Somos uma possibilidade em movimento constante – Nepô – da safra 2011;

Somos ou estamos?
Esta questão foi o epicentro do sétimo encontro do grupo de estudos “Ruptura 2.0? no @igecpos.
E eu dei um salto quântico na percepção do problema.
E vou expor o salto, que nos leva a refletir sobre como vemos a realidade e nós mesmos dentro dela.
Até aqui, pelas interações que pude ter e apreender delas, posso
observar que o ser humano é formado por três movimentos em conflito.
- Uma essência – aquilo que viria na placa mãe, nossa genética, tendência a perceber às coisas;
- Um padrão civilizatório – que é essa nossa essência em contato com nossas condições de vida: família, bairro, escola, irmãos, amigos, país, idioma;
- E uma consciência – que nos permite “olhar de fora” nossos padrões e essência, formada por nossa cognição e afeto.
O interessante é que essas três forças estão em movimento, conforme a
vida que levamos, os problemas que temos, as pessoas com quem lidamos.
São taxas que variam, conforme a qualidade pior ou melhor dos
ambientes e de como lidamos com a sobrevivência, os abusos sociais etc.
Humor, satisfação, capacidade de nos sentirmos para cima ou para baixo.

A consciência seria assim, em essência, uma ferramenta de
autoconhecimento mutante, pois não podemos dizer que chegamos a um
limite dela, já que não vivemos tudo que temos para viver.
Não nos testamos, nem interagimos com situações que ainda temos para interagir.
Somos uma possibilidade em movimento constante com nossa capacidade de deixar o resultado em aberto ou fechar o dito cujo.
As pessoas mais conservadoras são aquelas que já pediram a conta.
Os mais inquietos estão sempre pensando na saideira.
Porém, ambos podem viver situações que os tiram do eixo.
Exemplos.
Uma pessoa acha que se conhece – forma uma fronteira do que acha que
ele é, porém, se perde um pai/mãe de forma trágica, ou ganha um filho,
sabe que está com uma doença terminal ou vive algo traumático, ou muda
de parceiro/parceira num relacionamento, é demitido e começa algo
completamente novo está prestes a descobrir lados novos, a se repensar.

Somos o que vivemos e o que conseguimos apreender e sentir e elaborar dessas vivências.
Podemos também começar um processo terapêutico ou espiritual novo que
vai levá-lo a ver determinadas percepções de sentir, perceber coisas
que não percebíamos antes, reformulando nosso conceito do “ser”.
Assim, na turma houve um questionamento sobre o estar.
Argumentaram que não podemos dizer que estamos, pois existe um “ser”,
uma essência que está lá, independente de nós, que não a conhecemos,
mas existe, como se fosse algo dado, palpável.
Nós não conhecemos, mas somos algo que existe e podemos, através de algum método, chegar lá.
Tal fato, me levou a me conscientizar – depois daquele debate – que
essa visão de nós mesmos como algo que “existe” e precisamos chegar lá é
uma percepção de nós, assim, como vemos a realidade.
Ou seja, transferimos para nós mesmos a maneira que vemos a realidade
e aí temos duas opções, a realidade existe, é um sistema fechado e
vamos chegar lá um dia.
Ou a realidade pode até existir, mas nunca conseguiremos fechar a conta.
Isso implica em como nos vemos também.
Este foi meu salto quântico, uma coisa leva a outra, naturalmente!!!
Assim, se pensamos que a realidade existe, nós existimos e podemos
nos conhecer ou a realidade como uma possibilidade, através de um
caminho de descoberta.
O que nos levaria a um sistema fechado e não aberto.
A algo previsível que alguém pode ter de nós.

Porém (vou de Marcelo Gleiser):
A realidade é histórica e nós somos históricos, sempre teremos uma
visão parcial de nós mesmos pelos “instrumentos” que temos para nos
perceber.
Isso nos remete à discussão sobre o que é, então, a realidade.
Gleiser tem colocado essa questão de forma clara e lógica.
(Já resumi bem os pensamentos deles aqui.)
Ele afirma que o ser humano é impotente em relação à realidade, pois
nós nunca conseguiremos chegar a ela, pois para medi-la (conhecê-la)
precisamos de instrumentos e de pessoas que consigam usar teorias,
métodos e ferramentas de forma cada vez mais criativa.
Os instrumentos e as pessoas criativas são históricas.
Podemos ter grupos criativos – como estamos tendo – que nos faz repensar o tempo a realidade.
Ou grandes gênios que fazem sínteses em cima de trabalho de outros que ninguém ainda conseguiu fazer.
(Vide Einstein.)
O que nos leva a afirmar que a realidade sempre será histórica.
E, portanto, há uma impotência humana.
Não conseguiremos nunca fechar a realidade.
A realidade é um problema em aberto e sempre será para a nossa espécie.
Qualquer afirmação sobre ela – e sobre nós mesmos- estará nos levando a ter dificuldades ainda maiores de percebê-la.
Dentro da percepção histórica possível.

