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Prato do dia: Cloud Computing e os CIOs

Na semana passada, tive um excelente jantar
com alguns CIOs, onde o prato principal do cardápio foi Cloud Computing.
Ficou claro que ainda existe muita curiosidade sobre o potencial e os
riscos de Cloud. E alguns executivos ainda estão meio céticos se
Cloud realmente será a “next big thing”. Assim, esse jantar regado a
Cloud pode ser um pequeno termômetro de como os CIOs estão encarando o
assunto e que gostaria de compartilhar com vocês.

Um deles me disse que reconhece que muitos profissionais perderam o
bonde do cliente-servidor e também foram supreendidos pela velocidade
com que a Web se disseminou. Muitos já usam em casa o modelo em nuvens
em ferramentas, como o Gmail e o Flickr, e nas empresas algumas poucas aplicações SaaS
isoladas. Estão realmente interessados em saber como a computação em
nuvem poderia se disseminar mais profundamente nas suas empresas.

A maioria deles já leu sobre casos de sucesso lá fora e percebem
que, sim, Cloud Computing será uma mudança de paradigmas, afetando de
forma significativa as relações entre produtores e consumidores de
produtos e serviços de TI. Também identificam que entrarão em um novo
patamar de custos e de facilidade no uso da TI. Mas, confessaram, que
ainda não deram um passo nessa direção.

Uma reclamação é que ainda existe muita desinformação e a própria
terminologia não está bem definida
– e às vezes é até conflitante -,
dependendo do provedor. Um exemplo é o modelo de IaaS
(Infrastructure-as-a-service). IaaS pode ser entregue pela própria
área de TI da empresa (insourced) ou por um provedor de nuvens externo
(outsourced). A infraestrutura física por trás pode estar hospedada no
data center da própria empresa ou no data center do provedor. E essa
infraestrutura pode ser de uso privado (private cloud), compartilhada
entre um grupo ou consórcio de empresas (community cloud) ou
compartilhada com os demais clientes do provedor externo (public cloud).

Uma conclusão a que chegamos é que o setor de TI está caminhando para
o que podemos chamar de industrialização
, onde os parâmetros principais
são padronização, automação, self-service e escala massiva. O modelo de
computação em nuvem é a clara implementação dessa tendência.

Mas conversa vai, conversa vem, e chegamos a outras conclusões.
Primeiro, que a adoção da computação em nuvem não acontecerá de um dia para
o outro.

Identificamos também diversas oportunidades de criar valor com
Cloud Computing.
Uma delas será a redução de custos quando o modelo de
TI (leia-se cloud) chegar ao nível de ser uma utility, como energia
elétrica. Os primeiros passos nessa direção podem ser, por exemplo, a
transferência de algumas aplicações como e-mail, para o ambiente de
nuvens públicas.

Uma outra oportunidade de criação de valor é a mudança que o
ambiente de nuvens pode provocar em processos de negócios. Um exemplo
citado foi o próprio ambiente de desenvolvimento e testes de sistemas,
que demanda demoras e burocracias para uma aplicação ter disponível a
infraestrutura necessária para ser adequadamente testada.

De maneira
geral, um grande empresa mantém uma parcela significativa de seu parque
computacional dedicado ao ambiente de testes, mas subutilizado. Alguns
estudos mostram que de 30% a 40% do seu parque computacional está
dedicado ao ambiente de testes, mas com um nível de utilização de
apenas 10% a 20%. Imaginem os ganhos potenciais para uma empresa quando
os desenvolvedores, através de um portal self-service, requisitarem e
puderem ter os recursos computacionais necessários, em minutos e não em
semanas? Claramente poderão ser explorados novos negócios, pois os
sistemas que os sustentarão poderão entrar em operação mais rápido.
Outra sugestão foi colocar as aplicações “customer facing” em nuvens, inclusive interagindo mais intensamente com redes sociais, como o Facebook.

Alguns CIOs comentaram que executivos de negócio de suas empresas
já começam a abordar o assunto com eles e que, portanto, não poderão mais
ficar parados. Mas ficou claro que a adoção do modelo de computação
em nuvem é uma decisão estratégica e não simplesmente técnica
. O
próprio papel da TI poderá ser – e provavelmente será – redefinido. Muitas
das atividades hoje desempenhadas pela área de TI serão comoditizadas e
terceirizadas para nuvens públicas.

