nuvem deve ser vista sob duas dimensões: pelo seu nível de abstração (IaaS, PaaS e SaaS) e pelo modo como estes serviços podem ser entregues – em nuvens públicas, privadas e híbridas, com aplicações em nuvens privadas e outras em nuvens públicas. 

Estas diversas formas de vermos a computação em nuvem se traduzem em formas diferentes de implementar mecanismos de segurança, por exemplo. Em nuvens públicas, os mecanismos de segurança tradicionais não se aplicam de forma adequada. 

Observei em um recente evento de segurança que muitos profissionais da área ainda não estavam compreendendo as diferenças entre nuvens privadas e públicas, e apontavam os mecanismos de segurança usados hoje no modelo on-premise como válidos para nuvens públicas. Eventualmente, com poucas modificações podem ser adotados em nuvens privadas, mas discordo de sua aplicabilidade nas nuvens públicas.

Serviços disponíveis e custos

Outro ponto que me chama atenção é que os modelos IaaS (Infrastracture-as-a-Service) e SaaS (software-as-a-Service) são razoavelmente compreendidos, mas PaaS (Platform-as-Service) ainda está meio nebuloso. Talvez possamos resumir seu conceito como “middleware as a service in the cloud”.

Mas, atenção, não significa simplesmente colocar um middleware tradicional do modelo on-premise em uma nuvem IaaS. Se você ainda necessitar de uma boa e velha licença de software tradicional, você não estará adotando o conceito de serviços. Será apenas um software hospedado em um provedor de IaaS. Mas se o middleware for disponibilizado como serviço, o termo estará correto.

Na minha opinião, o melhor exemplo de PaaS é o force.com criado pela salesforce.com e adotado como definição padrão pelo NIST, órgão de padrões do governo americano.

Outro aspecto para o qual chamo a atenção é que nem sempre o motivador para adoção de cloud será redução de custos. Em uma nuvem privada, por exemplo, a agilidade e a flexibilidade para atender novos serviços é o principal atrativo, embora a empresa ainda tenha que despender muito dinheiro com seu ativo de hardware e software.

Claro que existe potencial de redução de custos pela padronização e automação, que diminui os custos operacionais, mas agilidade na obtenção de novos serviços de TI está se tornando o principal driver para sua adoção. Pensem nisso.

Novos meios de introdução na nuvem privada

Uma nuvem privada introduz um novo meio para TI interfacear com seus clientes (através de portal self-service com um catálogo de serviços padronizados) e uma nova maneira de entregar estes serviços (automatizado, sem interferência do pessoal de TI, deixando a cargo do próprio usuário o que e quando usar os serviços).

Estas mudanças demandam um novo modelo de relacionamento entre TI e seus usuários e, em última análise, como os próprios usuários desenvolvem seus negócios.

Portanto, a adoção de uma nuvem privada requer mudanças na organização, processos e modelos de custeio e negócios de TI. A empresa desloca seu foco de TI da ótica de tecnologias e ativos (servidores e softwares) para serviços.

É um processo gradual, que deve começar por uma área relativamente isolada (como desenvolvimento e testes) e aos poucos se expandindo para o ambiente de produção.

Nuvem pública: quando adotar?

Agora a questão é: quanto a adotar uma nuvem pública? Se a empresa não tiver sistemas legados, será bastante simples. Começa do zero em um ambiente de nuvem, sem necessitar de comprar servidores e softwares. Mas e se existir um legado?

De maneira geral, para empresas que já dispõem de TI, identifico três motivadores para adoção de nuvens públicas:

  1. Sistemas legados obsoletos estão impedindo o crescimento do negócio;
  2. Os recursos de TI estão subdimensionados e não suportam crescimento da demanda;
  3. A empresa vai lançar novos serviços e não quer manter o modelo tradicional on-premise, pois cloud faz mais sentido para ela.

A escolha do provedor de nuvem pública não pode ser feita de maneira simplista. Entre os quesitos de avaliação, como grau de segurança e disponibilidade que ele oferece, um item que deve ser validado é como você conseguirá interoperar os sistemas que estarão na nuvem com os legados, on-premise? Esta interoperbilidade é fácil ou vai demandar esforço para escrever novos códigos acessando APIs específicas?

Não esqueça que muitas vezes você terá que operar um software, como um banco de dados, tanto na nuvem como suportando aplicações on-premise. Você poderá expandir a licença on-premise para também operar o software na nuvem, sem gastos excessivos?

Enfim, estamos ainda dando os primeiros passos nesta longa jornada e pouco a pouco vamos acumulando mais e mais conhecimento. Talvez o webcast ajude um pouquinho nesta compreensão. 

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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