A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras ainda esbarra em um problema recorrente: a maioria dos projetos não sobrevive à fase de piloto. Foi esse o alerta central de uma apresentação no palco da Plenária Tecnologia & Inovação, que trouxe números duros sobre o tema: "42% das empresas abandonaram essas iniciativas e só 5% realmente fazem valor real na utilização de projetos", afirmou o palestrante, citando ainda que boa parte dos pilotos de IA nunca chega a produção.
Segundo o palco, o problema raramente é a tecnologia em si. A IA não é a solução inteira, e sim um componente dela, resumiu o apresentador, reforçando que arquitetura, integração com sistemas legados (ERP, CRM) e, principalmente, dados organizados são pré-requisitos que costumam ser ignorados nas pressas por adotar ferramentas de IA generativa.
Governança não é burocracia
Um dos pontos mais enfáticos da fala foi sobre política de uso de dados e ferramentas de IA. Para o palestrante, "política não é burocracia. Quando você usa bem, ela é via de valor". Casos citados no palco — como vazamentos de dados envolvendo grandes empresas e o uso indevido de ferramentas de IA sem capacitação adequada — reforçam que a ausência de regras claras custa caro, tanto financeiramente quanto reputacionalmente.
Três recomendações práticas surgiram da conversa no palco para times de dados e desenvolvimento:
- Conectar IA a dados curados: liberar modelos de IA apenas sobre bases já consolidadas, evitando decisões tomadas em cima de informação não confiável.
- Investir em catálogo de dados: um catálogo bem organizado facilita tanto a coleta quanto o uso correto da informação pelos modelos.
- Criar uma porta de entrada única para projetos de IA, priorizando iniciativas por retorno esperado e revisando a evolução a cada três meses — evitando que "a empresa inteira" tente rodar projetos de IA ao mesmo tempo sem critério.
Responsabilizar as áreas pelo custo
Outro ponto levantado foi a gestão de custos de ferramentas como Copilot e assistentes de código. Em vez de um orçamento centralizado e genérico, a orientação foi tornar cada área de negócio responsável pelo consumo e obrigada a comprovar retorno financeiro do uso da ferramenta — prática que, segundo o palco, evitou o problema comum de "queimar o token muito rápido" sem gerar resultado.
Curiosamente, o público interno acabou apelidando o assistente de código de "Claudinho", um sinal, segundo o apresentador, de que a ferramenta havia sido de fato incorporada ao dia a dia dos times — com desenvolvedores trocando descobertas entre si de forma orgânica.
Para quem lidera ou participa de iniciativas de IA em times de tecnologia, o recado do palco foi direto: acompanhamento próximo (POC assistida), segurança como parceira e não como "polícia", e paciência — como resumiu o próprio apresentador, "isso aqui é uma jornada", não uma corrida de curto prazo.



