
Esqueça a conversa de marqueteiros sobre virais e guerrilhas. Ignore os relatos de gente esquisita, os programas de TV pirateados, as cenas de festas em família e animais de estimação, as videocassetadas. Deixe de lado os egocêntricos e seus karaokês tendo uma câmara por espelho e as referências herméticas de viciados em videogames. Filtre com desapego todo o preconceito que você, como eu, pode ter desenvolvido com relação ao lixo que o YouTube mostra e tente entender que tipo de gente acha aquilo importante. Existem mais oportunidades por ali que se pode imaginar.
Antes de pensar nelas, vale considerar a revolução que acontece no mundo da TV como a conhecemos. Em uma espécie de transe tecnológico, todos parecem ter virado técnicos em eletrônica e vêm discutindo furiosamente qual será o melhor formato de transmissão de alta definição (Japonês? Europeu? Americano?); em que aparelho ele será projetado (plasma? LCD?); e qual será o substituto do DVD (HD-DVD? Blu-Ray?). Enquanto isso, o consumidor, perdido, talvez ainda não tenha tido tempo para se questionar se o problema com a sua telinha seja realmente a qualidade da imagem.
Adolescentes, sempre eles, já perceberam que, sem programação relevante, a imagem é só um detalhe. É só pensar que um Faustão, um Big Brother ou um Silvio Santos não ficarão mais interessantes em alta definição – ou mesmo que em certas imagens, como as de guerras, chacinas ou acidentes, a qualidade não é exatamente uma melhoria desejável. Enquanto seus pais imaginam qual o melhor lugar para colocar o telão, ou mesmo o que fazer com o armário embutido desenhado para alojar uma caixa preta com um tubo que não existe mais, eles pedem mais banda e conexão. Enquanto “assistem” o YouTube, escrevem em blogs, jogam, trocam mensagens via Twitter e MSN e lêem muito, um pouco de tudo.
Algumas empresas – poucas, ainda – perceberam que o público jovem que acessa a internet é altamente qualificado, conectado, multitarefa, informado e curioso. Apesar de não se enquadrarem bem nos modelos de um “Aprendiz”, no mundo corporativo que inovação, tendências, criatividade, capacidade de lidar com grandes volumes de dados e velocidade na tomada de decisões estratégicas são valores inquestionáveis, eles têm grande potencial.
A empresa de advocacia Choate Hall & Stewart LLP, de Boston, percebeu que ali poderia estar um diferencial para recrutar talentos. Apesar de sua área de atuação, tamanho (mais de 200 advogados) e mais de um século de história, ela não hesitou em descer do pedestal e mostrar, em uma linguagem que faz referência aos comerciais da Apple, que pensa de forma diferente – mais do que isso, que está aberta a jovens que se identifiquem com sua visão. Ela é só um exemplo. Já há quem use o YouTube para cursos, palestras, guias e material de referência. Ainda são muito poucos, mas nessa terra de cego, as oportunidades demandam pouco esforço e investimento.
A empresa moderna precisa estar atenta às novidades que aparecem no mundo digital. Mais importante do que façam ou pensem seus usuários, é a forma como eles pensam que pode fazer toda a diferença na criação de uma estratégia. É disso que essa coluna vai tratar daqui por diante.







