Cloud Computing

28 ago, 2013

Dados como moeda de troca na sociedade digital

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“Estamos caminhando para a era do desafio da privacidade global. Isto é, é preciso descobrir uma fórmula que utilize os dados das pessoas sem expô-las a todo o resto que está acontecendo. Este é o desafio crucial para os negócios na área de publicidade e marketing”.

O parágrafo acima é um resumo da palestra de Gerd Leonhard, CEO da The Futures Agency, apresentada durante a 4ª edição do INFOtrends, evento da revista INFO que aconteceu no início de agosto, em São Paulo. Participei do congresso e quero destacar neste artigo alguns assuntos apresentados por lá e que considero pertinentes ao refletirmos sobre o desafio global da privacidade, quando dados valem ouro em uma sociedade conectada.

Além do Gerd Leonhard, falo também no texto da apresentação de Hugo Barra, vice-presidente mundial do Google, responsável pelo Android. Vamos discutir aqui temas como a nova economia dos gadgets, apps conectados à nuvem, reinvenção da mídia e novos modelos de negócios.

Redes neurais e computação quântica

O keynotede Hugo Barra abriu a 4ª edição do INFOtrends. Sua palestra teve como tema “O futuro da tecnologia móvel”. O executivo do Google aposta no estudo das redes neurais e no avanço da computação quântica para o aprofundamento das inovações tecnológicas. Dessa forma, será possível multiplicar a capacidade dos computadores de analisar e processar dados de maneira radical.

Alguns dos exemplos de criação de máquinas inteligentes a partir de redes neurais citadas por Barra foram os carros auto-dirigíveis e os tradutores automáticos, como nos seriados de Star-Trek. A tecnologia utilizada para treinamento da rede neural é o deep learning, que tem suas origens em estudos de inteligência artificial investigados desde a década de 50.

Esse campo de pesquisa por muitas vezes já passou por surtos de entusiasmo desproporcional a respeito do potencial revolucionário de novas descobertas, repetidamente seguidos por frustrações dado que as novas técnicas de fato não eram tão revolucionárias quanto nas previsões pareciam ser. Apesar de termos fortes indícios de que algo grande está acontecendo no ramo da inteligência artificial, temos que ter cautela, pois ainda não sabemos se esse não é apenas mais um surto de entusiasmo excessivo.

Nova economia de gadgets

Um ponto que merece destaque na fala de Barra é quando ele diz que as mudanças mais relevantes na indústria de tecnologia poderão vir de pessoas comuns, a partir de gadgets sofisticados e de baixo custo como o Raspberry Pi e o Arduino. E que a produção em massa de projetos a partir desses dispositivos fabricados em garagens poderão ser viabilizados por fundos de financiamento colaborativos, como o KickStarter, serviço que está revolucionando a inovação social e tecnológica nos EUA. Nele, o comprador daquele produto também é o investidor. O hardware livre também é marca desse novo momento, como o próprio Arduino e os vários projetos de impressoras 3D com hardware e software livres.

Apps conectados à nuvem

Para Hugo Barra, outra revolução que está em curso é a nova economia de apps. Qualquer pessoa em uma garagem pode produzir um app que pode ser acessado por milhões de pessoas. Nesse sentido, o palestrante acredita que o futuro da computação móvel será definido por inúmeros apps conectados à nuvem.

Tudo isso estará provocando uma inevitável revolução de processos no mundo. Destaco quatro exemplos citados pelo palestrante que exemplificam este novo reordenamento das ações, como o Uber, app que conecta passageiros e motoristas profissionais em um simples toque de um botão; a possibilidade de fazer qualquer compra (roupas, supermercados, cafés) definindo a data e horário que você quer receber o produto em casa com o Google Shopping Express (hoje disponível apenas para testers em San Francisco, Vale do Silício); fazer reserva de quartos de hotel de última hora a taxas baixas, com o app Hotel Tonight,  e poder gerenciar sua caixa de correios como se fosse uma caixa de e-mail, por meio do Outbox, que apesar de muito interessante pela praticidade e comodidade, é também preocupante em termos de privacidade, já que a empresa abre todas as cartas das pessoas no processo de digitalizá-las para o email do cliente.

Privacidade em jogo

Ressalto aqui uma preocupação minha quanto ao uso excessivo de apps na nuvem. Uma grande parte dos internautas está seduzida pela comodidade que os apps conectados à nuvem podem oferecer, entretanto, eles não estão necessariamente pensando sobre as consequências do seu uso. É necessário ressaltar que a proliferação de dados sensíveis em servidores de data centers podem deixá-los vulneráveis a maus usos.

