Inteligência Artificial

24 mar, 2026

Corrida global por infraestrutura digital: o que vem depois dos grandes investimentos em data centers

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Uma nova corrida global por infraestrutura digital já começou: nos últimos meses, grandes empresas de tecnologia passaram a disputar onde serão construídos os próximos data centers capazes de sustentar o avanço da inteligência artificial. Essas estruturas se tornaram peças estratégicas da economia, pois é nelas que está a base de funcionamento de ferramentas como o ChatGPT ou o Gemini. Por trás de cada interação com essas plataformas existe uma enorme capacidade de processamento operando em tempo integral, algo que exige instalações cada vez mais robustas e capazes de funcionar em escala global.

O volume de recursos envolvidos mostra o tamanho dessa transformação. Estimativas da Moody’s Ratings indicam que os investimentos globais destinados à expansão de data centers podem ultrapassar R$ 16 trilhões nos próximos cinco anos, movimentando setores como construção civil, infraestrutura energética e desenvolvimento tecnológico

Nesse cenário, o Brasil começa a aparecer no radar. O país reúne algumas características que despertam o interesse de grandes empresas de tecnologia, como uma matriz elétrica majoritariamente renovável, capacidade de geração ainda superior ao consumo e custos energéticos relativamente competitivos em comparação com outros mercados da América Latina. Pelo menos quatro projetos voltados especificamente para essa tecnologia já foram anunciados no país.

Um dos mais ambiciosos está previsto para o Ceará. O projeto envolve a construção de um complexo com capacidade inicial de 200 MW e investimentos estimados em cerca de R$ 50 bilhões, liderado pela Omnia em parceria com a Casa dos Ventos. A expectativa é que a iniciativa gere cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos. Há a possibilidade de que o espaço seja ocupado pela ByteDance, empresa responsável pelo TikTok.

Oportunidades e custos da IA

Entender essa corrida por data centers também exige olhar para o lado técnico da questão. Diferentemente dos centros de dados tradicionais, as estruturas voltadas para inteligência artificial precisam lidar com uma demanda muito maior de processamento. Treinar e executar modelos de linguagem requer enorme capacidade computacional, o que implica um consumo elevado de energia e, como consequência, a geração de grande quantidade de calor. Por isso, esses espaços precisam de sistemas avançados de resfriamento. Assim como um computador pessoal utiliza ventoinhas para controlar a temperatura, essas instalações contam com complexas estruturas de refrigeração que utilizam grandes volumes de água para manter os equipamentos funcionando de forma segura e estável.

Hoje, os data centers ao redor do mundo consomem cerca de 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade por ano, segundo a Agência Internacional de Energia, e uma parcela crescente desse consumo já está associada ao avanço da inteligência artificial. É justamente nesse ponto que surgem os principais desafios.

Data centers funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. Se a construção dessas estruturas realmente acelerar no Brasil, a demanda por energia pode crescer de forma significativa. Em um sistema elétrico que depende fortemente de fontes renováveis sensíveis às condições climáticas, como hidrelétricas e energia solar, períodos de seca ou de menor geração podem pressionar a oferta de eletricidade. Em cenários mais extremos, isso pode levar ao uso de fontes fósseis para complementar o fornecimento, uma alternativa mais poluente e que aumenta as emissões de carbono. Uma boa alternativa poderia ser o uso de energia nuclear, uma fonte não muito aproveitada no país e no mundo, mas que tende a crescer cada vez mais nos próximos anos devido ao crescimento natural da demanda mundial por energia, ligado ou não à IA.

Ao mesmo tempo, os potenciais benefícios econômicos são relevantes. A expansão da infraestrutura digital tende a estimular investimentos, gerar empregos e fortalecer cadeias produtivas ligadas à tecnologia, à construção e à energia. Se houver planejamento adequado, o Brasil pode se consolidar como um hub regional de data centers, atendendo empresas nacionais e também operações voltadas para outros mercados globais.

A corrida pela infraestrutura da inteligência artificial ainda está apenas começando e os grandes investimentos anunciados até agora são apenas o primeiro passo de uma transformação mais ampla. O verdadeiro desafio virá depois: garantir que essa expansão ocorra de forma sustentável, com planejamento energético, infraestrutura adequada e regras claras. Só assim será possível transformar a nova base da economia digital em desenvolvimento duradouro para o país.