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As questões de segurança e privacidade no amplo universo dos apps

Segurança e privacidade são temas que têm que ser debatidos para que estratégias de negócio baseadas em mobilidade não enfrentem problemas.

É indiscutível que as aplicações móveis estão mudando a maneira como interagimos com a Internet. Estamos saindo do modelo web-centric para o app-centric. Os apps tornam-se o ponto de contato das pessoas com as empresas e com outras pessoas. Os apps criaram um novo modelo de pensar sistemas, baseado na simplicidade, deixando escondido atrás das telas dos smartphones e tablets toda a complexidade dos sistemas que operam na retaguarda.

O poder da simplicidade reflete-se no imenso e crescente uso dos apps. O Gartner estima que em 2016 alcançaremos pelo menos 300 bilhões de apps baixados por ano. E, falando em simplicidade, recomendo enfaticamente a leitura do livro “Incrivelmente simples”, de Ken Segall, ex-diretor criativo da Apple. É um exemplo de como a simplicidade orienta a organização de uma empresa e seus produtos. Vale a pena a leitura.

Esse fenômeno faz com que mais e mais a mobilidade se insira nas estratégias de negócio das empresas, e não é à toa que praticamente toda semana participo de reuniões ou palestras com clientes abordando esse tema.

Mas existem dois pontos importantes que merecem ser debatidos com maior profundidade. Um deles é a questão da privacidade e o outro, segurança.

Quando falamos em privacidade, tocamos em um ponto nevrálgico do potencial dos dispositivos móveis, que é sua capacidade de inserir o usuário em um contexto baseado na sua localização em tempo real.

Na verdade, sistemas baseados em localização existem desde que surgiram os primeiros celulares, mas agora com os smartphones e a possibilidade de serem agregados com outras funcionalidades permitem criar aplicações inovadoras e extremamente úteis. As empresas podem se beneficiar dessa tecnologia de inúmeras maneiras, como para otimizar processos e alocação de seu staff, rastreando em tempo real seus funcionários, identificar clientes nas redondezas das lojas e rastreá-los quando nos corredores dos supermercados, aumentar a segurança através do conceito de geofencing, inibindo, por exemplo, o uso das câmeras dos smartphones quando dentro de determinada área geográfica, e assim por diante.

Entretanto, essas ações levantam questões de privacidade. Muitas pessoas podem se sentir “invadidas” quando rastreadas por seus apps. Muitas também não tem percepção do que significa realmente ceder permissões tipo “use location” e as consequentes implicações dessas informações. Por outro lado, esse rastreamento por parte de empresas e governos gera um debate intenso. Até que ponto um governo pode usar essa tecnologia para obter dados de seus cidadãos? Uma empresa, de seus clientes? Um pai tem o direito de monitorar os passos de seus filhos? E, um problema adicional: a legislação não acompanha o ritmo acelerado da evolução tecnológica.

Vale a pena ler um documento, meio antigo, de 2009, que levanta esse debate, “On Locational Privacy, and How to Avoid Losing it Forever”,   acessível neste link.

Não vamos deixar de usar esses recursos, pelo contrário, eles serão cada vez mais utilizados, mas é recomendável que as empresas insiram claramente nos seus apps as regras do jogo e como e para que as informações location-based serão usadas. Além disso, é bem adequado consultar suas equipes jurídicas e de risk management quando estiverem projetando tais sistemas, para evitar problemas mais à frente.

Outro tema que merece ser intensamente debatido é a segurança. Os dispositivos móveis nos colocam frente a novas vulnerabilidades e riscos, para quais os processos as e técnicas adotadas no modelo desktop não são mais adequados. Para citarmos alguns, lembramos que a possibilidade de roubo ou perda de um smartphone é muito maior que a de um laptop. E laptops já são perdidos e roubados em grande número. Vejam estes dados, obtidos pelo Phenom Institute, sobre roubo de laptops em aeroportos americanos: eles estimam que são roubados ou perdidos  mais de 12 mil, sim 12mil, dessas máquinas a cada semana nos aeroportos americanos. Com certeza o numero de smartphones e tablets perdidos ou roubados deve ser bem maior.

Outro problema, embora em menor escala, são os malwares. Eles se disseminam muito mais lentamente nos ambientes móveis que nos desktops com Windows, pois os sistemas operacionais como Android e iOS minimizam a sua propagação, limitando a aplicação a sandboxes e não permitindo que a aplicação possa silenciosamente mudar os parâmetros de privilégio de acesso.

Claro que devem existir preocupações quanto ao uso de apps em lojas públicas, principalmente quando falamos no ambiente Android. No iOS, a Apple executa um teste  de aceitação que minimiza a possibilidade de um malware ser inserido no seu acervo de apps. No Android, a situação é diferente, pois, apesar de existir um nível de requerimentos de compatibilidade para o sistema ser conhecido como Android, existem múltiplas variantes, de múltiplos fornecedores, e consequemente múltiplas lojas de apps, com critérios diferentes de aceitação.

Entretanto, um método que continua funcionando e que nos dispositivos móveis poderá se acentuar é o phishing, principalmente pelo grande numero de novos usuários que tem seu primeiro contato com a Internet através dos seus smartphones.

A questão da segurança em ambiente móvel deve fazer parte das preocupações dos desenvolvedores. Vemos a tendência crescente no uso de apps híbridas, baseadas em HTML5 e ambientes nativos. Estes últimos, como Android e iOS, provêm documentação sobre “best practices” de segurança, que devem ser lidas e compreendidas pelos desenvolvedores.

Além disso, as empresas devem buscar implementar políticas de segurança sustentadas por educação dos usuários, processos e tecnologias, como as MDM (Mobile Device Management). Infelizmente a maioria das empresas entram na mobilidade sem estarem adequadamente preparadas. Em pesquisas informais que fiz em algumas palestras, identifiquei que a maioria das empresas que já estão usando intensamente mobilidade não dispõem de políticas adequadas, e a maioria não tem softwares de MDM implementados.

Enfim, estamos em uma fase ainda de imaturidade quanto à exploração da mobilidade. Existe ainda muito pista pela frente. Portanto, questões como segurança e privacidade são temas que merecem ser bastante debatidos para que as estratégias de negócio baseadas em mobilidade não enfrentem problemas futuros.

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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