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Review – iPhone 4

Como um iPhone defeituoso pode ser o melhor de todos? Entenda como:

* * *

Estou em um jantar. A garçonete é lerda na hora de anotar meu pedido.
Eu não ligo. Eu procuro em meu bolso pelo iPhone 4. Parece que é a
quinta vez que eu faço isso essa noite. Provavelmente é a décima quinta.

É quase impossível dizer qual lado é a parte frontal. Ambos são
escorregadios e oleofóbicos e cheios de impressões digitais planas,
delicadas e resistentes. Eu concordo superficialmente com qualquer coisa
que minha esposa diz. Minha mente está muito ocupada se concentrando
nas sensações de toque, manejando-o para que a tela fique do lado certo
quando ela surgir de seu esconderijo.

Vitória. Deslize para destravar. Apenas uma barra de sinal de novo.
Assim que eu o saco de meu bolso, a recepção volta. Eu nunca tive esse
tipo de problema com os três iPhones antigos.

* * *

A tela é a primeira coisa que me chama a atenção, naturalmente,
porque é a única coisa que eu não pude testar quando eu
vi esse telefone em Abril
.

Enfiar mais pixels em um espaço menor é o oposto do que a Apple fez
com o iPad, que usa relativamente menos pixels em um espaço maior. Então
por que as duas telas são fantásticas?

O iPhone 4 tem tantos pixels novos que eu não posso vê-los
individualmente a olho nu. Quando tento, só consigo desfocar meus olhos
quando o celular está muito perto da minha cara. É um dos pontos que os
usuários do iPhone 4 devem se orgulhar, caso você não seja um dos poucos
azarados que receberam manchas
amarelas ou brancas no aparelho
.

Então, a frustração me domina. Por que ele tem tantos pixels novos se
eu não posso ver mais coisas na tela? Por que ele ainda tem as mesmas
sete fileiras para escrever texto e oito fileiras de itens no aplicativo
do iPod que eu já vi há três anos, enquanto ele tem quatro vezes mais
pixels? Fotos e vídeos ficam ótimos, e escrever é bem nítido, mas
elementos da interface do usuário precisam de atualizações. Ter apenas
cinco e-mails simultaneamente visíveis nessa tela é uma vergonha. Pelo
menos me dê a opção.

Mas a tela em si é ótima, ela tem mais pixels num espaço menor do que
qualquer outro telefone que eu já usei. Ela é nítida. É possível ler
pequenos textos e tudo fica melhor. Eu o levo para a rua. Ela não é mais
brilhante ou mais visível no sol, mas tudo fica ótimo. O que mais eu
posso esperar de uma tela?

Quando eu olho para a tela, tenho a mesma sensação de quando eu
termino o último pedaço de um bolo de sorvete: eu quero mais disso. Meu
Dell de 30 polegadas, minha TV da Samsung de 63 polegadas e meu iMac de
27 polegadas têm mais pixels, mas a primeira reação quando eu os vi foi como
isso é enorme
. Quando eu olhei para a tela do iPhone, a reação foi
uau, tudo é tão nítido. Agora me dê algo maior E mais nítido.

* * *

O telefone brilha por causa do reflexo do vidro exposto. Fim do
plástico. Muito mais alumínio. Ele parece e passa a sensação de ser…
mais quebrável.

Como é algo que está quase sempre presente, eu entendo a necessidade
de um case. As pessoas derrubam coisas. Chaves são inconscientemente
apertadas, jogadas e usadas contra sua superfície. Telefones precisam descansar.
Mas o iPhone 4 tem mais chances de ser danificado do que seus
antecessores. Vários locais comuns de descanso de celular agora estão
proibidos. Um case parece ser obrigatório.

No entanto, adquirir um case pode significar a derrota. O design do
aparelho vidro e alumínio industrial foi feito para ser a imagem
pública do iPhone. Ele nunca deveria ficar sufocado por plástico
para protegê-lo do perigo, ou ficar enrolado numa borracha fazendo a
função de escudo da antena ante à interferência humana. Se o iPhone foi
feito para ter um case, ele deveria ser vendido com um case. Anexado.
Fora da caixa.

