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Robôs podem fazer 74% do trabalho físico? Cuidado com essa manchete.

Robôs podem fazer 74% do trabalho físico? Cuidado com essa manchete.
Imagem: Cezar Taurion

Tenho visto com frequência estudos sobre IA↳Inteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI → e robótica virarem manchetes muito mais bombásticas do que os próprios resultados permitem. Algo como “robôs já podem realizar 74% do trabalho físico” rapidamente pode virar “robôs podem eliminar 74% dos empregos físicos”.

Não é isso que o novo estudo da Anthropic, “What work can robots do?”, demonstra. Li o trabalho com atenção porque ele faz uma distinção que considero essencial para qualquer discussão séria sobre futuro do trabalho. Exposição de uma profissão à robótica não significa substituição do profissional. O estudo analisa tarefas dentro das ocupações e estima em que condições robôs disponíveis hoje conseguem executá-las.

A metodologia parte de aproximadamente 900 ocupações e 19 mil tarefas do O*NET americano. Cerca de 7.600 tarefas classificadas como físicas são avaliadas em quatro níveis. No E0, robôs não conseguem realizá-las. No E1, conseguem apenas em ambientes preparados especificamente para robôs. No E2, conseguem operar em ambientes humanos estruturados, como armazéns. Somente no E3 conseguem realizar a tarefa em ambientes não estruturados, como uma estrada.

Daí surge o número que provavelmente produzirá as manchetes. Cerca de 74% das tarefas físicas, ponderadas pelo tempo de trabalho e emprego, apresentam algum grau de exposição à robótica. Elas representam aproximadamente 34% do tempo total de trabalho analisado na economia americana.

Mas o detalhe muda completamente a interpretação. A maior parte dessa exposição depende de ambientes controlados. Aproximadamente metade do trabalho físico está no E1, 22% no E2 e apenas 2% no E3, no qual o robô consegue operar em ambiente não estruturado.

Existe, portanto, uma enorme distância entre “um robô consegue realizar essa tarefa em alguma condição” e “um robô pode substituir hoje a pessoa que exerce essa profissão”.

E aparece uma segunda distância ainda mais importante, a econômica. Embora tarefas correspondentes a 34% do tempo de trabalho estejam tecnicamente expostas à robótica em alguma condição, o estudo estima que robôs sejam atualmente competitivos em custo para apenas 0,3% do trabalho. Isso não significa 0,3% dos empregos, mas uma parcela estimada do trabalho ponderada pelas tarefas e pelo tempo dedicado a elas.

Capacidade técnica e viabilidade econômica são coisas diferentes. Robótica exige hardware, integração, manutenção, energia, supervisão e, em muitos casos, mudanças no próprio ambiente. O estudo estima que seria necessária uma queda de aproximadamente 70% nos custos para tornar robôs competitivos em 10% do trabalho. Mantida a tendência histórica considerada pelos autores, próxima de 3% de redução anual de preços, isso levaria cerca de 40 anos. Eles próprios alertam que avanços tecnológicos podem acelerar substancialmente essa trajetória.

Outro número exige o mesmo cuidado. Ao combinar as medidas de exposição a LLMs e robôs, o estudo chega a aproximadamente 81% do trabalho exposto a pelo menos uma dessas tecnologias. Mas isso não significa 81% automatizável ou 81% dos empregos ameaçados. As próprias métricas de exposição usadas para LLMs e robôs medem conceitos ligeiramente diferentes.

Há ainda gargalos que não desaparecem simplesmente adicionando IA. Limitações de capacidade afetam cerca de 70% das tarefas físicas, segundo a metodologia. Manipulação de objetos aparece como o principal obstáculo. Regulação é considerada restrição para cerca de 14% e preferências humanas para aproximadamente um quarto das tarefas.

E existe uma distinção fundamental que frequentemente desaparece nessas discussões. Uma tarefa não é uma profissão. Um soldador não apenas solda. Posiciona peças, inspeciona qualidade, prepara materiais, trabalha em locais difíceis e resolve situações imprevistas. O estudo mostra que robôs já conseguem soldar autonomamente em determinadas condições, mas estima que automatizar o conjunto das tarefas expostas de um soldador custaria aproximadamente cinco vezes o trabalho humano.

Também colocaria algumas ressalvas metodológicas nos números. O Claude participa de etapas importantes do estudo. É usado para classificar tarefas, estimar quanto tempo trabalhadores dedicam a elas, pesquisar evidências de capacidades robóticas e auxiliar nas estimativas de custos. Os autores reconhecem ainda que descrições do O*NET podem ser curtas e omitir aspectos da atividade que são triviais para humanos e difíceis para máquinas. Os números devem, portanto, ser interpretados como estimativas estruturadas de exposição, não como medições diretas de automação da economia real.

E há um cuidado especialmente importante para nós, no Brasil. Este é essencialmente um estudo sobre o mercado de trabalho americano. Ocupações e tarefas vêm do O*NET, dados de emprego e compensação são americanos e a comparação econômica utiliza custos do trabalho e parâmetros de implantação associados principalmente à realidade dos Estados Unidos.

Não transportaria esses percentuais diretamente para o Brasil. Aqui mudam salários, custo de capital, tributação, escala das empresas, composição setorial, informalidade, infraestrutura, regulação, disponibilidade de manutenção e custo de aquisição ou importação dos equipamentos. Salários menores podem tornar a substituição econômica menos atraente em determinadas atividades. Em outras, escassez de trabalhadores, segurança, precisão, disponibilidade 24×7 ou ganhos de qualidade podem justificar robotização mesmo antes da simples paridade entre custo do robô e salário. A tecnologia pode ser global. A economia da automação é profundamente local.

Minha leitura final é bem menos cinematográfica que a narrativa de que “os robôs estão chegando para tomar nossos empregos”. Robôs já conseguem realizar partes relevantes do trabalho de muitas profissões e certamente podem transformar ocupações, redistribuir tarefas, aumentar produtividade e reduzir demanda por determinados tipos de trabalho. O estudo oferece evidências de que exposição tecnológica pode ter efeitos reais sobre emprego e salários.

Mas entre demonstrar uma tarefa, executá-la com confiabilidade no ambiente real, torná-la economicamente competitiva, integrá-la ao processo produtivo, obter aceitação regulatória e social, alcançar adoção em escala e finalmente eliminar uma ocupação existem várias etapas.

Misturar todas elas em um único percentual produz uma excelente manchete. Não produz, necessariamente, uma boa previsão sobre o futuro do trabalho.

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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