
O OS X Snow Leopard aparentemente não faz nada realmente novo. E, mesmo assim, é possível que seja o sistema operacional mais importante desde o 10.0.0.
O Snow Leopard, dando sequência ao Leopard, é quase absurdamente
insubstancial à primeira vista. O novo sistema operacional pega todas
as velhas tarefas maçantes do dia-a-dia, como abrir arquivos, por
exemplo, e as torna sutilmente mais rápidas. Mas este desempenho não
está sendo utilizado por nenhum programa de terceiros por ora. E
praticamente não há nenhum programa novo da própria Apple. Nadica: a
maioria é composta apenas de antigos programas reescritos e dezenas de
pequenos tweaks na interface. Alguns fanboys perguntarão, incrédulos:
“Isto é um novo sistema operacional?!” Estas pessoas simplesmente não
entenderam o espírito da coisa.
Numa inspeção mais minuciosa, os aspectos menos distinguíveis do
Snow Leopard – desempenho espremido de múltiplos núcleos subutilizados
de CPU/GPUs e tweaks básicos na interface com o usuário – são o tipo de
refinamento geralmente reservado para a virtuosidade. Estas otimizações
na velocidade são profundas e me lembram um mestre em uma arte marcial
que joga todo o seu peso por trás de um golpe (enquanto um neófito
lança seus membros como um capanga tosco em um filme do Bruce Lee). Os
pequenos tweaks na interface com o usuário não diferem em nada do
cinzel de um grande escultor que trabalha na remoção de todas as partes
não-essenciais durante as fases finais de uma estátua. Desafiando 30
anos de tradição cada vez mais inchada de softwares, as mudanças neste
caso são um meio termo mais eficiente entre a mídia e o hardware,
reduzindo a fricção ao mesmo tempo em que se torna útil por ser,
digamos, mais leve e menos visível.
E se você acha que isto é balela, bem, não podemos dizer que você
está inteiramente louco, mas pelo menos há o consolo de que este
upgrade no SO custa praticamente tanto quanto um jogo usado de Xbox.
Desempenho
Após fazer um pouco de benchmarking
com um MacBook Air de primeira geração, um MacBook Pro 15 mais velhinho
e um par de MacBook Pros de 13″ da geração atual, fica claro que o Snow
Leopard é mais rápido, às vezes drasticamente mais rápido, mas quase
nunca nos aplicativos de terceiros. Algumas pessoas gostam de gráficos
e planilhas. Se você não está a fim de passar por isto, eis um resumo:
- Na
visualização, onde abrir seis imagens de 35MB e 20.000 pixels de
largura da vista de Tóquio levou cada uma a metade do tempo no Snow; - O
processamento de javascript do Safari, usando a tecnologia específica
do Snow, é aproximadamente 40% mais veloz bastante útil para todos
aqueles sites pesados em Ajax que tanto usamos agora; - O Time Machine fez backup de um conjunto de dados de 1GB quase 40% mais rápido no Leopard;
- Não
houve nenhuma melhora perceptível nos programas não otimizados para 32
bits: os testes do Photoshop e os tempos de ripagem do Handbrake DVD
foram idênticos. A reprodução de filmes em alta definição no QuickTime
7 (não na versão nova QuickTime 10) também foi idêntica na utilização
da CPU; - Os
resultados sintéticos do benchmark foram interessantes: o aplicativo já
amadurecido Xbench, que testa tudo desde gráficos a discos e à memória,
sofreu uma ligeira queda no desempenho, sugerindo que softwares mais
antigos também sofram o mesmo problema. O Geekbench, um benchmark mais
novo e otimizado para múltiplos núcleos, disponível tanto em 32 quanto
em 64 bits, teve um ligeiro incremento no Snow. Mas o teste só foca no
desempenho teórico da CPU e da memória, que talvez não se traduza no
uso do dia-a-dia.
Eis um vídeo daquelas JPEGs se abrindo em paralelo em vez de serialmente:
Já está impressionado? Não deveria. Bem, pelo menos não pelo ato de
abrir-se imagens. Mas você definitivamente deve se impressionar quando
perceber o que isto realmente prova: a Apple acabou de sacar o dobro do desempenho do meu hardware só usando um diferente software. Eureka!
Como o Snow Leopard fica mais rápido?
