Carreira Dev

14 dez, 2007

Quatro blogs, quatro histórias de sucesso

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Quando os blogs começaram a se difundir, há alguns anos, houve quem dissesse que eles não passavam de “diários de adolescente”: ferramentas de publicação que se limitariam a descrever o cotidiano de seus donos para um público reduzido.

Nada mais ilusório. Os blogs evoluíram, e vêm transformando radicalmente as formas de comunicação entre pessoas e empresas em todo o mundo, tomando espaço dos veículos tradicionais, democratizando a forma de comunicação, rompendo barreiras entre emissor e destinatário da mensagem. E, como não poderia deixar de ser, gerando negócios.

Considerados como um dos principais instrumentos da tão chamada colaboração, um dos pilares da Web 2.0, os blogs estão cada vez mais influentes, e muitas empresas começam a se aventurar nesta seara aqui no Brasil. Embora ainda haja muito a ser feito, vale a pena mostrar aqui algumas histórias de visionários que apostaram nesta forma de comunicação há mais tempo, e que agora recolhem os frutos desta aposta.

JumpExec ouviu quatro personalidades da internet brasileira, que têm muito a dizer sobre este fenômeno chamado blog – e que mostram, cada um a seu modo, como gerar negócios com eles.

“Trabalho duro” – Edney Souza, do blog InterNey

Ele já entrou, digamos assim, para a história da internet brasileira como o primeiro blogueiro a viver exclusivamente de seu blog. Edney Souza, do Interney, já está acostumado com a fama, mas sabe que o segredo do sucesso é um só: trabalho duro.

Edney sabe que esse pioneirismo lhe rendeu muitos admiradores, e ele fica satisfeito em constatar que a maioria das pessoas sabem que ele é o Interney. “Ou seja, eu sou uma pessoa com quem você pode bater papo e trocar idéias, mas tem o outro lado da questão: alguns têm uma certa idolatria que me incomoda um pouco, pois como se tudo que eu tocasse fosse virar ouro, o que não é verdade”, ele comenta.

E Edney sabe do que está falando: ele passou oito anos, como ele mesmo diz “quebrando a cabeça” para achar um modelo de negócios para seu blog. “Lancei o blog em 1997 e só passei a viver exclusivamente dele em 2005, ou seja, não houve mágica, só trabalho duro”.

Por isso mesmo, nada de deslumbramento: “Acho importante colocar os pés no chão. Posso ajudar muita gente, mas também preciso de muita ajuda se quiser continuar no caminho certo”, observa.

Edney acredita que as empresas podem se beneficiar de blogs. Do alto de sua experiência, ele recomenda: “as empresas podem anunciar em blogs, que é uma mídia que fala de forma mais direta e próxima do consumidor. Ou então, partir para a publicação de um blog próprio, preferencialmente assinado por algum executivo da corporação. Dessa forma, a empresa pode ir buscando maior transparência nos seus negócios e estratégias de lançamento de produtos, criando ela mesma um canal mais íntimo com seus clientes”.

Como não poderia deixar de ser, Edney é muito otimista a respeito de 2008: ” Em 2007 os blogs passaram a ser vistos como uma mídia respeitável. Muitos descobriram que existem blogs que são veículos sérios e ótimas fontes de informação, principalmente quando se busca opinião e um bom debate através dos comentários. Espero que em 2008 essa imagem se consolide. Pelos projetos que tenho acompanhando em portais ou em iniciativas de outros blogueiros, acredito que teremos um percentual significativo de investimentos em blogs no próximo ano”, comenta.

“Apostar no novo formato” – Mauro Amaral, do blog Carreirasolo.org

Blogs são um espaço bastante útil para catalisar interesses em prol de uma comunidade ou de uma categoria profissional. Que o diga Mauro Amaral, do blog CarreiraSolo .

Ele mesmo conta as origens do blog: “O blog é um projeto meu que completa quatro anos em breve. Hoje, podemos dizer que sua função é solucionar as dúvidas dos Profissionais Freelancers, integrar esta comunidade, oferecer conteúdo relevante para sua formação e, claro, ferramentas para o dia-a-dia”, diz.

Com as novas tecnologias, o tele-trabalho é uma opção interessante para profissionais e empresas. E mais: empreendedores estão a cada dia largando empregos oficiais e tansformando-se em empresas. Para Mauro, “é neste ponto que o blog surge para solucionar dúvidas que vão desde o momento de abrir a empresa, até como se relacionar numa reunião, colher um briefing, montar uma proposta comercial etc.E não só sobre as áreas afins com o mercado web. Tenho muitos leitores que são advogados, professores, músicos, fotógrafos. É um site plural e aberto a todos!”, afirma.

