Marketing TechARTIGO

O iPad é sim revolucionário, mas faz pouco sentido no Brasil


Provavelmente essa primeira geração do iPad não é para
você, que está lendo um site de tecnologia no Brasil, por algumas
falhas
que irritam os mais tecnófilos. Aliás, não há como negar que
boa parte dos maiores fãs da Apple ficaram um pouco (ou muito)
decepcionados com o que foi revelado há alguns dias. Mas o (ou a?) tablet
da Apple é exatamente o que Steve Jobs queria que fosse: um gadget para
um segmento de mercado que talvez nem soubéssemos que existia até então, que abarca potencialmente todo mundo, no longo prazo.

É um pouco difícil fazer hoje qualquer previsão sobre o sucesso
do iPad, ou o quanto que as pessoas vão entender o seu propósito que é,
sim, revolucionário. Mas uma coisa é certa: ele faz muito pouco sentido
para os brasileiros. Aqui está o porquê.

O maior nicho de mercado: todo mundo

 

Por mais que os produtos da Apple sejam objetos de desejo para muita gente (inclusiven nós), o público-alvo sempre foi algo maior que os amantes de
tecnologia, desde a volta de Steve Jobs ao controle da empresa, em 1997.
E para entender o propósito do iPad, é preciso examinar um número: a
Apple vendeu 250 milhões de iPods.

Quando o iPod foi lançado em 2001, já havia empresas estabelecidas
produzindo tocadores de MP3. Os concorrentes faziam basicamente a mesma
coisa – ou mais, normalmente cobrando menos dinheiro. O mesmo cenário
aconteceu no lançamento do iPhone em 2007. E ambos foram sucesso,
redefinindo a indústria.

O sucesso do iPod está intimamente ligado ao iTunes. Algo que nunca
fez muito sentido pra gente aqui. No Brasil, compramos MPX vagabundos,
caçamos coisas no Soulseek/Kazaa/eDonkey ou o que seja. As pessoas que
não têm familiaridade com tecnologia compram CDs de MP3. Vá à Sta.
Ifigênia em São Paulo ou qualquer “Feira do Paraguai” e veja que os vendedores também “carregam”
os tocadores das pessoas. Às vezes essa tarefa cabe aos filhos,
sobrinhos e colegas de trabalho. 

O iTunes apresenta uma solução diferente. As pessoas preferiram-no
porque é um programinha que têm basicamente todas as músicas do
universo. A interface é fácil, basta pagar US$ 0,99, e ver magicamente
ela sincronizada ao iPod. Toda a chatice de ripar os CDs ou
caçar o submundo de arquivos piratas? O usuário comum do iPod
possivelmente nem sabia como chegar a eles. Um clickwheel simpático, boa
organização e rapidez completaram o pacote.

Para o usuário não-geek, um tocador de MP3 começou a fazer
sentido
 com o iPod – especialmente nos EUA, onde é mais comum
comprar, e não piratear, conteúdo. A discussão sobre DRM, arquivos .flac,
formatos de vídeo proprietários é para nerds.


E o iPhone? Cace os comentários dos descrentes do smartphone da Apple
em 2007. Pensavam: sem 3G? Sem GPS? Sem copiar e colar? Câmera de 2MP? A
lista de “falta isso” era muito maior que “vem com isso” e a previsão
de muitos era que o smartphone da Apple seria um fracasso. Mas ele foi
revolucionário, e por mais que muitos, especialmente no Brasil, insistam
em dizer que isso tem a ver com o status associado à maçã brilhante,
não há qualquer prova para suportar o preconceito. Na verdade, eu
conheço muitas histórias de pessoas que abandonaram seus N95s e estão
felicíssimos com o iPhone. Não tenho notícia do contrário. 

Mas será que o preço do iPad, como tudo que é Apple, será uma
barreira de entrada? Se aqui no Bananal o iPhone custa 1
milhão de milhões na Oi
, nos EUA ele custava US$ 99, ou US$ 199. Ou
seja: o “fator preço”, taxa
Apple
e o escambau, é impressão da gente aqui quando se trata do
smartphone. Quando ele apareceu, não era terrivelmente mais caro que um
celular comum, e era destinado às pessoas que, bem, tinham celulares
comuns. Quem usava um Blackberry continuou usando Blackberry, ok.  Mas
muitos dos donos de dumbphones bonitinhos da LG e Samsung pularam no
barco da Apple. Hoje, mais da metade dos celulares vendidos na AT&T,
a gigantesca operadora americana, são iPhones. Mais
da metade
.