Existem três motivos fundamentais para estes incrementos no
desempenho: melhor suporte a processador de múltiplos núcleos, algo que
a Apple chama de GCD (Grand Central Dispatch – algo que nós explicamos aqui);
APIs OpenCL para utilização do poder de processamento de qualquer placa
de vídeo acima da GeForce 8600 para aceleração de vídeo e computação
geral; e eles reescreveram praticamente todos os aplicativos que vêm
junto com o Snow Leopard para rodar em modo 64 bits, ao mesmo tempo em
que se aproveita do GCD e do CoreCL. Ou seja, ele torna o processamento
dos chips atuais mais eficiente e mais fácil para os desenvolvedores. E
também confere aos programas uma maneira de utilizar o poder de
processamento de uma placa de vídeo enquanto não está rodando nenhum
jogo. Ele também permite que os programas rodem em modo de 64 bits,
cuja principal vantagem teórica é permitir que estes programas acessem
mais de 4GB de RAM nos sistemas que têm mais memória (mais sobre isso
ao final do artigo*).
O Snow Leopard é eficiente de outras maneiras também. O tamanho de
instalação caiu de 16GB para 10GB. A maior parte deste emagrecimento se
deve ao fato de terem se livrado de drivers de impressora e a parte
PowerPC dos binários universais (o Snow Leopard só roda com hardware Intel
e baixa os drivers de impressoras direto da Internet conforme você
precisa deles). A instalação também é uns 30% mais rápida em qualquer
máquina (consistente com o tamanho menor de instalação). E, em uma
jogada que só pode ser considerada exibicionista, o Snow Leopard
consegue terminar a sua instalação caso você acidentalmente desligue o
computador no meio da operação.
Mas estou divergindo. O ponto final sobre o desempenho é que os
programas que vêm junto com este sistema operacional farão praticamente
qualquer coisa mais rápido em máquinas modernas que suportam estas tecnologias
ou seja, a maior parte dos Macs de múltiplos núcleos ou aquelas
rodando placas de vídeo Nvidia 8600 ou superior. E não é só um
pouquinho mais rápido, mas uns 25 a 50% mais rápido, o que significa
que há uma quantidade de processamento latente e disponível na sua
placa de vídeo e CPU. Ótimo! Mas, para ser honesto, é um tanto menos
impressionante na vida real do que aparenta ser porque todas as tarefas
básicas de sistema rodam rapidamente de qualquer jeito (quando foi a
última vez que você ficou sentado esperando uma JPEG abrir?).
Novamente, nenhum outro aplicativo que usa GCD ou OpenCL está
disponível de fabricantes de software que não sejam a Apple. Mas, se os
ganhos teóricos chegaram para serem aproveitados por meio de métodos
mais simples de programação, eu aposto que estes aplicativos virão logo.
Simplificação da interface
Existem cinco grandes mudanças na interface com o usuário:

Finder
Os ícones agora aumentam de tamanho – cortesia de uma pequena barra
slider no canto direito inferior do painel para até 512 pixels de
largura. Parece desnecessário, mas só até você saber que os arquivos de
vídeo podem ser tocados diretamente da janela do Finder. Honestamente,
eu não acho isso melhor que o QuickLook (apertar a barra de espaço para
fazer aparecer uma janela de rápida visualização) do Leopard. Não me
importo com a opção, mas não vejo muito uso pra mim neste recurso.

Dock
O dock do OS X tem sido interativo há um bom tempo. Você podia
arrastar um arquivo para um ícone e de alguma maneira fazer com que
ambos interagissem, mas você nunca podia usar o dock para selecionar
que instância de janela de um aplicativo usar. Agora, ao clicar e
segurar (no nada ou com um arquivo) você ativa o Expose – o troço de
gerenciamento de janelas da Apple – para aquele aplicativo em
particular. Ser capaz de rapidamente abrir as janelas de um aplicativo
e depois selecionar a correta em um único passo é animal, mas você
ainda não pode usar o Expose para rapidamente encontrar a guia do
navegador que você deseja dentro de uma janela. Isto é um problema cada
vez maior conforme o nosso tempo usando navegadores tende a crescer.

Expose
O Expose em si também melhorou. Ao visualizar todas as janelas de um
aplicativo na vista mais afastada do Expose, os itens agora são
dispostos em uma grade em vez de uma única linha impossível de se ler,
e cada janela possui uma descrição em texto (isto ajuda bastante quando
você está tentando reconhecer uma janela em particular entre muitos
documentos de textos ou e-mails semelhantes e miniaturizados pelo
Expose). Janelas minimizadas agora são exibidas na parte de baixo da
tela, logo abaixo uma linha tênue que divide das outras janelas
maximizadas do mesmo aplicativo.