* * *

Toque, Toque. Twitter. Deslizar. Toque. New York Times.
Pinçada, Pinçada. E-mail. Mapas. Fruit Ninja. Fotos. Vuvuzela.
Cada toque parece ter melhor resposta do que o 3GS, que reagia ainda
mais do que o 3G.

Deslizo. Deslizo. Deslizo de novo. Há um atraso numa zona morta de
meia polegada no canto do telefone. Quando deslizo desse ponto, nenhum
movimento é registrado. Eu tento a mesma coisa nos iPhones antigos.
Estranhamente, o problema sempre esteve lá, no 3G e no 3GS, mas eu só
percebi agora porque não existe mais moldura e agora é tudo vidro. Não
existem limites para me guiar.

* * *

Matt Buchanan me lambe. Ou melhor, ele coloca sua língua para fora na
câmera frontal numa conversa pelo FaceTime. Eu gostei disso mais do que
deveria!

As respostas de Matt soam claras, nossas respectivas correntes com a
AT&T são quebradas, nossas caras e vozes são transmitidas
fluidamente por Wi-Fi. Finalmente, um tipo de chamada de vídeo para todo
o mercado que terá audiência o suficiente para ter uma chance de
sucesso. É divertido. Útil. Futurístico. Fácil. Meus pais poderiam fazer
isso. (Até eles não conseguirem, e me pedirem ajuda.)

Mas o segredo é que eu estava olhando Matt bem em seus olhos quando
ele não estava mostrando a língua. A câmera e a tela ficam tão perto
que elas criam a ilusão de que existe uma câmera nos olhos do Matt,
então eu realmente sinto que nós estamos conversando cara a cara. Quando
eu falo com alguém pelo Skype no laptop, eles sempre estão me olhando
em suas telas longe de suas webcams.

Eu dou tchau ao Matt. Eu espero só ter de ver a cara dele numa
conversa por telefone em 2011. A voz é o suficiente para a maioria. Ele
não é minha esposa.

* * *

Num passeio de carro com amigos para um lugar que eu não conheço, o
Nexus One é o melhor para a corrida por causa do Google Maps Navigator (LM:
que infelizmente ainda não está disponível no Brasil)
. Não há
nenhum aplicativo de navegação curva-a-curva gratuito, fácil de usar e
decente no iPhone 4.

A solução? 50 dólares num aplicativo. Eu não tenho 50 dólares. Não
para esse tipo de coisa. Principalmente quando meu carro tem sistema de
navegação. O iPhone é capaz de dar informações curva-a-curva desde que o
3GS adicionou um chip de GPS. É hora de uma solução melhor vinda da
Apple.

* * *

“Você pode me mostrar o esquema de chat por vídeo?”

“Não posso. Não tem Wi-Fi aqui.”

Frustração? Raiva? Constrangimento? Nenhum desses. Eu sinto que
deixei alguém triste.

Não existia limitação alguma em Star Trek. O capitão Riker
não precisava de um hotspot por perto para poder conversar com a
Farpoint Station. James Bond não precisava procurar um Starbucks para
falar com a Q. O Batman não precisava… Batman não precisava fazer nada
que ele não quisesse fazer. Por conta do seriado ter mais de 70 anos, é
claro que o Dick Tracy tinha toda a rede da AT&T só para ele, para
fazer suas vídeochamadas.

“Mas, ei, ele tem uma tela melhor”.

* * *

Sentado na mais íntima das cadeiras, eu assisto a vídeos
pré-carregados em HD no YouTube, ficando mais impressionado com a
qualidade da tela. A qualidade é restrita em relação ao vídeo original,
mas, mesmo assim, eu estou impressionado.

Fico entediado e saio do aplicativo, passando entre fotos da
lua-de-mel e checando vídeos em 720p feitos no Japão; cada pixel é uma
pequena fração de uma memória maravilhosa que valeu a pena, mesmo com a
taxa de câmbio. Me faz querer estar em Tóquio nesse momento, com suas
washlets da Toto em cada casa, escritório ou local público. Mas então eu
penso, quanto espaço essas fotos e vídeos enormes estão ocupando?

