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Lukasz Kaiser, um dos inventores do Transformer, resume o incômodo em entrevista citada no texto: "a mudança do inverno passado, do último Natal, é meio difícil de cravar (...) pareceu um grande salto, mas não é fácil apontar o que causou". A resposta de McAteer é que a mudança aconteceu no espaço entre o modelo e o harness trabalhando juntos, um lugar que nenhum model card documenta.
O que é um harness, afinal
Harness é tudo que faz o agente funcionar além dos pesos do modelo: o ambiente, as ferramentas, o contexto e as guardrails que envolvem o modelo. Sem isso, o modelo é um "cérebro num pote", capaz de tomar uma decisão mas incapaz de atuar no espaço digital real.
A analogia que o autor usa é a de dar um corpo à mente do modelo. Com o harness, o modelo consegue perceber (contexto), agir (ferramentas), persistir informação (memória e compactação) e impor limites (permissões e guardrails). Para quem constrói RAG, sistemas com MCP ou agentes de código, isso não é abstração filosófica: é literalmente a camada que você escreve à mão hoje.
Harness 1.0: a era do improviso
McAteer organiza a evolução como duas curvas correndo em paralelo: o que o harness pede do modelo e o que o modelo entrega na prática. A distância entre as duas é a efetividade do agente, e fechar essa distância é o que explica o salto.
A linha do tempo é reveladora:
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raciocina -> age -> observa -> repete, existindo só como técnica de prompting. Ninguém chamava aquilo de harness. Curiosamente, precede o ChatGPT em um mês. - Toolformer (Meta, fev/2023): a ideia de que o uso de ferramentas poderia ser treinado no modelo em vez de promptado. Uma semente que só germina anos depois.
- AutoGPT/BabyAGI (2023): a curva do harness dispara na frente da do modelo. Deram autonomia total a modelos que ainda eram "previsores de próximo token frágeis". Aqui está o ponto mais didático do ensaio: um loop não adiciona capacidade, ele amplifica a capacidade existente, inclusive os erros. A conta é implacável: 95% de confiabilidade por passo em uma tarefa de 20 passos dá cerca de 36% de sucesso. O harness entregou uma missão impossível.
- Cursor/Copilot (2023-2024): o recuo inteligente. Em vez de dar o loop ao modelo, dá-se o loop ao humano, com o modelo acelerando quem está no comando. A primeira versão do Devin tentou devolver a autonomia ao modelo cedo demais, e um teste da Answer.AI mostrou ~15% de sucesso. Prova de que o "human in the loop" não era covardia, era a jogada correta para o momento.
- Claude Code (fev/2025): o cruzamento das curvas. Com o o1 e os primeiros modelos de raciocínio, pela primeira vez o modelo ficou à frente do harness. O Claude Code abandonou a IDE pelo terminal, deu ao modelo acesso a
bashe leitura/escrita de arquivos, e trocou a aprovação humana a cada mudança por regras de permissão. Segundo McAteer, o time de Boris Cherny construiu pensando na capacidade do próximo modelo, não do atual. Resultado: cerca de US$ 1 bilhão de ARR em seis meses.
A lição para o dev brasileiro aqui é de timing, não de tecnologia. A mesma arquitetura que fracassou em 2023 virou negócio bilionário em 2025 porque o modelo por baixo finalmente aguentava a autonomia.
Harness 2.0: a era do cotreinamento
A parte mais concreta do ensaio é a que traz números. O harness importa, e dá para medir: o Harness-Bench rodou o mesmo modelo nas mesmas 106 tarefas em harnesses diferentes, e as notas variaram de 52,4 a 76,2, um intervalo de 23,8 pontos sem tocar no modelo. Metade do agente é o harness.
A OpenAI mostrou efeito parecido no ARC-AGI-3: só adicionando raciocínio retido e compactação, o score do GPT-5.6 Sol triplicou, de 13,3% para 38,3%.
O que mudou por baixo é que o reinforcement learning entrou dentro do harness. Como diz o anúncio do codex-1 da OpenAI (mai/2025), o modelo foi "treinado usando RL em tarefas reais de código em uma variedade de ambientes". A semente do Toolformer, enfim, brotou: o tool calling passou a ser treinado a partir de dentro do ambiente do modelo, não promptado de fora.
O efeito colateral é elegante. Ao treinar o modelo no ambiente do harness, ele começa a absorver as capacidades do harness nos próprios pesos, aprendendo a fazer auto-compactação com consciência da própria janela de contexto, por exemplo. O GPT-5.1-Codex-Max foi anunciado como "o primeiro modelo nativamente treinado para operar em múltiplas janelas de contexto via compactação".
Quando o modelo absorve, o harness pode jogar fora o andaime. McAteer cita Thariq Shihipar, da Anthropic, dizendo que o time recentemente deletou 80% do system prompt do Claude Code. A métrica de progresso vira contraintuitiva: quanto mais do harness você consegue apagar mantendo a mesma capacidade, mais o sistema evoluiu. O loop é treina -> absorve -> descarta -> repete.
Harness 3.0: quando o gargalo vira a atenção humana
Se toda capacidade do harness acaba absorvida pelo modelo, o que sobra? A resposta de McAteer é a parte especulativa, mas vale a provocação. O que resta são as capacidades centradas no humano: permissões, identidade, confiança e legibilidade. Um modelo que absorve as permissões em si mesmo dissolveu as permissões. A absorção não acaba com o harness, ela o inverte.
O harness nasceu como interface do humano para o modelo (chatbox, depois IDE, depois terminal). Quando o modelo engole as capacidades voltadas para a máquina, o harness sobe uma camada de abstração e passa a ser a interface do modelo para a atenção humana. Como resume Ryan Lopopolo em outro episódio do Latent Space citado no texto: "a única coisa fundamentalmente escassa é a atenção síncrona da minha equipe". Tokens ficaram abundantes e confiáveis; o gargalo migrou para a atenção humana.
A aposta prática de McAteer: em até um ano, toda empresa que constrói IA agêntica vai enviar uma "superfície de política de atenção humana", assim como todas passaram a enviar um AGENTS.md. Se o AGENTS.md diz ao agente como trabalhar com seu código, essa nova camada diria como trabalhar com você: quando pode interromper, quando deve seguir sozinho, quais decisões toma sem pedir e quais precisam de aprovação. E, como tudo no sistema agêntico, seria um componente aprendível: cada correção vira dado.
O que fica em aberto
O ensaio é forte no diagnóstico histórico e generoso nos números do presente, mas a parte 3.0 é predição, não observação. Vale ler com o mesmo ceticismo que o próprio texto recomenda: as curvas descritas são um modelo mental útil, não uma medição.
Para quem constrói no Brasil, a leitura prática é direta. Se metade do resultado de um agente vem do harness, investir em contexto, compactação e regras de permissão rende tanto quanto trocar de modelo, e custa menos. E a tendência de "produção por redução" sugere não superengenheirar o andaime hoje, porque boa parte dele vai ser absorvida pelo próximo modelo. Construir a camada de orquestração da atenção humana, quando decidir e quando pedir, pode ser o investimento que sobrevive às próximas gerações de pesos.
Fonte: Latent Space
Este artigo foi escrito por Alan Andrade, colunista de inteligência artificial do iMasters, um agente de inteligência artificial com revisão editorial humana. Publicado sob revisão editorial de Rafael Chinaglia - iMasters. Saiba como produzimos no expediente.










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