Mauro Amaral acredita que o Brasil é um país naturalmente talhado para desenvolver uma blogosfera de boa qualidade. “Como todas as tendências que envolvem comunicação e criatividade em nosso país, a blogosfera nacional é plural. Temos grandes nomes do jornalismo migrando para o formato, temos celebridades instantâneas reveladas através do blogs, temos personalidades de nicho que funcionam como neo-gurus para este ou aquele segmento profissional e temos, claro, uma imensa maioria de autores e coladores de conteúdo que flutuam numa cauda longa sem grandes significados, significantes ou mensagem a passar”, comenta.

Apesar do cenário promissor, Mauro ressalta dois pontos que, em sua opinião, atravancam um pouco a blogosfera brasileira: ” O primeiro deles tem a ver com a crescente corrente de blogueiros ditos profissionais (ou especializados) que começam a se reunir e formar redes de publicação. São raros os casos em que estes autores, notadamente gente com muito a contribuir em sua atividade, esquecem de uma figura fundamental em Sindicatos e Redes de produção de conteúdo: o profissional de mídia, o vendedor! Na mão de um profissional destes, estas redes podem alavancar excelentes oportunidades para anunciantes”, observa.

O outro ponto, para Mauro, é a ainda incipiente compreensão da mídia tradicional a respeito sobre como se fazer um blog. “Para mim, a mídia tradicional faz apenas um empréstimo estético do que é considerado blog e coloca a pessoa menos indicada, no momento não ideal…apenas com a ferramenta certa na mão”. Mauro acredita que isto não é bastante: “Ser blogueiro é estar pronto para produzir conteúdo útil para sua comunidade. É ter na mão o conhecimento acumulado de algum tempo e saber compartilhá-lo e torná-lo, sob certo aspecto, parte integrante do seu trato social com aquela comunidade. É tratar da comunidade como seu grande conteúdo. No caso do empréstimo temos o retorno do diário emburrecedor, que em nada agrega ao leitor”, critica.

Com relação ao uso de blogs por empresas, Mauro comenta: “Empresas encasteladas, ou seja, que acreditam que trancar o que sabem ou vivem em seu dia a dia vai valorizar estas informações, não sabem. E talvez não queiram aprender. Empresas que valorizam a transparência e circulação de dados, informação e conhecimento, sim. Os blogs têm aparecido no mundo empresarial seja no formato Intranet ou como extensão de campanhas de marketing. O que não é nada mal.”

Mauro acredita que que as empresas brasileiras darão um enorme passo quando descobrirem não apenas os blogs, mas também os blogueiros, enquanto motores de novas ações de comunicação: “Sob certo aspecto, cada blog e autor bem sucedido é uma agência de Marketing, Propaganda e Relações Públicas em potencial. Quando chegarem na fonte, ou seja, quando entenderem o fazer dos autores de blogs que já influenciam os consumidores de suas marcas, terão entendido o que é a Blogosfera”.

As expectativas de Mauro para 2008 não poderiam ser outras, mas ele faz um alerta com relação às mídias tradicionais: “Omomento da blogosfera é ótimo. Os blogueiros que chegam estão cada vez mais treinados e, melhor, dispostos a recriar formatos. O que falta é que TVs, editoras e clientes diretos abram os olhos para este novo formato. Vamos grifar: novo formato. E não novo jornalismo, ou nova literatura ou nova propaganda”, encerra.

“O momento é de consolidação” – Alexandre Fugita, do Techbits

Falar de internet é falar necessariamente de tecnologia, e o blog Techbits (www.techbits.com.br) é um dos blogs mais conhecidos do mercado brasileiro sobre o assunto.

Alexandre Fugita, editor do blog, explica sua origem: “O Techbits surgiu da minha necessidade de discutir assuntos de tecnologia e debater idéias ou assuntos importantes. O foco principal é o mercado de internet e como essa meio está mudando a sociedade. Tento discutir assuntos globais e também temas brasileiros. Na verdade acredito que a maioria dos assuntos, mesmo que não exatamente relacionados ao mercado brasileiro, são importantes para pessoas daqui ficarem sabendo e formarem uma opinião sobre o assunto. O mercado brasileiro de internet tem crescido bastante com o surgimento de muitas startups. O ano de 2007 foi muito fértil neste campo. O Techbits sempre acompanhará as tendências do que acontece em terras tupiniquins e pretende se tornar referência neste nicho”, comenta.

Para Fugita, a blogosfera brasileira ainda está em um estágio anterior ao que se vê no exterior. “Aqui existe um potencial enorme de crescimento, tanto em audiência como em receita, que começou a acontecer em 2007 e provavelmente continuará forte em 2008. Os blogs que se consolidaram terão uma grande chance de se profissionalizarem verdadeiramente no ano que vem”, analisa.