De volta ao meu iMac, eu checo a informação. Os arquivos têm 3.26 GB.
As mesmas fotos ocupavam apenas 1.6 GB no 3GS. A mesma coisa nos
vídeos.

Nós vamos precisar de uma memória flash maior.

* * *

Não é meu aniversário.

Eu uso a música de parabéns pra você como um teste rápido de
qualidade de voz, porque ela tem mudanças inerentes de tom e altura. É
uma música rápida, em casos de necessidade. Eu não me arrisco cantando
os oito minutos e meio da música Won’t Get Fooled Again. Mesmo
sabendo que fazer a Rosa Golijan cantar isso dez vezes seguidas
praticamente justifica o preço do iPhone 4.

O teste de qualidade de chamada que nós fizemos bate com o que eu
percebi durante o uso diário.

Um amigo meu parece surpreso por ouvir minha voz. Eu não ligo para
ele faz tempo, normalmente optando pelo MSN ou pelo e-mail, porque nós
estamos em 2010 e não somos velhos. Muitas pessoas estão telefonando
hoje por causa do iPhone 4, em nome da ciência.

Mais de uma vez meus amigos-cobaias ficaram surpresos ao saber que eu
estava alternando a chamada entre o microfone padrão e o alto-falante. O
microfone duplo com cancelamento de ruído faz uma diferença enorme na
hora de filtrar o barulho ambiente para o alto-falante. Mas ligações
comuns não estão muito melhores do que antes, levando em conta que eu
não estou cercado por vuvuzelas.

“Obrigado, nos falamos mais tarde. Tchau.”

Eu olho para baixo, confuso. Botões aleatórios foram pressionados sem
aviso pelo meu rosto. Meu rosto não mudou muito desde a época que eu
usava meu 3GS, há poucos dias. Anote esse problema na pilha de
“coisas-para-arrumar-no-iOS-4.01”.

* * *

Eu continuo ouvindo variações da mesma piada quando converso sobre o
iMovie no iPhone 4. “Você mal podia editar vídeos no seu computador dez
anos atrás.”

Minha cabeça chacoalha concordando. É verdade. Eu estou surpreso em
quão rápido o iMovie é, juntando clips, adicionando temas, fazendo
títulos e transições de imagem. Exportar? Demora praticamente a duração
do vídeo, em resolução média.

Então eu tento fazer o upload de uma filmagem com 720p nativos para o
YouTube direto do celular.  É minúsculo! E granulado, mesmo depois de
deixá-lo renderizando por um dia. E borrado, e absolutamente não é 720p.
Como isso aconteceu? Seria melhor se eu fizesse o upload via Wi-Fi, ou
tivesse mandado o vídeo pelo e-mail para mim mesmo e feito o processo em
outro lugar? Não. Cada uma dessas opções diminui a qualidade do vídeo
antes de tirá-lo do telefone.

Eu descobri que o único jeito de capturar e enviar um vídeo com
completos 720p do meu celular para o YouTube é colocando-o primeiro num
computador. Os sonhos de filmar em HD pelos campos, fazendo o upload via
HSUPA
, e sem ter de fazer nenhum tipo de processo extra-filmagem no
computador se esvaíram. Por que eu editaria um vídeo no iMovie no
celular se eu tenho de colocar o resultado final num computador para
poder fazer o upload com a resolução total?

É culpa da AT&T de novo?

* * *

Brian Lam me liga, empolgado, e pede para eu adivinhar onde ele está.

“Em casa.”

Ele não era capaz de fazer uma ligação pelo iPhone de sua casa sem
que ela caísse há mais de um ano e meio. Ele teve de recorrer ao uso de
um Microcell. Ele me disse que desligou o aparelho.

São seis minutos de ligação. O iPhone 4 é mais esperto, escolhendo
torres de sinal que podem realmente aguentar chamadas, em vez de
procurar apenas aquelas com sinal mais forte.

“Você pode me ouvir? Eu posso ouvir você.”

