Desenvolvimento

22 mar, 2011

Por que só papel? (ou: “computadores além do Desktop Publishing”)

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Proponho um exercício para você que é designer: desinstale o pacote da Adobe. Remova
Illustrator, Indesign, Photoshop, After Effects, Première… Os mais
versáteis podem remover também Flash, Dreamweaver e Soundbooth. Não se
esqueça de mandar pro espaço o Font Folio e qualquer outra sutileza
tipográfica. Se sobrar alguma coisa desconhecida e inútil (alguém ainda
usa Fireworks e Freehand?), também remova sem dó nem piedade. Se você
for uma pessoa de comportamentos estranhos e poucos amigos, aproveite
para desinstalar o Corel Draw e seu bando (eu sei que isso está lá, em
algum lugar).

Aproveite o embalo e mande para o espaço o Office (se for o Open, nem devia estar ali, então considerem isso um favor). Continue a cruzada do uninstall.
Quando só sobrar praticamente o sistema operacional (Windows ou MacOS,
dependendo do seu bolso e do seu gosto), formate o disco rígido com convicção.

Então, olá. Este é o seu computador. Provavelmente se você tentar ligá-lo encontrará uma mensagem estranha do tipo “sistema operacional não encontrado” ou algo do gênero, confirmando o fato de que seu computador se tornou um enfeite caro e sem vida.

Apesar do exemplo exagerado, ele é transformador. Muito antes de
remover o sistema operacional (mais ou menos perto da desinstalação do
Office), o computador já teria se tornado uma ferramenta inútil para a
maioria dos designers que eu conheço.

Como isso é possível? Nada que custa mais de R$ 2 mil (falo de um PC decente) pode se tornar tão inútil. Tirando navegar na web e “preparar uns powerpoint”, esse treco virou repentinamente uma televisão LCD baratinha com acesso à Internet.

Mas é bom enfatizar que isso não é (e não foi) verdade para alguns designers que eu admiro e respeito:

  • Douglas Engelbart: pai do mouse, mas também do NLS
  • Ivan Sutherland: pai do Sketchpad
  • Alan Kay: mentor da GUI e um dos pais do Smalltalk
  • Seymour Papert: o pai da linguagem Logo
  • Larry Tesler, Tim Mott, Bill Verplank e tantos outros por trás dos PCs da Xerox PARC (Alto, Star…)
  • Bill Atkinson: designer de interação do Apple Lisa (sem o qual não teríamos o Mac)
  • Tim Paterson: o designer do MS-DOS (QDOS ou 86-DOS originalmente)
  • Kazuhiko Nishi: o pai do MSX
  • O time da Borland, como um todo

Não vou me atrever a citar o designer do Windows nessa lista, não pela falta de mérito, mas porque a primeira versão dele rodava sobre
o MS-DOS, o que fugiria do agrupamento que estou propondo. Também
deixei de fora da lista computadores de grande porte (e custo) da era
pré-PC, já que o meu interesse é discutir essa ferramenta de dimensões,
preço e funcionalidades orientadas ao consumidor comum.

O que todos esses designers têm em comum é o fato de que partiram daquele mesmo hardware vazio, sem vida (a TV de LCD com wi-fi lá de cima) e criaram ecossistemas que favoreceram a emergência do pensamento computacional no usuário comum. Eles entenderam o computador não como uma ferramenta, mas como um meio expressivo.

Na história da interface gráfica (na high road do Bill Moggdrigde),
houve sim muito esforço para levar a editoração gráfica e a autoria
multimídia para o computador, porém certamente esse não foi o único
movimento. Apesar de o Guy Kawasaki sugerir que o Aldus Pagemaker
salvou o Mac e a Apple (eu concordo), havia todo outro movimento, mais
silencioso e difuso, que na minha humilde opinião formou as bases dessa
revolução de startups que está por aí, mesmo no Brasil.

Essa é a revolução do usuário que pensa computacionalmente e resolve enfrentar os problemas do dia-a-dia não com o suporte do computador, mas com a sua lógica – que é humana,
antes de mais nada. Alguns designers se maravilharam, ainda nos anos
80, com a possibilidade de desenhar mapas e editar livros com o
computador – na verdade, por meio do software pronto que o acompanhava.

