ASML vende 109% mais equipamento de chip à China mesmo sob pressão dos EUA por restrições
Resultados do terceiro trimestre mostram que a fabricante holandesa de máquinas de litografia bateu recorde de vendas à China, justo quando Washington tenta fechar a brecha que ainda permite esse comércio.
O trimestre em que a China voltou a crescer
A ASML, fabricante holandesa que domina o mercado de máquinas de litografia para produção de chips, divulgou nesta quarta-feira (14/10) resultados do terceiro trimestre de 2026 com um dado chamativo: as vendas de equipamento para a China subiram 109% em relação ao trimestre anterior, segundo o SCMP.
Com isso, a China passou a responder por 23% das vendas de máquinas da ASML no período, ante 14% no segundo trimestre. A empresa projeta que o país feche 2026 representando cerca de 20% da receita total do ano.
O salto chama atenção porque acontece no exato momento em que Washington pressiona o governo holandês para apertar ainda mais as restrições de venda de equipamento de litografia menos avançado à China.
O que a ASML pode (e não pode) vender pra China
Vale separar dois mundos dentro do portfólio da ASML. As máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV), usadas para fabricar os chips mais avançados do mercado, já estão proibidas de exportação para a China desde 2019, por pressão direta dos EUA.
O que a China ainda compra livremente são as máquinas de litografia por ultravioleta profundo (DUV), tecnologia mais antiga, usada para fabricar chips de processo maduro: semicondutores para carros, eletrônicos de consumo, equipamentos industriais e dispositivos de IoT. É justamente essa categoria, classificada como "menos avançada", que os EUA querem restringir ainda mais.
O resultado prático: a China não está comprando capacidade para rivalizar com TSMC ou Samsung na fronteira dos chips de IA↳Inteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI →, mas está reforçando pesadamente sua autossuficiência em chips de uso geral, os que sustentam boa parte da eletrônica embarcada que chega ao Brasil todos os dias.
O Match Act e a pressão sobre a Holanda
A engrenagem política por trás dessa disputa tem nome: o Match Act, projeto de lei americano que busca obrigar aliados dos EUA, como a Holanda, a replicar as restrições comerciais impostas pela Casa Branca à China, incluindo no comércio de equipamento de litografia menos avançado (mais contexto no SCMP).
Em entrevista à Bloomberg no mês passado, o primeiro-ministro holandês Rob Jetten disse estar confiante de que a Holanda chegaria a um acordo com os Estados Unidos sobre o tema. Fontes ouvidas pelo SCMP afirmam que Jetten tem viagem à China marcada para a próxima primavera, um sinal de que Haia quer manter as duas pontas da relação comercial abertas.
A ASML está no meio desse cabo de guerra: é a única empresa do mundo capaz de fabricar máquinas EUV, o que a torna ao mesmo tempo ativo estratégico para os EUA e peça central da política industrial holandesa.
O crescimento vem de muito além da China
Ainda que a China puxe as manchetes, o motor do ano para a ASML é outro: a demanda por máquinas EUV para fabricação de chips de ponta, os mesmos usados em aceleradores de IA e GPUs de alto desempenho.
A empresa elevou o piso da projeção de receita de 2026 para € 44 bilhões (cerca de US$ 49,25 bilhões) e manteve a margem bruta esperada em torno de 56%, no topo da faixa anterior. Para o quarto trimestre, a previsão é de receita entre € 14,2 bilhões e € 14,2 e € 15,2 bilhões.
Os números do ano, segundo o CFO Roger Dassen:
- Receita total de 2026 deve crescer 36% na comparação anual;
- Vendas de máquinas EUV devem subir mais de 45% no ano;
- Receita do negócio não-EUV deve crescer 20%;
- Receita da base instalada (serviços e manutenção) deve subir 50%.
O momentum das vendas está muito, muito fortemente em ascensão.
Sales momentum was really very, very strongly building up.Roger Dassen, CFO da ASML
Capacidade que não acompanha a demanda até 2030
O dado mais revelador para quem acompanha a cadeia de semicondutores não é de 2026: é a projeção da própria ASML de que a demanda já ultrapassa os planos de expansão anunciados. A empresa havia planejado ampliar em 30% a capacidade de produção de sistemas EUV de baixa abertura numérica (low-NA) nos próximos dois anos, mas admite que isso não será suficiente.
Temos que fazer mais, e estamos basicamente procurando formas, especialmente em 2028 e depois disso, de estender ainda mais nossa capacidade.
We have to do more and we are looking basically at ways, especially in 2028 and beyond, to further extend our capacity.Christophe Fouquet, CEO da ASML
Fouquet detalhou que as conversas com clientes já miram prazos mais longos do que o habitual no setor: pedidos de capacidade para 2028 estão avançados, e já existe interesse concreto em reservar encomendas para 2029 e até 2030, segundo ele. O mercado reagiu: as ações da ASML subiram mais de 1% na bolsa de Amsterdã após o anúncio.
O que isso muda pra quem constrói software no Brasil
A cadeia de produção de chips é o gargalo mais distante (e mais decisivo) da infraestrutura que qualquer dev usa hoje: nuvem, GPU para treinar modelo, placa de IoT, controlador industrial. A ASML não vende chip, vende a máquina que fabrica o chip, e por isso seus números funcionam como termômetro de dois anos à frente da disponibilidade de hardware.
A notícia boa, pra quem depende de GPU e acelerador de IA, está nos números de EUV: crescimento de mais de 45% em vendas no ano e discussão de capacidade já mirando 2030 indicam que o investimento em capacidade de fabricação avançada (a que produz chips como os usados em aceleradores da Nvidia fabricados pela TSMC) segue em expansão, não em contração, apesar de toda a tensão geopolítica.
Já o crescimento das vendas de equipamento menos avançado à China tem outro efeito prático: mais capacidade de fabricação de chips de processo maduro significa, em tese, mais oferta global de semicondutores para automotivo, eletrônica de consumo e dispositivos embarcados, categorias onde o Brasil importa praticamente tudo o que usa.
O que fica em aberto é justamente o Match Act. Se os EUA conseguirem convencer a Holanda a apertar ainda mais as regras sobre equipamento DUV, o fluxo que sustentou esse trimestre recorde pode se reverter rápido, e qualquer planejamento de capacidade de hardware que dependa desse comércio (de data centers a fabricantes de placas) precisa considerar esse risco regulatório como variável, não como ruído de fundo.
Fonte: SCMP Tech
Este artigo foi escrito por Redação iMasters. Conteúdo produzido por agente de IA da redação iMasters, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
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