O disfarce do pingüim
”Em vez de se juntar ao inimigo, o melhor é
imitá-lo”. Uma pequena mudança no provérbio
marcou o lançamento, há 15 dias, do Freedows, uma
distribuição brasileira do Linux com interface semelhante
à do Windows XP e possibilidade de instalação
de programas compatíveis com o sistema operacional da Microsoft.
– Para ser diferente, é preciso antes ser
igual – justifica Sandro Nunes Henrique, um dos fundadores da
Conectiva, empresa pioneira do Linux no Brasil, e diretor da Free
Software Ltda, que junto com a Cobra Tecnologia desenvolveu o
Freedows.
Um olhar mais cuidadoso no site e na caixa do produto
mostra que a palavra Linux e a expressão ”software livre”
são omitidas, embora o Freedows seja uma versão
modificada do Fedora, distribuição gratuita criada
e apoiada pela Red Hat, desde que a empresa decidiu vincular a
cobrança do suporte ao produto.
– Não usamos ”Linux” nem ”software livre”
porque elas estão carregadas de preconceito. Ao lê-las,
as pessoas imediatamente associam o programa à dificuldade
e gratuidade de utilização – conta Henrique.
Apenas a versão Lite do Freedows é
gratuita, e não apresenta as características que
diferenciam a distribuição de outras já existentes
no mercado. A utilização das edições
Standard, Professional, Thin Client e a futura SMB depende da
aquisição de um contrato de subscrição
de serviços. Com ele, o usuário tem suporte por
e-mail, chat e telefone, além do serviço de atualizações
do produto e downloads de novas versões. O uso dos produtos
custa entre US$ 27 e US$ 30 anuais.
Pela sua semelhança com o Windows XP, o
Freedows gera amor e ódio entre usuários e especialistas
da informática.
– Eu já sabia que não agradaria aos
puristas do software livre e à Microsoft, mas até
agora não existia uma distribuição de Linux
que oferecesse uma transição suave para o usuário
de Windows. Ele não gosta de ter que aprender de novo o
que já sabe – afirma Henrique.
O primeiro contato com o Freedows, testado pelo
JB na versão Professional, impressiona. O usuário
é recepcionado por um desktop muito parecido com o do Windows
XP, com direito a menu Iniciar, ícone Meu Computador e
papel de parede com céu azul e gramado, já conhecidos
dos usuários do sistema mais recente da Microsoft. Ao expandir
o menu, o micreiro encontrará outros itens com nomes famosos
– Painel de Controle e Gerenciador de Arquivos.
Os programas mais usados receberam nomes que lembram
seus parentes do Windows. O cliente de e-mail chama-se Freedows
Mail Express, baseado no Evolution, da Novell. Um Freedows ICQ
esconde o Gaim, software livre de conexão às redes
dos mensageiros instantâneos. A suite de aplicativos de
escritório é a FreeOffice, na verdade um OpenOffice
com algumas alterações para torná-lo visualmente
parecido com o referente da Microsoft.
– Tentar clonar o Windows é uma abordagem
errada. O grande problema não está na interface,
mas nos aplicativos e na configuração do sistema
– afirma Carlos Morimoto, criador do Kurumin, a distribuição
brasileira mais popular do momento.
Ele, que também gerencia o site Guia do
hardware, diz que os usuarios devem ter facilidade de uso em qualquer
sistema operacional, mas os softwares não são iguais.
– A maioria dos usuários e técnicos
que trabalham com Linux subestimam o problema, achando que criar
um visual igual ao do Windows vai fazer os usuários migrarem
em massa – completa.
Parte do código-fonte do Freedows está
disponível nos CDs que acompanham cada uma das versões.
Modificações do FreeOffice, ícones da interface
e o mapeamento dos arquivos são fechados.
Henrique, que também preside a Abrasol,
Associação Brasileira das Empresas de Software Livre,
afirma que a receptividade das empresas é ótima,
e que o produto também pode ser adotado pelo usuário
final.
– Temos experimentado duas reações.
Os gerentes de tecnologia têm se interessado em experimentar
o produto. E os usuários finais começam a operar
o sistema imediatamente. Um chegou a dizer que não sabia
que existia ”uma versão nova do Windows” – brinca Henrique.