Outros, normalmente vistos como programadores ou hackers, implementavam do nada – a partir do hardware, na verdade – funções gráficas que partiam do primeiro pixel plotado na tela até chegar à simulação tridimensional de um ambiente – seu próprio software.

Tem gente que chama isso de programação, eu chamo de design.

Onde está a diferença entre usar um software e escrever um software? Está na percepção de que o computador não é uma folha digital de papel, interminável, com undos
infinitos. Não é apenas mais um suporte que pode ser trabalhado como o
papel, a madeira, a pedra… A computação (mais comunicação e controle)
tem seus próprios paradigmas, mais ligados ao pensamento e à linguagem
em si do que à mimese e à reprodução de outras linguagens analógicas. O meio digital pode ser fim.

Quem não aprender a programar será programado, profetiza o Silvio Meira. Se o mundo é digital, conectado, móvel e programável, o pensamento computacional é a ferramenta de design do futuro… Ou do presente? Do passado, até.

Computational Thinking: It represents a universally applicable
attitude and skill set everyone, not just computer scientists, would be
eager to learn and use
– Jeannette M. Wing

Não estamos falando de aprender uma linguagem de programação. Estamos
discutindo um tipo de pensamento abstrato, lógico-matemático,
construtivo, orientado a idéias e conceitos, típicos de um…

…designer.

O computador vazio, sem pacote Adobe, é, no máximo, comparável a um
estojo sem lápis e canetas. Não há como desenhar, mas os paradigmas
expressivos da linguagem estão todos ali. Não estou diminuindo ou
menosprezando o analógico, apenas sugerindo que o digital merece vida e
oportunidades próprias.

Explico os designers citados neste artigo pela minha própria
experiência: ganhei meu MSX com 8 para 9 anos, devidamente equipado com
MSX-Basic e MSX-Logo. Meu primeiro 386, que ganhei aos 12, rodava MS-DOS
e estava munido de um Borland C e um Turbo Assembler. Dos 12 aos 18
anos, até resolver cursar Design na universidade, todo o meu
divertimento no computador foi criar rotinas gráficas, animações programadas ou pequenas ferramentas para desenhar fontes, animar sprites ou ajudar na execução de jogos que nunca ficaram prontos.

Dos 18 até me formar e mesmo depois, profissionalmente, meu principal
diferencial como designer foi também ser programador. Fiz minha
carreira de tal forma ligada à computação que arrisco dizer que, apesar
de desenhar desde muito novo, não seria 20% do designer que eu sou se
não fosse também programador.

Posso não ser a regra, mas o meu ponto central é o seguinte: não me
tornei o designer que sou por saber escrever programas, mas por adotar
estratégias de projeto particulares por causa do pensamento
computacional que desenvolvi.

Sou coordenador do Núcleo de Interfaces Computacionais (NIC) da Universidade Federal do Espírito Santo, e discutimos ali como arquitetos projetam modos de viver, e não apenas casas.
Fazendo uma correlação com o tema deste artigo, entendo que os designers
que não vencerem a barreira da computação como linguagem estarão
condenados a habitar a casa que outros programadores projetaram para
eles.

Epílogo

A idéia de escrever este texto surgiu após conhecer a programação do RDesign Vitória 2011,
que será um evento muito bacana, embora reflita o pouco interesse ou
distanciamento dos alunos de design em geral das questões da computação.

Palestras e mesas-redondas em eventos de design, principalmente para estudantes, precisam superar a discussão de sites, motion graphics ou apps.
Passou da hora de discutirmos inteligência artificial, cibernética,
teorias da comunicação de natureza matemática, ontologias e outras
oportunidades belíssimas de ajudar os designers a dialogarem com o
computador que não tem nada dentro (e que mesmo assim computa).

Notas

Este artigo é um interlúdio entre o Inteligência Avançada 01 e 02. Achei importante começar a deixar claro que por mais que possam achar que estou falando de computação, psicologia ou whatever, estarei falando de Design o tempo todo. Sinto-me inclusive preocupado com o futuro profissional das pessoas que não entenderem isso.