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Internet bloqueada no trabalho: mal necessário?

No final de janeiro dei uma entrevista ao jornal Estado de Minas sobre o bloqueio de sites de relacionamentos no ambiente de trabalho.Cadeado

Fiquei impressionado com a repercussão e com a mentalidade predominante no ambiente corporativo, que acha natural esse tipo bloqueio, afinal “os funcionários vão deixar de trabalhar para ficar fuçando no Orkut”.  Essa é uma questão polêmica e eu a vejo de uma outra forma.

É claro que o uso de redes sociais pode auxiliar o trabalho de inúmeras maneiras, desde a busca por tendências e sobre o que estão falando da empresa, até a divulgação de produtos, recrutamento e busca de contatos, entre outros. Esse é o argumento mais usado pelos defensores da internet livre no ambiente corporativo. Mas esta questão tem uma outra face, quase nunca tratada nestas discussões.

Convenhamos: com a internet aberta, é claro que abre-se espaço para o uso “não profissional” de ferramentas  cheias de bobagens, como as Fazendas Felizes da vida, vídeos engraçados no YouTube  e por aí vai.  E é aí que eu pergunto: QUAL O PROBLEMA?

Que diferença faz brincar com a fazendinha no Facebook ou jogar palavras cruzadas, ler a revista Caras ou o clássico e offline Paciência? Será que a procastinação e falta compromisso com o trabalho é mesmo um problema com a Internet?

É claro que eu reconheço que a internet amplia as possibilidades de ocupações inúteis para quem quer fazer corpo mole, mas por trás do bloqueio está uma questão muito mais profunda, que revela valores e preconceitos corporativos bastante questionávies, tão arraigados em nossa sociedade que quase não nos damos conta.

Ao bloquear a internet, a empresa parte do pressuposto que todos os seus funcionários são “contraventores” em potencial. A empresa “sabe que seus funcionários enxergam o trabalho como um fardo, que só estão ali porque são obrigados e que na primeira chance de tirar proveito para esticar a folga ou diminuir seu esforço, farão”.

Bloquear a internet no trabalho é como colocar um segurança na porta da empresa, revistando todos os funcionários antes de sair, para checar se estão levando o que não deviam. “Talvez seja bom colar os grampeadores na mesa, amarrar as canetas e contabilizar as folhas que estão indo para a impressora”, pensa o gestor.

Penso que estas atitudes são heranças de uma mentalidade escravagista, tanto do senhor que fica com o chico a postos para evitar a fugas, quanto dos escravos, que de fato estão sempre em busca de uma oportunidade de amenizar o fardo de seu sofrimento e exploração, sempre atentos a cada chance de escapar.

Empresas com essa visão estão dizendo deliberadamente a seus funcionários que não acreditam neles. Se a sua empresa bloqueia a sua internet, ela acha que você é irresponsável e incapaz. Tem certeza que é nela que você quer trabalhar?

O mais incrível é que as mesmas empresas que bloqueiam adotam um discurso de RH aberto, que deve respeitar, motivar e desenvolver as pessoas.

Qual o problema se eu gosto de ler notícias e preciso acessar meu e-mail pessoal na hora do almoço ou na pausa do cafezinho? É claro que se eu ficar o dia inteiro no Twitter, não vou cumprir as minhas tarefas e meu chefe não ficará feliz. A menos que você seja um funcionário público, sabe que negligenciar o trabalho trará consequências. E olha que mesmo nesse campo o Governo de Minas deu excelente exemplo ao liberar o uso de ferramentas sociais a todos os servidores estaduais.

As empresas precisam modificar a política de bloqueio por mais educação e motivação, promovendo o uso consciente da Internet. Ao invés de bloquear, monitorar. Ao invés de tratar o abuso da rede como regra, considerá-lo como uma exceção (que quando ocorrer, deverá ser coibida e punida, se for o caso).

Tratar os colaboradores com respeito e confiança, estimulando sua autonomia e motivando-os é o que empresas alinhadas com a Era do Conhecimento devem fazer. E funcionários respeitados, motivados e em um ambiente saudável, respondem com produtividade e maior qualidade dos resultados do trabalho.

E você? O que acha dessa questão? Deixe sua opinião nos comentários para aprofundarmos a discussão.

é sócio e diretor do Instituto Inovação, empresa especializada em gestão da inovação tecnológica.

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