Parece que ele acabou de ir ao banheiro, encheu a banheira e
mergulhou seu celular. Claro, ele pode fazer ligações agora, mas há algo
que ainda impede o aparelho de fazer ótimas chamadas. Depois de trinta
segundos, a ligação cai. Seria melhor se nós tivéssemos usado o
FaceTime, talvez.

Atualização: Na realidade, agora o
iPhone 3GS está atingindo milagrosas 5 barras de sinal na casa do Brian.
Então, ao que parece, houve uma mudança de torres, ou uma
instalação/atualização pode ter acontecido recentemente.

* * *

Eu estou lendo um capítulo do livro Shit
My Dad Says
na cama, tentando não incomodar minha esposa. Há
bem pouco cansaço nos olhos, embora eu não tenha certeza se conseguiria
chegar até o final do livro lendo-o assim. Mesmo para amantes de
e-books, o tamanho do celular é pequeno demais para representar
precisamente um “livro”. Isso me obriga a virar a página muitas vezes,
como se ele fosse uma anedótico iPad mini. A virada de páginas tem
resposta suficiente para ser agradável.

Juntando um ano inteiro, eu provavelmente pouparia sete horas
acumuladas por não esperar as páginas dos livros renderizarem,
os aplicativos carregarem e na hora de redimensionar fotos, comparando
com a velocidade do 3GS. Eu não posso voltar.

Agora é hora de achar um bom uso para essas sete horas.

* * *

Ele não é muito fino? Não é muito delicado? Eu estou com medo de
segurá-lo, eu nunca fiz isso antes.

Eu vou brincar com meu coelho. Quando eu o pego no colo, ele se
contorce, como se eu nunca mais fosse deixá-lo sair de lá pelo resto da
eternidade. Eu tento me abaixar até o chão o mais rápido possível antes
que ele arranhe meus braços e salte das minhas mãos. Ele consegue
ajustar seu corpo para aterrissar em pé, absorvendo quase todo o impacto
nas áreas menos prejudiciais.

Esse iPhone não consegue. O iPhone 4 não é resistente a quedas como
um coelho.

* * *

Enquanto minha esposa dirige até o McDonalds, eu tenho a oportunidade
de dar uma olhada no e-mail, no Twitter, no Giz e nos últimos episódios
do Adam
Carolla Show
, movendo para trás e para frente com a rápida
troca de apps do iOS 4. Dobrar a capacidade de RAM para 512 MB é como um
fazer um gás se expandir para preencher um vácuo – os programas acharão
um uso para isso. Juntamente com as transições mais suaves, graças ao
processador mais rápido, cada troca entre programas flui muito bem. As
coisas se mantêm atualizadas, prontas para mim quando eu precisar delas.

Tento largar um pouco o telefone, apenas até o momento em que eu
ficar entediado novamente no próximo farol vermelho.

A última vez que eu carreguei o celular foi ontem de manhã, e já
passou do meio-dia de hoje. 20% – nada mal. Melhor do que o 3GS, porque
sua bateria é maior. Mesmo assim, que bom que eu desliguei o Bluetooth.

Outro farol vermelho. Eu estou enjoado… possivelmente vou vomitar.
Mas eu não consigo parar de mexer no telefone.

* * *

Sexta à noite. O cara da Hypermac me surpreende em
minha mesa.

“Você está aqui com sua família?”

“Sim! Você trouxe seu iPhone 4?”

Ele faz um gesto e o tira do bolso fazendo o movimento da Miss Area
Woman. Eu sorrio.

“Sim.”

Três anos atrás, uma garçonete pediu para ver meu iPhone da primeira
geração. Eu mostrei para ela. Dez minutos se passaram. Ela esqueceu de
anotar meu pedido. Eu esqueci também, até a hora que ela foi embora.

Hoje a garçonete não está tão impressionada. “Ah, esse é o novo
iPhone? Meu namorado tem o antigo. Nesse aí as ligações caem menos? Ah,
isso é bom. Então, o que você vai comer?”

O ar de novidade se foi, mas isso não quer dizer que as pessoas não
estão empolgadas.

