O Publishers Lunch noticiou, na semana passada, que seis das maiores editoras dos EUA, entre elas McGraw-Hill, Wiley e HapperCollins, se reuniriam em Nova York com executivos da Apple para, possivelmente, redefinirem o paradigma da distribuição dos e-books. A reunião foi motivada pelo anúncio que a Apple prepara para esta semana: o seu novo computador tablet, integrando dispositivo leitor de e-books a outras mídias, que muitos acreditam esteja prestes a revolucionar o mercado editorial.
Antes mesmo do anúncio, a Apple já parece incomodar a hegemonia da Amazon, líder absoluta do mercado de livros eletrônicos. Semana passada, a Amazon anunciou uma mudança no pagamento de royalties para livros eletrônicos vendidos em sua Kindle Store, incluídos através da plataforma de autopublicação DTP (Digital Text Plataform), e que tenham preços entre US$ 2,99 e US$ 9,99. Antes, por cada livro vendido, a Amazon pagava 35% do preço de capa pelos direitos autorais. O valor agora dobra para 70%, por enquanto para autores e editoras em território americano, mas não devemos esperar muito para que a regra passe a valer também para autores e editoras internacionais.
Kindle Development Kit
Outra novidade anunciada pela Amazon na semana passada – certamente advinda da expectativa de uma entrada forte da Apple no mercado de e-books – foi a decisão de abrir a plataforma Kindle para desenvolvedores. O Kindle Development Kit (KDK) estará disponível em fevereiro – em beta limitado. Espera-se que o Kindle possa incorporar, em breve, conteúdo dinâmico. Os programadores terão acesso a interfaces de programação, ferramentas e documentação para construirem conteúdo ativo para o Kindle.
O que deve revolucionar o mercado de e-books com a entrada da Apple não é necessariamente o produto, mas o modelo de negócios entre a empresa e as editoras. No novo modelo existe uma transferência da importância dada à venda por atacado – que imita a venda de livros de papel – para um modelo de agenciamento, ou seja, o editor vende diretamente ao consumidor e qualquer agente que concretize a venda recebe comissão.
Assim, com a mudança – se funcionar, claro -, os grandes editores ganharão um controle sobre o preço dos e-books maior do que jamais tiveram sobre o dos livros impressos, e começam a reescrever as divisões do valor pago pelo consumidor na cadeia de abastecimento. Outra vantagem – considerada por muitos a mais “diabólica” de todas – é que os grandes editores ganham uma vantagem permanente sobre os pequenos, nas margens de preço dos e-books. É certo que a Amazon já usava sua forte influência na redução do lucro das pequenas editoras em seus Kindle Books, mas a prática, ao que parece, está prestes a ser institucionalizada.
Livro como web service
Estaria, então, decretada a inapelável erradicação dos pequenos e médios escritores? Claro que não, existe uma possível solução. Se notarmos bem, mesmo com todas as recentes propostas da Amazon e da Apple, ainda estamos falando do livro eletrônico como um simulacro do livro impresso, sem que se mexa radicalmente em sua estrutura de dados e serviços: ainda se trata de um produto empacotado, não atualizável, uma cópia digitalizada ipsis litteris de seu similar impresso. Com a abertura das APIs da Apple e Amazon, isso tende a mudar, claro, se não pelas mãos dos editores tradicionais, certamente, pelas mãos dos autores, principalmente os independentes (ou “indie authors”) e pequenos editores.
É justamente essa a visão que proponho no artigo que escrevi para a Jawbone.tv, revista eletrônica canadense, especializada em narrativas transmidiáticas, sobre a minha experiência de publicar o primeiro romance brasileiro em redes sociais, o “Santos Dumont número 8”. É importante enfatizar a vocação do livro eletrônico como serviço, coexistindo com a ideia já sedimentada de produto.
Muitos entenderão que essa visão não é muito diferente da que temos em relação ao software. Livros – e jornais – em seu formato eletrônico – como explico em outro artigo aqui no iMasters – transformam-se em software, e a intermediação dos aplicativos tende a melhorar nossa experiência de leitura de uma forma que muitos dos editores talvez ainda não tenham enxergado.
Assim, se os editores precisam de um modelo para se adaptarem melhor e mais rápido às oportunidades do e-Publishing, ele não deverá ser encontrado no mercado fonográfico – que, há pelo menos uma década, tenta se reinventar depois do impacto sofrido com a internet e a profusão de aplicações P2P. As respostas dos editores, penso, deverão ser encontradas na análise das intensas mudanças pelas quais passou a indústria de software nos últimos anos. É lá, na incrível capacidade – e velocidade – de reformulação e readaptação do mercado de software, que esse modelo deverá ser procurado.







