DevSecOps

2 abr, 2014

O conhecimento livre a serviço da criatividade e da economia

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Começo este texto pensando sobre uma reflexão deixada pelo fundador e curador digital da Foundation for Peer-to-Peer Alternatives, Michel Bauwens. “Nossa economia política recente tem o mais estranho dos DNAs, pois ela considera a natureza como sendo uma fonte perpétua de recursos abundantes, ou seja, se baseia na falsa noção de abundância material; por outro lado, acredita que trocas de informações técnicas, científicas e intelectuais devem ser sujeitadas a fortes restrições proprietárias”. Então é esta a paradoxal mas também dramática contradição do sistema vigente: enquanto rapidamente sobrecarrega-se a capacidade natural do planeta, simultaneamente inibem-se as soluções que a humanidade poderia encontrar para o problema.

Portanto, da próxima vez que você acessar a Internet e vir uma decisão importante sobre direito autoral ou patentes, lembre-se: não é um embate sobre algo pequeno e técnico. É sobre o futuro da liberdade de existirmos como seres sociais uns com os outros, e a forma como a informação, o conhecimento e a cultura serão produzidos.

Felizmente, as comunidades emergentes de produção colaborativa que compartilham conhecimento, código e designs, isto é, fazem uso de arranjos de licenciamento livre que possibilitam e facilitam o compartilhamento universal, estão mostrando um caminho para uma reorganização fundamental para um mundo mais criativo e também econômico.

O software livre nasceu como um movimento social engajado de trazer as pessoas de volta ao direito de ter o total controle sobre os seus computadores. Isso significa que todo e qualquer usuário tem as suas especificidades e demandas próprias, que não necessariamente são supridas pelos interesses do mercado de massa. Então eu e você, como usuários, temos demandas que talvez não se justifiquem para uma grande Microsoft criar uma solução específica para nós. Uma grande Microsoft e uma grande Adobe vão criar soluções que têm um mercado de pelo menos algumas centenas de milhares de pessoas que vão comprar aquele software. Assim, o software livre viabiliza o preenchimento das necessidades específicas de algumas pessoas, dando essa autonomia de criar coisas que são especiais e importantes sob demanda.

Uma das vantagens de se trabalhar com software e hardware livres é que todo o esforço de investimento pode ser aplicado na inovação e na melhoria incremental, e não na reinvenção da roda, pois parte-se de soluções existentes que servem de base para a criação de algo novo. É corriqueiro que no mundo secreto e proprietário várias equipes concorrentes trabalhem simultaneamente fazendo a mesma coisa, enquanto no mundo livre as pessoas fazem trabalho em conjunto levando a um potencial maior de inovação criativa.

Um excelente exemplo de uma estratégia de negócios baseada em não-exclusividade é o da IBM, conforme aponta o professor da escola de direito na Universidade de Harvard, Yochai Benkler, em seu livro The Wealth of Networks (pdf). A empresa tem obtido anualmente, ao longo de duas décadas, o maior número de patentes emitidas nos Estados Unidos, tendo acumulado um total de mais de 67 mil patentes entre 1993 e 2013. Entretanto, a IBM também tem sido uma das empresas mais agressivamente engajadas na adaptação de seu modelo de negócio à emergência do software livre. Com base em estatísticas lançadas pelo Selected IBM Revenues, Benkler demonstra que em apenas quatro anos a categoria de serviços baseados em Linux passou de praticamente nenhuma receita para o dobro em comparação a todas as fontes de renda relacionadas a patentes da IBM, que tem sido a maior produtora de patentes das últimas duas décadas nos Estados Unidos.

A IBM afirma ter investido mais de US$ 1 bilhão em desenvolvedores de software livre, contratando mais de 300 programadores para ajudar no desenvolvimento do kernel Linux e de outros softwares livres. A companhia também doou patentes para a Free Software Foundation. Isso traz para a empresa um sistema operacional melhor para seus servidores corporativos – fazendo os servidores ficarem melhores, mais velozes, mais confiáveis e, portanto, mais valiosos para seus clientes.

Outro dado interessante também levantado por Benkler foi que participar do desenvolvimento de software livre também permitiu à IBM desenvolver relações de prestação de serviço com seus clientes, construindo, a partir de softwares livres, soluções personalizadas para demandas específicas. Em outras palavras, a IBM combinou estratégias de oferta e demanda para adotar um modelo de negócio não-proprietário que gerou mais de US$ 2 bilhões anualmente para a empresa.