Eu mando uma mensagem para Mark Wilson e para  Matt Buchanan. Ambos
respondem o SMS em um minuto, o mais rápido que eu já os vi respondendo
nos últimos seis meses. É óbvio que ambos estavam fuçando em seus novos
iPhones, ou, pelo menos, estavam com ele bem perto.

* * *

Eu estou tirando fotos da minha comida. Eu não sei por que eu já
estive aqui antes, e eu voltarei outras vezes. Tem mais a ver com o ato
de tirar fotos do que com o resultado, que é nada além do que uma foto
do que eu estou comendo. “Para me lembrar disso”, eu penso comigo mesmo.
Mas eu não lembrarei. Eu posso não lembrar como estava o sabor da
comida, ou o que aconteceu, e eu sinceramente nem preciso disso. Há
evidências. E agora a evidência é mais
clara e saturada
, por conta de lentes melhores e processamento mais
inteligente. As cores saltam. Elas parecem mais deliciosas do que o
prato que está na minha frente.

Eu tiro algumas fotos em macro bem próximas do meu coelho. A câmera
responde mais rápido do que eu esperava, mais veloz do que outras
câmeras de celular. Às vezes, no entanto, não rápida o suficiente.
Coelhos são rápidos.

Eu chego mais perto. O autofoco entra em ação, criando fotos com
renderização alaranjada que eu terei de arrumar no computador. Gostaria
que ele tivesse um balanço de branco.

Eu chego ainda mais perto. Eu chego ao limite, e as fotos viram
borrões.

O coelho cheira o telefone.

* * *

Tudo está mais nítido. Eu começo uma nova mensagem e o novo som do
teclado faz o teclado do 3GS parecer confuso. Os alto-falantes são mais
claros também, mas um pouco mais suaves.

A tela inicial. Os botões de volume. O botão de ligar/desligar. A
tela em si. Tudo é mais claro, nítido, mais angular. Toda a suavidade se
foi. A parte traseira arredondada, a estranha casca de tartaruga, se
foi. Ele é sólido. É um telefone sólido. Trinta vezes mais sólido do que
plástico, como a frase publicitária repetida tantas vezes diz. Mas a
solidez continua quebrando, como
nosso amigo Ryan testemunhou
.

Ele foi criado desse jeito. E isso é provavelmente um erro.

* * *

Os engenheiros perderam. O design industrial venceu.

Os
problemas na antena
,
confirmados pela própria Apple
, são o sintoma de um problema que
vai direto no coração do processo de produção da Apple. O lado direito
do cérebro venceu o lado esquerdo do cérebro. Todos nós sofremos.

Eu estou fazendo uma ligação, tentando me ajustar ao telefone,
segurando-o na parte de cima em vez de segurá-lo na parte inferior, para
não acabar com o sinal. O que aconteceu com o marketing da Apple para o
iPad, que dizia que o aparelho se ajustava a você? Por que eu estou
tendo de mudar o jeito que eu seguro celulares, que é o mesmo há uma
década, para evitar um problema de design? Ele parece um alienígena. E
parece que eu posso derrubar meu celular.

Então eu esqueço. Minha mão desce para a posição que ela se
acostumou, cobrindo a antena com puro suor e carne humana. A ligação se
mantém. Há um pouco mais de distorção na voz, mas eu consigo ouvir a
outra pessoa sem problemas. Eu tenho sorte de morar em uma das áreas com
melhor cobertura da AT&T. Aqueles com recepção medíocre sentem com
mais força o impacto
do problema, que já foi documentado
, quando seguram o celular na
posição fatal.

Eu estava brincando com o celular via 3G, passeando por mapas,
procurando coisas no Twitter, checando o e-mail. O celular que parecia
cheio de vigor fica sem fôlego. Não há alternativa para a posição fatal
quando eu seguro o telefone na mão esquerda e o toco com a direita que
é o único jeito que eu consigo navegar no celular.

Eu não quero comprar um case.

