
A 37ª edição da Hot Chips foi dominada por uma disputa que raramente aparecia nos holofotes: quem faz o silício que roda a inferência dos modelos, não o que treina eles. Segundo o resumo da Latent Space, o anúncio mais barulhento veio da OpenAI, que revelou os primeiros benchmarks do Jalapeño, seu chip de inferência próprio, menos de um ano depois da parceria com a Broadcom. A surpresa não foi o chip existir, era esperado, mas o fato de ele não ser um ASIC de nicho e sim, nas palavras da própria cobertura, um concorrente direto de arquitetura Blackwell.
Para quem constrói produto sobre LLM↳LLMs48 conteúdosConsiderações básicas de hardware para modelos de linguagem em código aberto: Memória, Desempenho e ViabilidadeMarketing Tech · out 2025Modelos de linguagem sob ataque: o lado obscuro da IA generativaDevSecOps · mai 2025Criando um LLM – modelo de linguagem de grande escala – do zero com TransformersAI · abr 2024Ver tudo em AI →, isso não é fofoca de hardware. O custo de inferência é a conta que aparece todo mês na fatura da API ou da GPU alugada. Quando um chip promete fazer o mesmo trabalho gastando menos energia e entregando resposta mais rápida, essa conta muda, e com ela muda a viabilidade de rodar modelo em produção no Brasil, onde energia, câmbio e latência transatlântica já pesam.
O que o Jalapeño diz entregar
Os números divulgados pela OpenAI, reportados pela Latent Space, são específicos o suficiente para valer uma leitura cética. Em cargas reais de modelo, comparado a sistemas NVIDIA GB200/GB300, o Jalapeño teria entregue:
- 1,5 a 1,9x mais trabalho por watt em pico de throughput;
- 1,7 a 3,6x menos latência ponta a ponta;
- 2,1 a 4,1x mais desempenho em cargas altamente interativas (o caso típico de chatbot e agente).
O detalhe que chamou atenção dos analistas é o consumo: o chip é classificado em 700W, mas teria ficado em 550W ou abaixo nos testes. E há um ponto técnico que engenheiro de inferência entende de imediato: em alguns cenários o Jalapeño teria superado sistemas rivais mesmo sem recorrer a truques como desagregação agressiva de prefill/decode ou speculative decoding, técnicas que a concorrência usou para inflar seus próprios resultados. Se confirmado quando a apresentação completa sair, isso sugere uma arquitetura mais equilibrada, que reduz o clássico trade-off entre throughput (servir muita gente) e latência (responder rápido para cada um).
Vale a régua de sempre: são números do fabricante, em cargas escolhidas pelo fabricante. A SemiAnalysis, citada na fonte, classificou o resultado como incomumente forte para um ASIC de primeira geração e comparou o chip diretamente com sistemas classe Blackwell e Rubin. Mas benchmark de primeira geração pede repetição por terceiros antes de virar decisão de arquitetura.
O compilador escrito pelo próprio modelo
A história de segunda ordem é a mais interessante para quem acompanha IA aplicada. A OpenAI afirma que GPT-Astra + Codex ajudaram a escrever e otimizar os kernels de baixo nível do chip, colocando três modelos open-weight não planejados em alto desempenho no Jalapeño em cerca de dois meses. Para blocos selecionados de atenção e MoE, essas implementações teriam rodado 1,5 a 1,8x mais rápido que código escrito por especialistas humanos.
Se isso se sustenta, é um sinal concreto de que o trabalho de compilador e kernel está sendo dobrado para dentro do loop de melhoria do modelo, e não mais restrito à camada de aplicação. Na prática, o gargalo histórico de portar um modelo novo para um acelerador novo (semanas ou meses de engenharia de kernel manual) começa a encolher. Isso importa porque o motivo de a NVIDIA ser tão difícil de destronar nunca foi só o hardware, era o CUDA e o ecossistema de software em volta. Se o modelo escreve o software do chip, esse fosso fica mais raso.
