A quantidade
de informações que se recebe por dia é assombrosa. Outro dia, fui a uma loja
comprar um smartphone para mim. Uma hora e meia depois de olhar incessantemente
todas as opções disponíveis, vi-me incapaz de escolher com segurança um que se
adequasse às minhas necessidades.
Para cada
modelo que escolhia, o vendedor me mostrava ou eu via um melhor com mais
funcionalidades e, lógico, mais caro. Quando tinha escolhido um, o vendedor
falou: “Na semana que vem vou receber um da Nokia com tais e tais
novidades…”. Resolvi voltar para casa sem o smartphone que havia escolhido.
Como muitos
acham, a melhor opção é não ter opção. Por mais informações que tenhamos a
respeito de um produto ou marca, sempre teremos que comparar os inúmeros critérios
de escolha com seus pares. Dependendo do número, essa tarefa pode se tornar
muito complexa.
O número de
informações gera uma tremenda dispersão do público entre as mais distintas
variáveis e caminhos.
Para
distribuir todas as informações disponíveis e acomodar todos esses usuários, a
quantidade de canais digitais que surgem a todo momento torna-se cada vez maior
e mais segmentada. Isso significa, é claro, uma crescente dispersão do
consumidor entre um sem-número de opções.
Ao contrário
do mundo off-line, os indivíduos que se encontram na frente de um computador
não estão concentrados em apenas uma dúzia ou uma centena de sites (no meu
caso, uma dúzia de smartphones). A audiência está totalmente dispersa entre as
bilhões de páginas existentes. Se escolher criteriosamente um dentre doze já é
bem difícil, imagine multiplicar isso por nove casas decimais.
Uma
considerável porcentagem de usuários parte do site Google e vai parar naquelas
páginas que o mecanismo de busca aponta como as mais relevantes. Para cada
palavra, contudo, há uma dezena de “mais relevantes”.
Imaginando
que a quantidade de palavras que são digitadas pelos usuários do Google é tão
grande quanto a diversidade de assuntos que há no mundo, a dispersão é bem
grande.
Na época de
ouro do broadcast e das mídias de massa, a tarefa de encontrar o consumidor foi
facilmente resolvida e sustentou durante décadas o império da propaganda.
A quantidade
de websites representa um grande problema para as agências, e, se vista com os
olhos do velho mundo analógico, a tendência é que o problema se agrave.
Saber por
onde navega seu consumidor e encontrá-lo é como achar uma jangada no oceano
Atlântico: você pode até saber que ela está em algum lugar por lá, mas vai
precisar gastar muito tempo e dinheiro para encontrá-la.
Frente ao
problema de difícil solução que é encontrar seu consumidor, empresas gastam
centenas de milhões de reais para resolvê-lo. Já sabemos que o usuário dispõe
de inúmeros canais de informação que pode escolher, e que é ele,
exclusivamente, quem escolhe o caminho a tomar e o que quer ver. Isso torna o
problema de encontrá-lo, em primeira instância, bem difícil de ser solucionado.
No entanto, o pressuposto está errado.
Há muito
sabemos ser imprescindível uma significativa base de dados para que tenhamos
informações suficientes de qualidade advindas da quantidade que torne possível
uma boa escolha. Com a crescente velocidade e capacidade de armazenamento da
informação, contudo, torna-se mais e mais difícil a triagem de informação de
qualidade frente à quantidade que hoje se apresenta. Precisaríamos de vidas
inteiras para extrair qualidade da quantidade.
Só o
DeepBlue conseguia analisar 200 milhões de opções por segundo. Nós não chegamos
nem perto disso. Não conseguimos analisar todas as informações com o grau
aprofundado de que necessitamos. Este é um velho dilema da velha economia.
O mundo vive
o dilema da informação: uma maior quantidade de dados sobre um assunto nos dá
maior segurança para o processo decisório. No entanto, quanto mais informações,
maiores também são nossa impotência e nosso desalento diante da abundância a
ser verificada criteriosamente. Como dizia o Nobel de economia Herbert Simon,
“cada abundância gera uma nova escassez”. A escassez agora não é mais de
informações, é de atenção. Gerada pelo excesso de informações.