* * *

Como a minha camcorder da Sanyo de 500 dólares, que eu comprei
naquela viagem ao Japão, se sente ao ser ultrapassada por uma câmera de
720p de celular? Do mesmo jeito que as outras câmeras point-and-shoot e
camcorders estão se sentindo ao serem engolidas pela câmera que todo
mundo tem em mãos aquela presente em seu celular. E, diabos, esse
celular faz imagens
melhores do que a maioria desses modelos que têm apenas uma função
.

Minha câmera Sanyo de 1080p é fantástica. Ela tem mesmo mil e oitenta
pês. Alguém até me enviou um e-mail perguntando que câmera eu usei
quando subi no YouTube um vídeo com meus problemas de recepção de sinal.
Mas não tem como eu ficar carregando-a por aí, até porque ela é um
pouco maior do que meu punho. Só há espaço para um punho em cada um dos
meus bolsos, e um deles já está apaixonado por outro aparelho.

O iPhone ficará lá. É a câmera que conta, a câmera que estará com
você num acidente de trânsito, quando alguém for fazer algo idiota,
quando você estiver fazendo algo que nunca fez antes.

Mas eu tenho que escolher: será que eu coloco mais conteúdo
consumível no meu telefone ou economizo espaço nos 32 GB para guardar
minhas memórias?

* * *

Meu pai me liga. Ele precisa consertar a impressora, ou esqueceu como
logar no Gmail, ou ele teve uma recaída na síndrome de pessoas idosas e
esqueceu completamente como usar um computador. O motivo pouco importa.

Ele me pergunta sobre o novo iPhone. Eu recomendo que ele não compre
um.

“Você faz um monte de ligações, diferente de mim. Além do mais, a
AT&T é caótica na região em que você mora. Para completar há o
problema de recepção de sinal, que fica exacerbado* quando o sinal está
mais baixo. De resto, ele melhorou em vários aspectos. Mas fique com o
que você já tem.”**

* Eu não usei a palavra “exacerbado” no telefone.

** Além disso, essa conversa aconteceu em chinês.

* * *

Flash

Eu surpreendo, quer dizer, assusto, minha mulher com o flash do
iPhone no escuro. Ela não está se divertindo. Eu estou. Eu sou uma
criança.

Agora há luz onde não havia luz antes. Os bêbados dos bares de Nova
Iorque ficarão mais claros nas fotos agora, iluminando várias conquistas
e troféus para jogar no Facebook no dia seguinte, todos com a pupila
bem pequena para se ajustar ao brilho exagerado. Não é perfeito, mas é
melhor do que não ter flash.

Eu imagino milhares de flashes desses malditos iPhones pipocando no
próximo jogo de basquete que eu for, iluminando um metro à frente dessas
pessoas, fazendo a careca do cara sentado na fileira 27 parecer
impressionantemente limpa. Kobe Bryant, no entanto, continuará sendo
iluminado pelas lâmpadas fluorescentes do Staples Center.

* * *

Eu continuo pegando o telefone, fuçando em suas coisas, e procurando
coisas para fazer nele. Eu quero usá-lo.

Eu não posso mais voltar para o 3GS. A velocidade, a câmera, a tela, a
ausência da corcunda, a vídeochamada. Uma vez que você tem isso, você
não pode largar mais.

Mas eu estou assustado. Não com a perda de chamadas porque eu estou
segurando-o errado eu não faço muitas ligações, e quando as faço, elas
não são tão urgentes que eu não possa ligar de volta. Além do mais, eu
tenho uma linha de telefone comum, com um telefone igual ao do Batman,
que funciona bem. Eu estou assustado com os dados. Eu nunca mais vou
conseguir segurar o celular normalmente porque eu tenho medo de ficar
com um quarto da velocidade que eu tinha antes. Como um pai que tem uma
criança muito preguiçosa ou com dificuldades de mostrar seu potencial,
eu estou frustrado e confuso e triste. Você o ama muito, e não quer
desistir dele, mas algo está errado. Mas como a maioria dos pais, eu
foco nas suas qualidades positivas. A velocidade, a câmera, a tela. Mas e
se ele fizer birra quando eu segurá-lo errado? Oras, ele é meu garoto.

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