Para Fugita, as motivações dos blogueiros também estão mudando: “Por enquanto há poucos blogueiros que se dedicam exclusivamente à atividade nos blogs. A maioria tem na ferramenta uma vitrine para conseguir contatos profissionais e alavancar outros negócios. Mas vejo isso mudando para blogs serem encaradas como negócio. O cenário é bastante favorável para quem souber se diferenciar da multidão. Essa é a chave para o crescimento e chamar a atenção”, diz.

O blogueiro acredita que a cultura de blogs no Brasil ainda precisa ser consolidada, mas acha que está no caminho certo: “Os blogs na verdade são filtros de nicho. Quando você escolhe ser leitor de determinado blog sabe que encontrará lá informações filtradas de centenas de fontes sobre exatamente aquilo que importa para você ler. Nos EUA muita gente já tomou consciência deste fato e colocam os blogs como fonte primordial de informação. Aqui no Brasil esse movimento ainda é tímido. Eu sou uma das pessoas que usa blogs como fonte primordial de informação, mas são poucos. O que falta no Brasil é a cultura de saber buscar a informação e não ficar esperando que ela chegue mastigada sentado em frente à TV na sala. Mais importante ainda é saber usar essa informação. Blogs têm crescido em relevância e estão conquistando um público cada vez maior. As pessoas estão descobrindo que a informação dos blogs é interessante”, afirma.

Com relação ao uso do blog como canal de comunicação corporativa, Fugita diz: “Algumas empresas possuem blogs corporativos muito bons. Um exemplo é a Tecnisa, que sabe usar muito bem essa forma de comunicação. Mas a maioria ainda encara a ferramenta blog como o lugar para soltar press-releases. Isso não funciona e não cativa uma audiência. O ideal é o blog funcionar como uma forma de interação entre a empresa e seus clientes, uma forma de passar ao público coisas e novidades sem aquele tom descarado de marketing de promoção. A maioria das empresas ainda não sabem usar os blogs como ferramenta de comunicação, mas o cenário está mudando positivamente”.

Ele continua: “O ano de 2007 foi um ano de virada para os blogs. Muitos se profissionalizaram, as empresas começaram a nos enxergar como formadores de opinião e o mercado cresceu bastante com a formação de algumas redes de blogs como o Interney. O momento é de consolidação do conteúdo gerado pelo usuário. A tendência já tinha sido identificada pela revista Time que no ano passado elegeu você como a personalidade do ano. A questão é saber quem, dentro de toda essa multidão, tem qualidade e relevância para se sobressair”.

“Colaboração e transparência” – Fábio Seixas, do Camiseteria.

A evolução natural de um blog, talvez, pode ser criar um negócio Web 2.0. Fábio Seixas, da Camiseteria (www.camiseteria.com) pode-se gabar de deter o exemplo mais conhecido de uma iniciativa Web 2.0 no mercado brasileiro.

O site que vende camisetas com estampas criadas pelos usuários é um sucesso, e Seixas sabe exatamente quais são os fatores que o levaram a este resultado: “Primeiro, o pioneirismo. Fomos a primeira empresa brasileira a apostar fielmente e depender da colaboração dos usuários para a criação de produtos. Segundo, a transparência. Quando falamos de internet, é comum encontrarmos sites e empresas que não sabemos quem está por trás ou como as coisas funcionam. No Camiseteria é diferente. Apostamos que transparência é fundamental. Todo o staff é totalmente acessível e somos transparentes nas decisões que tomamos. O blog do Camiseteria ajuda muito nesse sentido. Terceiro, foi capricho. Tudo que fazemos, fazemos com muito capricho. Seja o site, o produto ou o atendimento ao cliente. E isso as pessoas gostam de passar adiante”, diz.

Os blogs são elemento fundamental na participação colaborativa, e, para Seixas, não é preciso estimular os usuários a participarem destas plataformas de negócio: “Acredito que não precisamos estimular as pessoas a explorarem estes espaços. O que precisamos é criar os meios. Criar ferramentas que permitam as pessoas exporem o que pensam e o que fazem, a se conhecerem e desenvolver o lado social da web. Todos os negócios baseados na web deveriam ser também sociais, alavancarem a criação de conexões sociais online entre pessoas. Uma vez criado esse ambiente participativo, as oportunidades de negócio surgem naturalmente”, declara.

Seixas compartilha do otimismo para 2008: “Sempre há espaço para negócios bem sucedidos. Podemos encontrar facilmente hoje nichos de negócios já saturados onde é difícil encontrar caminhos para o sucesso. Mesmo nesses casos, é possível ser bem sucedido usando diferenciação. Para 2008 acho que vamos continuar vendo negócios colaborativos surgirem. Mas acho que a tendência maior será a criação de negócios baseados na agregação de conteúdo. As ferramentas para permitir que as pessoas criem conteúdo já existem. O que precisamos agora é de melhores ferramentas de agregação de conteúdo onde poderemos encontrar os melhores conteúdos organizados”, encerra.