Stacks
Quando o Stacks debutou no Leopard, o rápido visualizador de
arquivos embutido no dock era muito complicado de se usar. Você tentava
mover um arquivo e ele se fechava sozinho, provavelmente ofendido por
você tentar fazer qualquer coisa que não fosse abrir um arquivo. E o
espaço era sempre muito limitado tanto no modo leque quanto grade para
exibir mais do que alguns poucos ícones. O Stacks melhorou neste
aspecto ao permitir rolagem na visualização em grade, mas também ao
acrescentar uma visualização de lista rápida capaz de exibir diversos
arquivos ao mesmo tempo. Ah, melhorou, vai.
QuickTime 10
Colocar o QuickTime nesta lista é questionável, mas fora a sua
aceleração, há algumas mudanças grandes nele. Ou melhor, conforme você
afasta o mouse, a tela de vídeo perde todas as bordas e botões,
parecendo o equivalente em vídeo a uma piscina infinita
ou um daqueles LCDs ultrafinos. O programa possui um novo sistema de
captura para gravar clipes de áudio e de vídeo e até mesmo sessões de
captura de tela com voz. Ele também pega emprestado a linha de corte de
thumbnail do iMovie ’09. Eu adorei.
Mas, convenhamos, no geral, chamar estas mudanças de “grandes” é ser
generoso demais. Mas há literalmente dezenas de exemplos menores, todos
muito bem-vindos, todos reduzindo os pontos de atrito no uso do SO,
eliminando cliques e tornando o SO menos obtuso. Você pode ler todas
estas adições individualmente na galeria abaixo (*NT: em inglês), ou aqui em uma única página, caso você tenha curiosidade de lê-las todas. Caso contrário, acredite no que digo: elas todas melhoram bastante o sistema.
Apesar de não ser relacionado ao desempenho nem à interface com o
usuário, um benefício adicional do Snow Leopard é o suporte gratuito ao
Exchange, assim o seu e-mail, caderno de endereços e calendários podem
todos se sincronizar por meio dele. Eu não trabalho em uma corporação,
então pra mim não importa, mas pra você pode importar.
Coisas ruins
Que tipo de fanboy doentio eu seria se eu não mencionasse as imperfeições?
A capacidade do Safari 4 de segmentar plugins instáveis de
navegadores passou a ser útil quando muitas mais páginas em flash
travavam no Snow Leopard do que no Leopard.
Atualização: outros leitores descobriram que o Snow Leopard desativou ou deixou estranho o uso de alguns dos seus aplicativos.
Eu também notei que o Expose não roda tão bem com o Spaces agora.
Você às vezes seleciona uma janela em outro desktop virtual Spaces e
ele não abre a janela.
Se você tiver algum aplicativo crítico de terceiros que você precise
rodar todos os dias, você deve verificar antes a sua compatibilidade e
esperar por uma nova versão antes de atualizar o seu SO. Olhe antes de
dar o salto. O SO não é tão radicalmente novo a ponto de você precisar
dele exatamente agora.
Miau
As mudanças são modestas e os ganhos de desempenho parecem
promissores, mas além dos aplicativos embutidos, é apenas uma promessa
mesmo. Se você espera que os sinos de Belém toquem, é melhor você
esperar por este upgrade pelo menos por um tempinho. Mas o meu palpite
é que o maior recurso do Snow Leopard é que ele não tem nenhum recurso
novo, mas o que tinha foi refinado e está um passo mais próximo da
perfeição. Mas é melhor que eles apresentem alguns recursos novos da
próxima vez, porque o upgrade de requinte invisível só funciona uma vez
a cada algumas décadas.
Positivo
- Usa múltiplos núcleos latentes e potência da GPU para acelerar bastante os aplicativos que vêm com ele
- Custa apenas 30 dólares
Deu na mesma
- Ainda não vi nenhum aplicativo de terceiros que tenha sido reescrito para tirar proveito da velocidade do Snow Leopard
Negativo
- O fato de não ter nenhuma grande funcionalidade nova pode embotar algumas das já existentes
*Histórico do desempenho: você pode pular esta seção
Os chips atuais têm pairado na casa dos 2-3,6GHz já faz um
tempo, com ganhos na potência teórica de processamento obtidos
aumentando-se o número de núcleos de CPU em um chip e otimizando o
silício destes núcleos. Pense em um telhado: é mais fácil você
protegê-lo com um monte de pequenas telhas do que com uma única telha
gigantesca. Infelizmente, a potência fornecida pelos núcleos adicionais
de CPU em boa parte é desperdiçada porque é difícil escrever um código
que se utilize integralmente de múltiplos núcleos. O programador
precisa escrever o aplicativo de maneira que ele quebre os problemas
grandes em múltiplos problemas menores (chamados threads), cada um
deles rodando em um único núcleo de CPU. O aplicativo então passa a ser
um guarda de trânsito que mantém os threads em sincronia. Se qualquer
parte sair da sincronia, o aplicativo trava ou fica forçosamente ocioso.