Uma análise
pormenorizada de todos os dados nos daria a capacidade incontestável para tomar
uma decisão, mas em um período de tempo que tendesse ao infinito.
Uma maior
quantidade de informações nos dá segurança de escolha, ao mesmo tempo em que
gera insegurança de não ter todos os dados necessários para a decisão, pois
sempre haverá outras opções e informações a serem consideradas. Para vencer o
dilema, optamos pelo reducionismo. Descartamos aquelas que não nos parecem
relevantes a uma primeira e subjetiva análise para nos dedicarmos às restantes.
Para tanto,
precisamos de algum critério que as reduza àquelas informações que nos
interessam. Precisamos hierarquizar e priorizar os diversos dados de que
dispomos para viabilizar a escolha.
O dilema
pode ser resolvido por nós mesmos ou por alguém em quem confiemos, que nos dará
as melhores opções. Esse alguém processará as milhões de alternativas
disponíveis e selecionará de maneira rápida e eficiente aquelas que nos são pertinentes
– um especialista que faça a interface entre nós e um mundo de dados que não
nos é importante.
Com essa
prévia análise podemos verificar um número limitado e hierarquizado de
informações. Essa filtragem é essencial para que decidamos sobre uma base
finita e relevante. A constante falta de tempo a qual todos estamos submetidos
faz com que o papel desse intermediário seja de uma gradativa e crescente
importância cotidiana.
O processo
de escolha a partir da hierarquização de dados traz seu bônus. Entretanto,
também apresenta seu ônus. A partir do momento em que eliminamos uma grande
quantidade de informações para refletir mais demoradamente somente sobre
algumas, o critério de filtragem torna-se o elo crítico de tal processo. O fato
de termos de aplicar um critério de filtragem torna-o de fundamental valor para
a priorização correta.
Com a
hierarquização da busca pela melhor informação sob um determinado critério,
muitas opções que poderiam ser válidas em um outro critério acabam por
ficar de fora.
Um outro
problema é que certo incômodo pode ser gerado a partir do momento em que o
especialista, aquele que determina o critério de filtragem das informações,
seja sujeito a uma relação promíscua entre o critério e as próprias opções.
Imagine um
especialista em compra de carros que seja proprietário de uma concessionária de
veículos da Ford, ou um médico que receba “incentivos” de um determinado
laboratório (sabemos que isso não acontece no Brasil, certo?).
Tal
especialista, que tem o papel de filtragem de dados, deve em primeira instância
ser confiável. A credibilidade é sua arma para nos convencer de que usou o
melhor critério. Uma vez que esse laço de confiança é estabelecido, o restante
do processo ocorre de forma rápida e automática.
Todos sabemos
que existe uma fragilidade do sistema de filtragem de editores-chefe de
jornais, revistas ou rádios. O filtro humano opinativo e retórico.
Se o ser
humano, com sua limitada e parcial visão de mundo, pode não ser o melhor
especialista para nos servir de filtro, partamos para a matemática e, com ela,
para as máquinas para serem nossos guias imparciais.
Apesar de
muitos considerarem a estatística como a ciência da manipulação dos números
(há, inclusive, uma piada que diz que se eu comi dois camarões e você não comeu
nenhum, a estatística dirá que cada um de nós comeu um camarão, o que pode
trazer resultados muito diferentes se você for alérgico!). Apesar de certa
descrença com a estatística e com os números, eles ainda trafegam livremente
pelo mais imparcial dos mundos: o da matemática.
A ascensão
dos guias especialistas mecânicos explica-se, em boa parte, pela abrangência
com que fazem suas pesquisas e pela imparcialidade de seus resultados, entre os
quais há destaque para os mecanismos de busca do Google e do BuscaPé (enfim, um
brazuca nesse universo).
O Google com
seus critérios imparciais se torna facilmente o nosso especialista preferido
para reduzir o número de opções para apenas dez. Em um mundo em que o bem mais
escasso é a atenção, não é de se admirar que esse buscador tenha alcançado um
papel tão importante na nossa nova economia global.