O nosso conhecimento sobre nós mesmos, sempre será parcial e não
temos como fechá-lo, não podemos definir nossa essência, nossos padrões
ou nossa consciência, pois sempre estaremos revendo cada uma dessas
partes, ou outras que vamos conhecendo pelo caminho.
Quando alguém, assim, diz que é isso ou aquilo e fecha determinada
questão, simplesmente ele está saindo do processo de autoconhecimento,
cristalizando uma realidade, criando um espaço conservador de como vê a
si mesmo e ao mundo.
Passando a agente de conservação de uma dada realidade, muitas vezes
uma realidade interessada pelos apelos históricos de uma dada época ou
de dificuldade pessoais de estagnar em determinada etapa da vida.
Tal visão de si e da realidade, entretanto, tem uma consequência para um mundo colaborativo em que estamos entrando.
Dificulta a colaboração e os diálogos honestos, pois parte-se do
princípio de que quando sentamos para colaborar e trocar há algo em aberto,
uma troca que nos levará a algo inesperado e não conhecido.
Quando dialogamos – e as empresas estão nesse discurso com as redes
sociais – eles querem impor o seu mundo fechado, sua visão da realidade
pré-definida e não construir outra problematização, a partir do diálogo.
Ou seja, é um monólogo fechado, que finge-se de aberto, pois quem
chega para conversar vem com uma concepção de si mesmo e da realidade
fechada.
Impossível para a interação honesta.
Tal visão cristalizará a realidade, a si mesmo e, por tendências, as outras pessoas e os conceitos.
Algo que se estabiliza, como um sistema que se perpetua e essa
percepção dela mesma e do mundo dificulta as relações humanas, pois
viver é algo em aberto por mais que vamos construindo um rastro
provisório.
Quem fecha, passa ao monólogo.
Ponto.

Sempre há pontos novos, a partir do que conhecemos e do que o mundo
conhece sobre si mesmo, como as novas descobertas sobre o cérebro, nas
quais muitas doenças afetivas têm fundo químico, por exemplo.
E esse é ponto que nos leva a repensar nossa chegada – acreditando numa realidade e nós mesmos como algo fechado.
Num mundo 2.0, temos mudanças mais velozes, de mais colaboração, e, com a
criação de inteligência coletiva mais emergente, precisamos repensar
nossa relação com a realidade e nós mesmos como sistemas abertos.
Como uma problematização que não se fecha, pois nunca terá fim.
Não existe uma essência ou um padrão passível de serem conhecidos.
Temos que nos admitir como uma eterna versão, que é dada pelas
interações que tivemos até aqui e pelo que conseguimos pensar e sentir
sobre elas.

Somos uma versão de um problema em aberto que nunca irá se fechar.
E para promovermos a inteligência coletiva aberta – o diálogo honesto
em sala de aula, pela rede, nas organizações – é preciso ter essa postura
do estamos. E nunca do somos.
Sem ela, levamos algo fechado, que existe, que alguém detém e que outro tem que se render a este para ser aquilo também.
Nossa percepção sobre nós e sobre a realidade é algo fora das interações.
Porém, se há um problema em aberto, cada interação nos leva cada vez mais fundo nessa procura, nesse caminho.
O que muda completamente a postura de quem dialoga!

Por fim, que o artigo está longo, podemos dizer que o que nos
identifica como pessoas é aquilo que já conseguimos perceber e as
problematizações novas que as interações nos trazem.
Ou seja, quanto mais dialogamos, mais conhecemos a realidade e nós
mesmos, justamente o contrário de quem vem com um sistema fechado.
Para a visão do sistema fechado, o diálogo atrapalha, pois bagunça o
que já está arrumado, evitando-se, assim, o diálogo honesto, sob o risco
de quem tem essa percepção de mundo se perder na conversa, pois ele tem
uma realidade e um ser a defender.
Essa percepção (e postura) diante da realidade e de nós mesmos é
peça-chave para podermos interagir sem medo e aprender com cada
encontro.
Um agente de mudanças é um ser em aberto, assim como a realidade que
ele não conhece, mas vai, através da interação, problematizando cada vez
mais.
Assim, a visão que temos de nós mesmos e da realidade define nossa
postura e nossa capacidade de viver em um mundo mais colaborativo.
Essa reflexão é fundamental, a base, para podermos criar espaços de diálogos honestos, facilitando as interações.
É isso.
Fui até aqui.
Que dizes?