Este problema fica ainda mais complexo porque muitos aplicativos
são escritos com um número máximo de threads em mente. Enquanto algumas
tarefas tais como codificação de vídeo ou processamento de foto têm
como tirar proveito naturalmente de múltiplos núcleos, a maior parte
precisa executar algum trabalho para acrescentar suporte para mais
threads, assim o planejamento futuro
passou a ser difícil. Eu não sei se programar GCD é mais fácil que a
programação direta em múltiplos núcleos – nos cobrimos alguns destes
detalhes aqui – mas a chave neste caso é que a Apple criou um meio
termo onde os desenvolvedores podem trabalhar
que automaticamente se reflete no número de núcleos de CPU ou outro
hardware no seu sistema. O desenvolvedor escreve para GCD, enquanto o
sistema lida com o trabalho pesado. A Apple espera que mais pessoas
usarão este método mais fácil e mais planejado para o futuro de extrair
a potência dos múltiplos núcleos. Logicamente, ninguém o fez até hoje,
exceto os próprios programadores da Apple. Isto explica o porquê de o
Finder, Preview e praticamente tudo o mais que vem junto com o Snow
Leopard, rodar mais rápido. Ainda assim, como podemos ver pelos
aplicativos do sistema, existe um grande potencial nesta situação. E,
convenhamos, a maior parte de nós não fica renderizando arquivos de
Photoshop o dia inteiro, então todo este incremento no desempenho é
algo que você vai guardar no bolso por enquanto.
Tem também o lance da eficiência. Como o GCD é melhor para lidar
com os recursos, um programa como o Mail, por exemplo, provoca menos
impacto no sistema (uso de thread, uso da CPU) enquanto fica parado no
Snow Leopard do que no Leopard. Ao testar a aceleração do hardware do
OpenCL – algo que as máquinas Windows já têm há um bom tempo – ao tocar
um trailer em 1080p do novo filme animal do James Cameron, Avatar, o
uso da CPU caiu drasticamente quando as máquinas estavam usando o
CoreCL de 64 bits e a versão suportada do QuickTime no GCD. Qualquer
máquina moderna é capaz de rodar vídeo em 1080p bem, mas neste caso
estamos falando do Snow Leopard exigir menos do sistema a ponto de
levar o uso da CPU de 30% para 16% nos MacBook Pros de 13″. Outros
aplicativos com o tempo serão capazes de usar estes superpoderes da
GPU, mas o que a Apple diz sobre o verdadeiro potencial para
processamento de GPU é que o OpenCL permitirá que os computadores usem
mais placas de vídeo não apenas para aceleração 3D, codificação de
vídeo e cálculos pesados, mas outras tarefas mais genéricas de
computação também, já que é escrita em uma linguagem de programação
não-específica (baseada em C).
Além disso, houve uma boa quantidade de bons artigos
questionando os benefícios de velocidade da computação de 64 bits. A
Apple só diz que as tarefas baseadas em cálculos se beneficiam mais do
incremento, mas em geral a única vantagem concreta da computação em 64
bits é a capacidade que os aplicativos têm de manipular mais de 64GB de
RAM, uma limitação da computação em 32 bits. Os gurus de
desenvolvimento da Apple ainda dizem que alguns aplicativos ficarão
ainda mais lentos caso sejam usados em 64 bits. Assim, reescrever os
aplicativos nas versões 64 bits não é uma receita garantida para
incremento de velocidade.
Em muitos casos, com muitos dos aplicativos embutidos, a Apple
atribui a melhora do desempenho a todas as três tecnologias de núcleos
acima. Isto tudo não significa muito hoje, mas pode significar pra
caramba amanhã conforme as GPUs ficam mais rápidas e as CPUs ganham
mais núcleos, e já existe toda uma infraestrutura pronta para extrair
todo o potencial disto.







