Gerência de Projetos Dev & TI

19 fev, 2026

Carreira Tech Internacional é um projeto; e quase ninguém gerencia assim

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Quando alguém decide construir uma carreira tech internacional, quase sempre a conversa gira em torno de idioma, currículo e oportunidade. Parece uma decisão de coragem. Um salto. Uma virada de chave.

Eu também pensei assim.

Mas ninguém me disse que o maior desafio não seria técnico. Seria estratégico.

Mudar de país não é levar sua senioridade pronta. É reapresentar sua senioridade para um sistema que não viveu sua história. Você chega com anos de experiência, projetos entregues, decisões tomadas sob pressão. Só que, do outro lado, ninguém acompanhou isso. Você deixa de ser referência e volta a ser observado.

Lembro claramente das primeiras reuniões que participei fora do Brasil ano passado. Eu tinha clareza sobre o que precisava ser feito. Já tinha passado por situações parecidas antes. No Brasil, eu teria sido mais direto. Teria feito uma recomendação objetiva e seguido adiante.

Mas ali, eu percebi que o ritmo era outro.

As decisões eram mais circulares. A comunicação era mais medida. A discordância precisava vir embalada em contexto. Não era sobre estar certo. Era sobre como conduzir a conversa sem gerar ruído desnecessário.

Foi ali que caiu a ficha. Não era só adaptação cultural. Era gestão de ambiente.

Carreira internacional é um projeto porque exige mapeamento constante. Você precisa entender quem realmente influencia decisões. Precisa alinhar expectativa com mais frequência. Precisa comunicar impacto com intenção. Entrega isolada não constrói reputação. Consistência constrói.

E tem a gestão de risco, que quase ninguém calcula. Trabalhar em outro idioma o dia inteiro consome energia. Pequenas interações exigem mais atenção. Você pensa duas vezes antes de responder. Ajusta tom. Revisa mentalmente o que vai falar. Isso drena recurso. E todo projeto que drena recurso precisa ser administrado com consciência.

Nos primeiros meses, eu percebi que estava mais cansado fazendo o mesmo tipo de trabalho que já fazia antes. Não era falta de competência. Era falta de familiaridade com o sistema. Eu ainda estava construindo mapa.

A maioria das pessoas trata essa fase como se fosse temporária e automática. Não é. Se você não gerencia os primeiros 90 dias como fase crítica, começa a duvidar da própria capacidade. Quando, na verdade, o que falta é estratégia.

Com o tempo, a perspectiva muda. Você começa a planejar a médio prazo. Entende que reputação local é construída com pequenos acertos repetidos. Aprende a alinhar expectativa antes de entregar. Aprende a ler silêncio em reunião. Aprende que influência, em outro país, não vem do volume da sua voz, mas da consistência da sua presença.

Carreira tech internacional não é glamour. É governança pessoal. É execução disciplinada em ambiente novo. É aceitar que você vai reaprender a navegar mesmo sendo experiente.

A diferença é que quase ninguém faz isso com método.

E qual é o método?

Não é um framework sofisticado. É algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. Tratar sua transição como um projeto de longo prazo. Definir fases. Mapear riscos reais. Revisar estrategia a cada trimestre. Pedir feedback de forma intencional. Ajustar posicionamento antes de ajustar currículo. Medir reputação pelo que você ouve nas entrelinhas, não só pelo que aparece no organograma.

Quando você começa a fazer isso, a carreira deixa de ser uma aposta emocional e vira construção deliberada.

A transição deixa de ser um salto no escuro e vira execução.

É aí que ela começa a funcionar de verdade.