A discussão esquentou quando se comentou a questão da segurança e
se as nuvens públicas atuais poderão sustentar os critérios e políticas
de segurança adotadas pelas empresas.
Chegou-se a um consenso que as
nuvens públicas poderão ser usadas por empresas pequenas que não têm
políticas de segurança adequadas, mas as empresas de maior porte
provavelmente começarão a sua caminhada usando nuvens privadas.

Para
confirmar esse ponto, alguns estudos feitos no exterior apontam que
dentro de 3 a 5 anos cerca de 25% a 50% do workload das grandes
empresas estarão em nuvens privadas e apenas um pequeno percentual do
workload dessas empresas deverá estar em nuvens públicas. As nuvens
privadas permitem que as empresas adotem o modelo e usufruam de alguns
de seus benefícios, mas ainda mantendo o controle dentro de casa. Já
para empresas pequenas estima-se que, no futuro, de 80% a 100% das suas
aplicações poderão rodar em nuvens públicas.

Outro aspecto levantado foi a questão da integração entre
aplicações que estejam rodando em uma nuvem pública e as que ficarem
on-premise
. Muitas aplicações não poderão ir para uma nuvem publica,
seja por questões técnicas ou por imposição da legislação. Mas terão
que interagir com as que forem para as nuvens. É um desafio e tanto,
principalmente porque não existem ainda padrões de ineroperabilidade
entre as nuvens. Nesse ponto, lembrei-os da aquisição estratégica da
Cast Iron pela IBM, exatamente para atuar nessa integração. Vejam em http://www.castiron.com/ibm .

 No final da conversa, chegou-se a alguns consensos, como:

  1. Cloud Computing é um “work in progress” e muitas das
    atuais restrições atuais serão minimizadas ou eliminadas nos próximos 3
    a 5 anos. Novas tecnologias surgirão e mesmo as atuais ofertas se
    tornarão mais maduras e eficientes nos próximos anos.
  2. A falta de padrões de interoperabilidade e os riscos de
    “vendor lock-in” atuais serão minimizados
    nos próximos anos. Sugiro
    acompanharem o Grupo de Trabalho de cloud do DMTF (Distributed
    Management Task Force) em http://www.dmtf.org/standards/cloud .
  3. A criação de novos negócios e novas aplicações serão
    incentivadas quando TI for uma utility
    . Entre os exemplos citados,
    surgiu a possibilidade de se usar mais intensamente recursos de
    Business Analytics, uma vez que demandam variação muito grande de recursos
    computacionais e que nem sempre é possível manter essa infraestrutura
    em casa. Além disso, novos modelos de negócio, inviáveis quando o capex
    de TI é impeditivo, podem ser criados quando TI passar a ser utility e
    não se pensar mais em capex, mas sim em opex. Lembrando, capex é capital
    expenditure (
    http://en.wikipedia.org/wiki/Capex ) e opex é operating expense (http://en.wikipedia.org/wiki/Operating_expense).
  4. Cloud Computing é estratégico e deve ser contemplado no plano
    estratégico de TI das empresas
    . O road map para sua adoção deve ser
    responsabilidade do CIO e do CTO, e não das áreas técnicas.
  5. Cloud Computing não deve ser visto apenas uma terceirização
    mais ampla, e sim como um modelo computacional que pode impactar
    significativamente os negócios da empresa
    . Dois aspectos fundamentais
    diferenciam cloud do tradicional “hosted computing” , que são o acesso
    via self-service e a elasticidade.
  6. Cloud Computing vai redefinir a área de TI.
  7. Cloud Computing não acontecerá de um dia para o outro. Mas
    deve-se começar já a planejar o road map e fazer os primeiros testes.
  8. Cloud Computing nos EUA e na Europa, e no Brasil, deverá ter
    velocidades de adoção diferentes
    , porque os mercados são diferentes. Um
    exemplo é a banda larga, que é muito mais cara e lenta aqui que nos EUA
    e na Europa.

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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