Comgás reestrutura TI e prepara CRM
Depois de reestruturar a área de TI da Comgás, Roberto Newton Carneiro prepara-se para conduzir o projeto de CRM, que tem como objetivo reposicionar a companhia para os clientes residenciais
As pressões do mercado e a necessidade de expandir o negócio impulsionaram a Comgás a apostar nos clientes residenciais ao invés de se concentrar apenas na indústria. A idéia é aumentar o número de pontos conectados aos 4,8 mil quilômetros de tubo na rede hoje instalada em 10% ao ano. “Os clientes pequenos consomem menos e oferecem uma margem mais atrativa de lucro que os grandes”, explica Roberto Newton Carneiro, CIO da companhia em entrevista exclusiva à InformationWeek Brasil. Preciso nas afirmações e afiado nas respostas, o executivo mostra que há tempos entendeu porque o jargão “TI alinhado aos negócios”, tão na moda ultimamente, tem de sair do papel e do discurso para entrar na prática. “Sou um prestador de serviços, preciso entregar projetos, estabelecer prazos e negociar preços”, resume.
A maior parte da trajetória de Carneiro foi traçada dentro da área de tecnologia de grandes corporações, mas o executivo caminhou por áreas que pareciam inóspitas. Viu de perto o nascimento de duas pontocom – uma morreu logo com o estouro da bolha e a outra vingou. Ambas trouxeram a experiência de negócios que, acredita ele, foram fundamentais para sua carreira.
InformationWeek Brasil – Por que você decidiu deixar uma carreira promissora dentro da Shell, uma multinacional consolidada, para participar de uma nova companhia na época do início da web?
Roberto Newton Carneiro – Quando tomei esta decisão, as pessoas me chamavam de maluco, porque eu era bem avaliado na companhia e tinha um alto potencial de ascensão. Mas foram justamente estas pessoas que saíram seduzidas por dois mercados: as telcos, recém-privatizadas, e as empresas pontocom. Se por um lado havia o risco da empresa surgir e morrer, havia também o potencial retorno. Todo mundo sonhava em ficar milionário.
IWB – Como era a empresa que você ajudou a iniciar?
Carneiro – Saí da Shell em 2000 com o objetivo de explorar o mercado que surgia. Fui convidado para ingressar nesta empresa, que recebeu incentivo do grupo GP, o mesmo que apostou no Submarino. A empreitada não teve sucesso, pois, assim que a companhia foi fundada, a bolha estourou. Logo depois, um outro grupo de pessoas que também havia saído da Shell me convidou para compor a diretoria da Webb, mais voltada a portais, marketplace. Esta deu certo e fiquei lá por cinco anos.
IWB – De que maneira estas experiências acrescentaram na sua trajetória?
Carneiro – Quando a empresa está se estruturando todo mundo faz de tudo um pouco. Então, não me restringi ao mundo de TI: fui responsável pelo desenvolvimento de negócios. Isto abre a cabeça. A experiência me deu um viés comercial que a TI precisa ter. Quando vim para a Comgás e me vi de volta ao mundo da TI, percebi como fazia falta ter um olhar de negócios dentro deste departamento. Sou um prestador de serviços hoje, preciso saber falar com o cliente, vender meus serviços, tenho que negociar um valor para esse serviço.
IWB – Você estranhou voltar para uma grande empresa?
Carneiro – A Comgás não era uma empresa totalmente estranha para mim, porque participei da estruturação da TI quando estava na Shell e ela tornou-se uma das acionistas, na época da privatização, em 1999. Além disto, os meus dois predecessores aqui trabalharam comigo na Shell. O trabalho sempre foi com base na inovação, mas fiz uma avaliação da situação da TI naquele momento, em janeiro de 2006, e identifiquei pontos com oportunidades de melhoria.
IWB – Que tipo de melhoria?
Carneiro – Por exemplo, a TI era vista pela diretoria como algo muito distante e aí, de novo, a experiência mais voltada ao negócio foi muito importante. Com uma avaliação inicial, estabeleci pontos estratégicos para que a área pudesse ter o papel e ser vista como um valor para a companhia. Em março do ano passado, apresentei um plano ao board e ao Grupo BG, acionista majoritário.
IWB – Como é o projeto?
Carneiro – Refizemos e implementamos a estrutura organizacional e revimos o modelo de processos de TI, principalmente, na gestão de projetos. Além disto, dividi a área em três grandes grupos, infra-estrutura, aplicativos e informações. Nesta ordem: do menos para o mais estratégico. O que não é crucial estar nas mãos da empresa, como a infra-estrutura e alguns aplicativos, nós terceirizamos.
IWB – O que foi considerado para fazer a terceirização?
Carneiro – O mote principal da infra-estrutura foi a excelência operacional, quero fazer bem-feito com processo padrão e com o menor custo possível. Em aplicativos, realizamos uma convergência de pacotes de mercado para aqueles considerados commodity e uma implementação no modelo de SOA para os que adicionam valor, como o de gerenciamento de ativos a partir de equipamentos móveis e uma ferramenta de acompanhamento de rede baseada em sistema de informação geográfica (GIS).
IWB – Do que se trata este sistema?
Carneiro – É a integração de uma solução de GIS ao ERP e a uma solução específica de engenharia, permitindo a visualização gráfica de toda a rede da companhia. Com isto vamos impulsionar o processo de ampliação da rede e do número de clientes residenciais da companhia, um dos pontos mais importantes da estratégia para este ano. Quando a Comgás foi privatizada, fechou um acordo com a Petrobras de fornecimento de gás de alguns milhões de metros cúbicos por dia, em um modelo pelo qual você paga independente de usar ou não. Por isto, a companhia buscou grandes clientes que pudessem consumir este grande volume, como as indústrias. Uma vez com estas âncoras, partiu-se para a expansão de clientes que consomem menos e oferecem margens maiores.
IWB – E quanto à informação, o terceiro pilar de sua estratégia?
Carneiro – Embora a empresa trabalhe há bastante tempo com o conceito de BI e tenha um datawarehouse implementado, havia um problema sério de qualidade de informações, tanto que os usuários passavam boa parte do tempo conferindo informações extraídas do DW com os relatórios do ERP. Então, foi feita a reestruturação do business intelligence e da qualidade de dados. O que temos daqui para frente é em cima de toda esta base.
IWB – Quais iniciativas estão na pauta para este ano?
Carneiro – O maior projeto é de CRM, para o qual já escolhemos a solução da SAP devido à convergência na parte de aplicativos. Ela vai nos apoiar naquele ponto que mencionei anteriormente, de se reposicionar a companhia com relação aos clientes. A intenção é ampliar a base de consumidores conectados à nossa rede em 10% ao ano, partindo dos atuais 500 mil.
IWB – Que regiões a Comgás está explorando?
Carneiro – Já existia uma base pré-privatização dentro da região metropolitana de São Paulo, então, resolvemos ampliar este alcance e explorar outras regiões, como Campinas, Alphaville, Baixada Santista e o Vale do Paraíba. Outro ponto importante é que hoje não nos concentramos apenas na distribuição de gás, comercializamos produtos que fomentam o consumo deste combustível, como aquecedor, ar condicionado movido a gás, fogão. Existe até um showroom em São Paulo que mostra todas as aplicações possíveis com o gás natural.
InformationWeek Brasil