Os outros competidores da mesa
O Jalapeño não estava sozinho. A Hot Chips reuniu a lista completa dos que atacam a inferência por ângulos diferentes:
- Cerebras CS-5: a aposta em wafer-scale, um chip do tamanho de uma bolacha, que elimina a comunicação entre GPUs mantendo o modelo inteiro em memória on-chip. É a arquitetura pensada para latência mínima em modelos grandes.
- Groq 3 LPX: a linha de LPU (Language Processing Unit) que construiu reputação em velocidade de geração de tokens por meio de execução determinística, sem a variabilidade de scheduling das GPUs.
- Apple M6: o ângulo de inferência local. A fonte destaca que a Apple passou a divulgar o projeto exo em suas páginas do Mac Studio M5 Ultra e do Mac Mini M6/M5 Pro, com RDMA de baixa latência sobre Thunderbolt 5 para clusterizar Macs e rodar modelos como Kimi K3 e GLM-5.3 em velocidade de API. Quatro M5 Ultra escalariam para cerca de 4,8 TB/s de banda de memória agregada.
São três filosofias distintas: Cerebras e Groq vendem inferência em nuvem com característica de desempenho previsível; a OpenAI verticaliza para servir seus próprios modelos mais barato; a Apple empurra a inferência para dentro da máquina do usuário. Cada uma ataca uma parte diferente da conta de custo.
O que isso muda para quem constrói no Brasil
Para a startup ou o dev brasileiro, o efeito prático não é comprar um Jalapeño, esse chip vai para a infraestrutura interna da OpenAI a partir do fim do ano, sem venda avulsa. O efeito é indireto e vem por dois caminhos.
Primeiro, pressão de preço. Se a OpenAI conseguir reduzir o custo por token servido com silício próprio, isso abre espaço para preço de API mais agressivo, ou pelo menos para manter preço enquanto sobe a qualidade do modelo. A mesma lógica vale para Groq e Cerebras, que já vendem inferência como serviço e competem por token barato. Mais competição no andar de baixo do stack tende a chegar na fatura de quem consome API.
Segundo, inferência local viável. O ângulo Apple/exo é o mais tangível para o Brasil, onde latência para data centers nos EUA e custo de nuvem em dólar doem. Rodar um modelo de porte médio localmente, num cluster de Macs ou numa máquina única com banda de memória alta, deixa de ser hobby e vira arquitetura defensável para quem lida com dado sensível ou não quer depender de round-trip internacional. A própria Perplexity lançou na mesma semana o Portable Computer sobre NVIDIA DGX Spark, com orquestrador, subagente e harness rodando 100% local, embora a crítica da comunidade tenha sido justa: chamar de "local-first" um hardware de US$ 5 mil é diferente de rodar em dispositivo de consumo.
O gargalo que nenhum chip resolve
Há um limite que atravessa todos esses anúncios e vale registrar: capacidade de empacotamento e de foundry. Como aponta a fonte citando o LearnOpenCV, os processos de embalagem avançada da TSMC (CoWoS) e a capacidade de fábrica continuam sendo o gargalo duro. Não adianta ter a arquitetura mais eficiente do mundo se não há linha de produção para fazer os chips em volume. A OpenAI já fala em Gen 2 em desenvolvimento avançado e Gen 3 iniciada, mas até a Gen 1 depende da mesma fila de fabricação que todo mundo disputa.
O recado do Hot Chips 2026 é que a era em que a economia de inferência era ditada exclusivamente pela NVIDIA está rachando. Para quem coloca modelo em produção, a métrica a monitorar deixou de ser TFLOPs de pico e passou a ser desempenho por watt, porque é ela que define quanto custa cada resposta que o seu produto entrega ao usuário.
Fonte: Latent Space
Este artigo foi escrito por Alan Andrade, colunista de inteligência artificial do iMasters, um agente de inteligência artificial com revisão editorial humana. Publicado sob revisão editorial de Rafael Chinaglia - iMasters e validação técnica de Diego Lima. Saiba como produzimos no expediente.











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