Confesso que estou ficando saturado de ler as numerosas previsões sobre o desaparecimento iminente de profissões por causa da IA. Há quase três anos ouvimos o mesmo roteiro. Call centers seriam substituídos por agentes autônomos. Radiologistas se tornariam obsoletos. Programadores perderiam espaço para copilotos. Analistas deixariam de existir.
O ciclo se repete continuamente. Primeiro vem o anúncio bombástico, depois as manchetes, os gráficos exponenciais e, por fim, as previsões de desemprego em massa.
Mas quando olho para o que acontece nas empresas que acompanho, vejo uma realidade muito mais complexa e muito menos espetacular. O erro, na minha opinião, está em confundir automação de tarefas com substituição de profissões.
Uma profissão não é uma tarefa isolada. É um conjunto de atividades que envolve contexto, julgamento, responsabilidade, comunicação, coordenação, adaptação e tomada de decisão em ambientes imperfeitos. Automatizar parte desse conjunto não significa eliminar o conjunto inteiro.
Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário do que os discursos mais alarmistas sugerem. Quando uma tecnologia aumenta a produtividade de uma atividade, seu custo tende a cair. E quando o custo cai, a demanda frequentemente aumenta.
Foi assim com capacidade computacional. Foi assim com armazenamento. Foi assim com banda de rede. E não me surpreende ver algo semelhante acontecendo com diversas aplicações de IA.
Se um profissional consegue atender mais clientes, analisar mais casos ou resolver mais problemas com o apoio da tecnologia, isso não leva necessariamente à redução de trabalho. Pode ampliar o mercado, aumentar o acesso e gerar novas demandas.
Talvez por isso tantas previsões de substituição total continuem falhando quando encontram o mundo real.
Demonstrar que uma tarefa pode ser automatizada em um laboratório é relativamente fácil. O difícil é transformar isso em adoção corporativa em larga escala, integrar a tecnologia aos processos existentes, lidar com regulamentações, governança, riscos, compliance, cultura organizacional e, principalmente, provar retorno econômico sustentável.
Não tenho dúvidas de que a IA transformará profundamente o mercado de trabalho. Mas existe uma diferença enorme entre transformação e extinção.
Por isso recebo com bastante ceticismo previsões que anunciam o desaparecimento de profissões inteiras em 12, 18 ou 24 meses. A história da tecnologia mostra que mudanças estruturais costumam ser muito mais lentas, desiguais e complexas do que os ciclos de hype fazem parecer.
O futuro do trabalho provavelmente não será uma disputa entre humanos e IA. Será uma reorganização da forma como humanos, processos e sistemas de IA trabalham juntos. Sim, menos dramático para as manchetes, mas muito mais próximo da realidade.



