O futuro da Rede
O impensado aconteceu. O australiano Paul Twomey,
diretor do Icann, foi escoltado para fora de uma das reuniões
de preparação da Cúpula Mundial da Sociedade
da Informação, que aconteceu em Genebra, na semana
passada. A retirada da maior personalidade do ”governo” da internet
marcou a insatisfação dos países em desenvolvimento,
inclusive o Brasil, com a estrutura atual de comando da Rede,
discutida com destaque durante o evento.
– No Icann, qualquer um pode participar das reuniões,
questionar decisões e falar com ouvidores. Estou do lado
de fora de uma reunião da ONU em que diplomatas que sabem
pouco ou nada de tecnologia discutem como 750 milhões de
pessoas devem acessar a internet. Não estou satisfeito
– afirmou Twomey, no corredor, ao site TechNewsWorld.
Com 176 países representados no evento,
a Cúpula foi considerada a maior reunião até
agora para discutir o acesso às ferramentas da sociedade
da informação, como computadores e a internet. Os
temas debatidos incluíram o acesso à informática,
combatendo a chamada exclusão digital, estratégias
para enfrentar o spam e a pornogafia online e discutir quem deve
regulamentar e controlar a internet.
O Icann, Internet Corporation for Assigned Names
and Numbers, tem exercido parte desse encargo. Ele foi criado
em novembro de 1998, como resposta a um documento do Departamento
de Comércio dos EUA, emitido cinco meses antes e que solicitava
a transição de uma estrutura de controle estatal
do DNS para a livre concorrência.
O DNS, Domain name server, converte a sequência
de números que compõe cada endereço na internet
em palavras. Assim, quando o usuário digita www.amazon.com,
o sistema converte o endereço para 207.171.178.132 , descobrindo
o alvo da requisição. Desde 1999, o Icann controla
a distribuição dos endereços entre os países
e designa as empresas que podem comercializá-los.
Por ter sido criada nos Estados Unidos, a internet
carrega disparidades em relação ao DNS, perpetuadas
pelo Icann. A China, por exemplo, país mais populoso do
mundo e com crescimento vertiginoso no acesso à Rede, tem
menos endereços de internet do que o centro de pesquisa
americano MIT, Massachusetts Institute of Technology. Segundo
alguns estudos, os chineses representarão mais da metade
dos internautas em 2007.
A diversidade de culturas e idiomas é outro
problema. Usar a cedilha, acentos ou outros alfabetos diferentes
do latino nos endereços da internet é impossível,
mas desejado por muitas nações. A falta de avanço
nessa questão recai inevitavelmente sobre a natureza do
Icann – uma empresa privada americana.
– A organização deve se internacionalizar,
tornando-se mais autônoma e menos vulnerável a pressões
dos EUA ou do governo da Califórnia, onde o Icann está
instalado – diz Carlos Affonso, fundador, em 1989, do Alternex,
primeiro provedor brasileiro e considerado o ”pai da internet
brasileira”. Ele integrou a delegação brasileira
que participou da Cúpula e também é membro
de um grupo de trabalho no Icann.
– Com a migração para a esfera global,
a organização garantiria a participação
de outros setores – afirma.