E essas pessoas descobriram que é possível fazer muita coisa com um
celular. Não que elas não pudessem fazer com outros aparelhos, mas no
iPhone era tudo mais rápido, fácil e bonito. A sensação do toque, do
multitoque da ainda não igualada tela capacitiva, era um convite a um
mundo novo de tecnologia. Programinhas que faziam de tudo, desde medir o
quanto você roncava à noite a Twittar mais rápido conferiram ao iPhone
mil funcionalidades sequer imaginadas antes. Alguém esperava que ele
fosse um console portátil, com tantos joguinhos
bons
?

iPod, iPhone, iPad

Todo esse preâmbulo é para dizer que o iPad vai dar certo porque ele
repete a mesma fórmula do iPod/iPhone: é relativamente barato – a partir
de US$ 499 – e tem uma interface de uso e compra de aplicativos e
conteúdo familiar ao americano. Como Steve Jobs enfatizou na coletiva,
de cara há 75 milhões de pessoas (donos de iPod Touch e iPhone) que já
sabem usar o iPad. Os geeks podem chorar pela falta de multitarefa ou
flash (como xingaram o primeiro iPhone), mas se a Apple busca novos
mercados, é seguro dizer que os donos de iPad ficarão satisfeitos com os
usos básicos da telona: navegação, visualização de mídia e leitura. Em
um ano os sites, inclusive os que têm vídeo, provavelmente abandonarão o
Flash mesmo em
favor do HTML5
, então tudo certo.

O sucesso do iPad interessa não apenas à Apple, mas à indústria de
desenvolvedores de aplicativos e de mídia. Os donos de iPad comprarão
conteúdo, algo bizarro aos olhos do brasileiro tecnófilo, que conhece
todos os meandros dos torrents e Rapidshare. Eles alugarão filmes
digitais, comprarão jogos e expansões, e lerão livros, muitos livros – e
isso será um incentivo que se produza mais conteúdo para a plataforma.
Hoje a loja de aplicativos da Apple vende cerca de de 9 milhões de
programinhas por dia. Espere esse número dobrando com a chegada
dos aplicativos adaptados para o iPad. Fora os aplicativos pagos, a
“nuvem” será cada vez mais importante: para quê multitarefa se você pode
editar um texto no Google Docs e ouvir uma rádio em outra aba, pelo
Pandora ou Lala? O futuro, como o projeto do Google
Chrome OS
aponta, será “monotarefa”, em um navegador que faz tudo.
E, pelos vídeos, a experiência de navegação no iPad é maravilhosa.

Mas a quem interessa algo que, você dirá, um smartphone ou um
notebook já fazem? Em qualquer site gringo que deu a notícia sobre o
iPad, você verá comentários do tipo “achei a máquina para comprar para
minha avó.” O Gizmodo falou hoje mais cedo sobre o potencial
do iPad para inclusão da terceira idade
na informática, com letras
grandes e sem mouse.

Começa a fazer sentido para você? E não serão só as vovozinhas da
Flórida se interessando. Se você não
consegue se ver usando um bagulho assim, pense no resto do mundo, em um
lugar (os EUA) onde o preço não é necessariamente uma barreira. Lá, universitário que nunca deu
bola pro Kindle se sentirá interessado, porque além de também
possibilitar a leitura, poderá comprar e assistir seus seriados – ou
abusar da possibilidade de navegar na internet com apenas uma mão, se é
que você me entende.

Além dos mais jovens, a tiazona colocará o tablet da Apple num
estande na cozinha e seguirá aplicativos de receitas, com vídeos, que
nem existiam antes. O executivo finalmente vai poder trocar a leitura do
NY Times no papel por uma solução eletrônica, tão agradável
quanto. Jogadores de RPG de mesa vão descobrir aplicativos fantásticos
que mostrarão animações de seus personagens em um grid de batalha.
Artistas gráficos, publicitários e designers vão
desenhar suas últimas criações deitados numa chaise longue, ou
onde estiverem, e irão mostrar para todo mundo.

São pessoas que podem já ter um notebook, um netbook, ou um
smartphone. Mas o mercado de pessoas que não têm esses dispositivos é
ainda maior.

Na verdade, como Steve Jobs deixou bem claro, o iPad mira as mesmas
pessoas que os fabricantes de netbook e e-Readers estão mirando, que é
um mercado longe de estar saturado. Uma pesquisa
da Wired
pediu que as pessoas que querem comprar um iPad dissessem
qual o principal motivador: 27% disse que seria para surfar na web, 26%
para ler livros eletrônicos e 22% para levar em viagens. Mas a chance da
Apple abarcar mais pessoas, com uma interface mais acessível, é maior, e
com as novas funcionalidades, o iPad começa de fato uma outra categoria
de gadgets.

