Tech & Inovação

20 set, 2011

Pensando na era pós-pc

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Em agosto de 1981, a IBM anunciava o IBM PC 5150, uma máquina com 64K e um processador Intel 8088 de 8 bits que custava por volta de 3 mil dólares. Deem uma olhada em http://oldcomputers.net/ibm5150.html. A revolução do PC começava aí.

Hoje, 30 anos depois, estamos em tempos de smartphones e tablets. E debate-se: já estamos vivenciando o início da era pós-PC? E, se sim, quais suas implicações? O termo pós-PC começou a ser badalado em uma entrevista de Steve Jobs da Apple, quando do anuncio do iPad 2, e não é uma buzzword, mas é real, e suas consequencias irão revolucionar o uso dos equipamentos pessoais.

Na verdade, o conceito “pós-PC” surgiu quando um cientista do MIT, David Clark, apresentou uma palestra chamada “The Post PC Internet”. Mais sobre David Clark em http://www.csail.mit.edu/user/1526. O que ele dizia é que outros objetos, além de PCs, estariam conectados à internet. Na verdade, esse é o conceito mais adequado para o termo. Pós-PC não significa necessariamente o fim dos PCs. Eles continuarão conosco ainda por muito tempo, mas deixarão de ser o equipamento principal, e estarão sendo usados ao lado de tablets e smartphones.

Para muitos, o tablet será o equipamento principal, embora, provavelmente, para alguns o laptop continuará sendo essencial, pelo menos nos próximos anos. Os próprios laptops estão evoluindo na direção de serem parecidos com os tablets como os ultraportáteis MacBook Air e Samsung Series 9. Mas o conceito PC-centric desaparece no modelo pós-PC.

O que vai mudar na maneira de usarmos a computação pessoal? Com o PC original (em forma de desktop), nós tínhamos que nos deslocar a um local para acessar o computador. Com o laptop, nós começamos a nos tornar móveis, pois o PC (laptop) ia conosco. Agora com os tablets e smartphones, essa mobilidade se acentua muito mais e inserimos nela a computação context-aware, na qual acelerometros, giroscópios e geolocalizadores podem disponibilizar aplicações inovadoras.

Além disso, a formalidade típica do PC: iniciar a máquina, usá-la durante algum tempo e desligá-la ao fim do trabalho deixa de existir. Os tablets e smartphones são usados a qualquer momento e de forma muito mais casual. Posso usar meu tablet enquanto espero em pé na fila de embarque para meu voo. Já não consigo fazer isso com o laptop… E o desktop fica, fixo, no escritório lá em casa!

Aqui é importante lembrar uma tecnologia que possibilita o “instant-on” típico dos smartphones e tablets: flash memory. Já o PC é baseado em armazenamento de dados em seus discos rígidos, e o tempo de boot é demorado. Os tablets e os smartphones baseiam-se no modelo de cloud computing, armazenando seus dados em nuvens, e o uso de flash memory permite que a inicialização seja instantânea.

Outra mudança é que deixamos de usar teclado e mouse e passamos a ter um contato mais direto com a máquina, através do nossos dedos manuseando fisicamente telas touch-screen. Acredito que as interações serão cada vez mais sensoriais, com uso mais intenso de reconhecimento facial, sensores de voz e mesmo sensores de movimento, como os que já vemos no Kinect. Claro que, para aqueles que precisam ou necessitam usar teclados, já existem alternativas nos tablets: capas que embutem teclados.

A cada dia, nossa vida torna-se mais e mais informatizada. Dificilmente encontramos alguma atividade que não inclua alguma computação. E as barreiras que separam nossa vida pessoal da profissional estão sendo derrubadas. Com um tablet ou um smartphone, podemos estar em contato permanente e a todo instante com nosso círculo de amizades ou profissional, seja via e-mail ou mídias sociais.  O que não era possível com os desktops e meio incômodo com os laptops.

O que podemos concluir? O fenômeno que chamamos de pós-PC é causa e também consequencia das mudanças tecnológicas e sociais que estão  mudando a maneira de como interagimos com os computadores. Cada vez mais, a computação torna-se ubíqua e casual. Torna-se parte integrante de nossa vida social e profissional. A era pós-PC significa na prática sair do contexto em que o computador era visto como equipamento, para um cenário no quala  computação passa a ser uma simples e corriqueira atividade social.

Além das implicações no nosso comportamento social e nas organizações, a era pós-PC também vai afetar a indústria de TI. Empresas construídas em torno de produtos terão um enorme desafio pela frente. O Windows, que reina absoluto no mundo PC, não tem papel relevante no cenário dos tablets e smartphones. O crescimento da base instalada de tablets e smartphones, não só no uso pessoal, mas também como ferramenta corporativa, canibaliza as vendas dos desktops e laptops, e com isso diminui as vendas do Windows.

Além disso, o modelo de vendas de software para tablets e smartphones também está provocando uma mudança significativa no modelo de distribuição e definição de preços para o software. O modelo de vendas de aplicativos criado pela Apple, o AppStore, posteriormente copiado pelo Google (Android Store) e pelos demais (a própria Microsoft vai ter que criar o seu mercado para o Windows 8) permitiu o acesso rápido aos usuários de tablets e smartphones a programas que são grátis ou custam, nos EUA, menos de cinco dólares. Esse modelo enfraquece o modelo tradicional de vendas de software para PCs, apoiado em lojas que vendiam programas que custam 40, 50 ou mesmo 100 ou mais dólares.

Enfim, na minha opinião pessoal, já é muito tarde para ressuscitar o modelo PC-centric criado em torno do Windows, que, embora ainda vivo, tende a morrer lentamente, pois o crescente uso dos tablets e smartphones para nossas atividades pessoais e profissionais é irreversível. O mercado simplesmente mudou.