Por isso, as pessoas precisam se conscientizar sobre a questão, afinal, é do interesse delas e da sociedade como um todo que essas empresas que coletam dados pessoais e os armazenam em seus servidores, precisem sempre usar criptografia (tanto para a comunicação, quanto para o armazenamento desses dados).  Afim de que não seja feito uso indevido dessas informações, seja por governos, vide o recente escândalo da NSA, invasores na eventual ocorrência de falhas de segurança ou até mesmo o uso indevido dos dados por profissionais de diferentes setores da própria empresa.

O futuro da sua empresa

Outra excelente palestra foi a do futurista Gerd Leonhard, “O futuro da mídia, da TV e da publicidade em uma sociedade conectada.” Já de início o palestrante destacou que se a sua empresa quer estar pronta para o futuro, ela deve prever algo que ainda não existe. Como exemplo ele citou a Apple, que há 5 anos atrás não produzia o iPhone e o iPad e hoje mais de 50% da sua receita vem desses produtos. Em outras palavras, 50% dos recursos da sua empresa dentro de poucos anos provavelmente virão de outros lugares e artefatos que hoje nem sequer foram concebidos ainda.

O futuro da mídia

Gerd ressaltou também as 8 mídias definitivas para o futuro: “social”, “local”, mobile, vídeo, cloud, Over the Top Content (OTT), big data e e-commerce. Em suas estimativas, 80% do tráfego da internet será de vídeo nos próximos cinco anos. No quesito “cloud”, um alerta: todas as estatísticas sobre nossos hábitos e interesses estão sendo agregadas em grande volume em cada uma das centenas de apps na nuvem utilizados por nós.

Além disso, é preocupante a quantidade de informações reunidas sobre as nossas preferências extraídas de sistemas que manipulam grande quantidade de dados. Na sua visão, os dados reunidos na internet serão o próximo petróleo, uma vez que teremos guerras pelo controle das informações. “Esse é o mundo dos algoritmos, que define quem seu consumidor é e o que ele faz, como ele é, como você o atrai, o que ele compra. Os algoritmos são necessários, mas o que necessitamos mesmo para sermos bem sucedidos é o que chamo de ‘humaritmos’, precisamos humanizar esse turbilhão de informações”, problematiza Gerd.

Foco na relevância e não na distribuição

Em uma sociedade em que tudo está conectado, tudo está disponível, tudo está online, sendo possível ler qualquer livro já escrito, assistir qualquer filme já produzido, ouvir toda e qualquer música criada, o que importa não é a distribuição e sim a relevância. Portanto, o setor de mídia precisa se transformar radicalmente. A fórmula é ter a atenção e não a distribuição. “Para as empresas de mídia, o controle de distribuição é um mito, como se pode ver nesse cenário”, salienta Leonhard.

Abundância x Escassez

Vivemos em uma sociedade digital abundante. Abundante de informação, de estatísticas… Não de escassez. Para as empresas operarem nessa nova lógica é preciso se desapegar da escassez como estratégia de negócio. Nesse sentido, a abundância é um chamariz para a formação de um universo amplo de usuários dos quais uma parcela pode ser fidelizada aos serviços  rentáveis ao empreendimento. Isto é, você pode ter acesso gratuito a determinados serviços de uma ferramenta, mas para usufruir de benefícios extras, e que portanto são escassos, é tipicamente necessário a aquisição de uma conta “premium”. Esse é o recado dado por Leonhard para as empresas readequarem seus modelos de negócios na internet.

Por outro lado, vale ressaltar que mesmo aquele universo de usuários que usufruem da enorme quantidade de conteúdo gratuito, na prática são também explorados pelos empreendimentos pagando pelos serviços com os seus dados pessoais.

Dê prazer e agrade o seu cliente

Gerd explica que o princípio primordial de Jeff Bezos da Amazon é “o prazer do cliente”. Esse é o seu jeito de olhar para o mundo. Ele quer agradar os clientes. A missão é, portanto, agregar valor ao seu consumidor. No final, o que importa é a confiança, o valor e a relevância ao consumidor.

Dados como moeda de troca

Gerd Leonhard encerrou sua participação com a afirmação que citei no início desse texto, e repito aqui: “estamos caminhando para a era do desafio da privacidade global. Isto é, é preciso descobrir uma fórmula que utilize os dados das pessoas sem expô-las a todo o resto que está acontecendo. Afirma ainda que esse é o desafio crucial para os negócios na área de publicidade e marketing.”

E vocês o que acham? Acreditam que é possível explorar os dados das pessoas sem invadir a sua privacidade?