E observe: não serão pessoas necessariamente ricas. Serão pessoas
comuns, possivelmente de classe média, comprando iPad e pagando para baixar
música, filmes, aplicativos. Tudo isso faz sentido nos EUA.

No Brasil?


Aqui no Brasil, muito pouco, ainda. O iPhone 3GS também é
possivelmente o melhor smartphone no geral, mas acredito que por motivos
diferentes, e somente a partir do 3G. E para usá-lo no máximo, é
preciso ter bastante dinheiro para pagar o aparelho e o plano, além de
precisar comprar gift cards e usar uma conta estrangeira do iTunes.

Conteúdo para compra, a um preço justo? Esqueça. Não há uma Amazon
digital brasileira, e experiências de aluguel de filmes ainda engatinham, são caras e ruins; sites de download de
músicas são na média bastante caros. Boa parte do bom conteúdo por
streaming (Hulu, Spotify) é bloqueado para IPs brasileiros. Há Lost no Terra TV,
Family Guy no Mundo
Fox
, mas é muito pouco. Faltam programas e conteúdo, boa parte da
razão de ser do iPad.

E como dispositivo de navegação na internet, também será difícil de
vendê-lo pelo preço. Por aqui o iPad com 3G, a alternativa mais
interessante, chegará daqui a uns 5 meses, num chute otimista, custando o
dobro de um netbook (a versão mais simples, apenas com Wi-Fi e 16 GB,
pode estar disponível já no fim de março). Mas o plano 3G continuará
sendo caro, e há poucos espaços de Wi-Fi gratuitos. 

Outro fator importante: segurança. Chega a ser surreal a sugestão de
que poderíamos ler o jornal no ônibus/metrô com um iPad, um feromônio
para bandido. Boa parte do sucesso dos netbooks nos países em
desenvolvimento é que eles são discretos. A violência em grandes cidades
é
sim um fator limitante para o uso
 dos gadgets.

Mas, convenhamos, a Apple não dá muita bola para nosso país – na
última coletiva eles disseram que estavam tentando
entender o mercado
e os preços
absurdos
. Podemos ficar alijados de uma inovação tecnológica porque
as empresas não tem obrigação de investir em um mercado complicado, que
pode não ser tão rentável por causa dos impostos.

Se você tem dinheiro, quer fazer um agrado para sua mãe, está
atrasando a compra do Kindle para ler HQs, é um designer, ótimo, compre uma passagem
barata para Miami e entre na fila do iPad assim que ele chegar às
iluminadas Apple stores. É um brinquedinho animal, se você souber usar
VPNs para comprar conteúdo gringo, tiver Wi-Fi sempre disponível. Mesmo
se não for o caso, não acho que você vá se arrepender. Não, eu não estou
sendo sarcástico.

E agora?

Eu, particularmente, estou empolgado com a idéia de um iPad e
curiosíssimo sobre as novas possibilidades – tanto de novas pessoas
usando quanto de aplicações – que ele abrirá. Concordo com a
maior parte das limitações
 apontadas pelo Adam Frucci e por isso
digo que quero muito um iPad, mas provavelmente o iPad 2G ou 3G. Não é
papo de fanboy: não tenho qualquer produto da Apple, preferi o Milestone
ao iPhone
um
notebook Asus a um Macbook
, mas sempre por pouco. Desdenhar da
genialidade de Steve Jobs é uma birra que não consigo entender.

A Apple inaugurou um novo mercado, não tenha dúvidas. Mas ela não
estará sozinha. 

Ainda este ano teremos vários concorrentes. Aparecerão soluções
híbridas de netbook/tablet como a
da Lenovo
, teremos tablets com Android
e chip Tegra mais baratos
, a Nokia pode fazer um N900 grandalhão,
apostando no Maemo,
a Positivo poderá vir com alguma solução baratinha adaptada de Taiwan, a
HP já mostrou seu Slate,
e, por último mas não menos importante, o lindíssimo Microsoft
Courier
(o da foto) pode virar realidade. Se eles tentarem
substituir netbooks apenas, estarão errados. Tudo precisa ger
genuinamente novo (ainda que seja o bom e velho iPod Touch, mas maior)
para dar certo.

A verdade é que Steve Jobs mostrou ao mundo um gadget que, como
disseram meus amigos do Giz americano, você nem
sabia que precisava
. Em breve você terá um. Pode fazer pouco
sentido no Brasil, mas essa é a revolução que começou no resto do mundo.
Espero que consigamos acompanhar.

é o patrocinador oficial da seção Gadgets iMasters, e as publicações completas do Gizmodo podem ser lidas em www.gizmodo.com.br.

Ver perfil