Ainda, outro argumento econômico válido para empresas que fazem uso do software livre é entender que faz sentido companhias concorrentes colaborarem em determinadas situações, como quando há colaboração em algo que não é o core business das empresas. Companhias fabricantes de equipamentos industriais, por exemplo, podem contratar alguma empresa terceirizada que faça o serviço de desenvolvimento de soluções para servidores web livres, de modo que  todos saiam ganhando: tanto a empresa terceirizada que desenvolverá apenas uma única solução para várias empresas, quanto os seus clientes, que por terem se unido podem ganhar descontos nas assinaturas e não estarem presos a um único fornecedor, dado que tecnologias livres levam a mercados de livre concorrência.

Qualquer empresa que tenha interesse em atuar no mercado como prestador de serviço em suporte técnico ou customização para tecnologias livres tem acesso à toda a informação técnica necessária para tal, já que há transparência total nesse mercado. Sendo assim, parte-se de um ponto de concorrência honesta, em que a diferença da qualidade desse serviço é verdadeiramente ligada à competência técnica do prestador de serviço. Além disso, a participação de múltiplos atores nesse mercado tende a levar a preços mais justos para os consumidores.

A Red Hat é considerada a empresa pioneira em fornecimento de software livre e distribuições GNU/Linux a obter receita de US$ 1 bilhão. “Poucas empresas têm sido capazes de chegar a essa marca”, afirmou em entrevista o CEO da Red Hat, Jim Whitehurst. A empresa fechou o ano fiscal de 2013 com lucro líquido de US$ 150,2 milhões, montante 2% maior que os US$ 146,6 milhões registrados no exercício fiscal anterior. Na mesma base de comparação, a receita teve crescimento de 22%, somando US$ 1,32 bilhão, ante US$ 1,13 bilhão. A maior fatia da receita foi gerada pelo segmento de assinaturas de software, com US$ 1,14 bilhão e alta de 17% no período.

Mas ainda não tocamos no ponto das comunidades que, por acreditarem nos projetos livres, prestam todo o tipo de assistência para os consumidores daquele produto. O valor específico aqui é que as comunidades se sentem conectadas com o projeto e por isso ajudam, se empenham, e gastam algumas horas da semana contribuindo para aquilo em que acreditam. Esse é o caso do projeto Arduino, uma plataforma de prototipação eletrônica livre que se tornou muito popular na cultura do-it-yoursef (DIY), levando a experimentação com circuitos eletrônicos para milhares de pessoas. De fato, revolucionou a cena maker e, em função de os arquivos para construção do projeto, como o hardware e o software, estarem disponíveis na Internet, isso facilitou não só a sobrevivência do projeto como diminuiu a barreira de entrada de conhecimento necessário para começar a lidar com essas tecnologias.

A comunidade de entusiastas do Arduino é vasta e inclui grupos com interesses específicos em diversas regiões do mundo todo. A comunidade é uma excelente fonte adicional de assistência em todos os tópicos, tais como seleção de acessórios, assistência no projeto e ideias de todos os tipos.

Em entrevista à Revista Wired, Massimo Banzi, cocriador do Arduino, responde à pergunta que todo mundo faz: como você ganha dinheiro em um mundo de hardware aberto? Ele explica que o importante não é se incomodar em vender muito hardware, mas, em vez disso, vender seu expertise como inventor. “Se alguém é capaz de fabricar o dispositivo, então o melhor fabricante o fará pelo melhor preço. Ótimo, deixe que o façam. Isso irá garantir que sua criação seja amplamente distribuída. Por você ser o inventor, entretanto, a comunidade de usuários irá inevitavelmente se formar ao redor de você, de forma muito similar a como Linus Torvalds se tornou o ponto central para o desenvolvimento do Linux”. Nesse sentido, o conhecimento do criador se torna seu bem mais valioso, que pode ser vendido para qualquer um. É exatamente assim que trabalha o time do Arduino: a renda significativa vem de clientes que querem construir dispositivos baseados na placa do Arduino e contratam os fundadores como consultores, e não da venda das placas em si.

Então, quando volto a pensar na reflexão deixada por Michel Bauwens sobre o aumento de patentes e leis feitas pela grande indústria restringindo o acesso às possíveis soluções de problemas do mundo, penso que o grande desafio do conhecimento livre, além do próprio lobby contrário a essa abertura, é a conscientização das pessoas de que ele está disponível, que pode ser manipulado para inúmeros fins, que com um pouco de criatividade e aprendizado as pessoas podem se apropriar dele e definir o seu melhor destino.