Design & UX

22 set, 2017

Contos de um designer ficando obsoleto… mais de uma vez

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A primeira grande mudança em um programa ao qual se está acostumado, a gente nunca esquece. Lembro que fui iniciado no Word 95 – por mais que já fosse 1999 – e de lá pra cá, o Pacote Office foi melhorando e mudando muito.

Fiquei alguns anos sem me atualizar a respeito do Office – usei o Libre Office por muitos anos, depois até o Google DOCs – e quando o atualizei, foi aquele grande susto: o que eu faço agora? Não sei mais mexer nisso!

Qualquer pessoa que trabalhe com computador está suscetível às mudanças das ferramentas digitais. Mas calma, pode piorar!

Quando comecei minha carreira como designer gráfico, lá em 2009, a agência na qual eu trabalhava usava Corel Draw. Até então, todos os meus trabalhos haviam sido feitos no Photoshop, mas lá, tive que aprender a usar o Corel. Estudava todos os dias quando chegava em casa. E para a minha surpresa, tive que aprender a mexer com Flash e, por consequência, entender um pouco de Action Script. Socorro!

A febre dos sites ultra-produzidos em Flash estava instalada. Vocês devem rir disso hoje, mas era o suprassumo fazer os sites cheios de fades e efeitos dinâmicos.

Então entrei na faculdade – sim, eu fiz as coisas ao contrário – comecei a carreira sem faculdade. Logo de cara, entendi que o Corel era uma piada generalizada entre os estudantes de design da época – inclusive, você já ouviu o funk do Corel? -. Tanto que me chamavam de ‘micreiro’. Ferrou! Já havia ficado obsoleto pela primeira vez em menos de um ano na faculdade.

Naquela época, meu conhecimento era praticamente técnico, e pouco conceitual, então sofri um pouco para me atualizar. Foi um susto interessante, pois não havia pensado por essa perspectiva de que uma ferramenta deveria ser trocada. Afinal, vi o Word hegemônico em todas as empresas por anos e anos.

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Algum tempo depois, a tendência do mobile começou a matar o Flash. Desde que a Apple declarou que não daria suporte a ele, a gente tentava se enganar dizendo que a ferramenta iria render, mas estava com seus dias contatos. Logo, a técnica que era até então o “crème de la crème“ dos sites, já não valia mais nada. Pouco a pouco ele foi deixado de lado. Até mesmo o Android parou de dar suporte.

Foram anos me aprimorando, aprendendo a fazer galeria de foto dinâmica, formulário de contato que funcionasse com PHP, XML, carrossel dinâmico, entre outros, até que tudo isso foi jogado fora.

Já não era a primeira vez que acontecia, e depois da lição que aprendi com o Corel Draw, decidi: “não vou me apegar mais às ferramentas”.

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E então, minhas experiências seguintes passaram por interfaces (UI/UX) e design editorial, mas até meados de 2013 ainda usei o Flash para fazer protótipos e trabalhei em uma revista até 2014. O mercado editorial é relativamente mais estável em termos de ferramentas. Conheço pessoas trabalhando com o inDesign e Photoshop há mais de 10 anos.

Naquele cenário eu estava a salvo, mas já bastante vacinado: àquela altura eu já não dependia tanto de ferramentas e tutoriais pontuais para trabalhar. Meu repertório gráfico já era melhor de forma geral, porque eu sabia o que queria fazer. Logo, aprendi a lidar com qualquer técnica: basta ter uma ideia e fuçar o programa até alcançar o resultado desejado.

Mas bem, a vida me reservava outra rasteira. De 2014 para 2015, ganhei uma bolsa de intercâmbio e fui estudar fora. Na Califórnia State University, tive a sorte de estudar design de aplicativos com um professor ótimo e o final do processo era prototipar um aplicativo completamente funcional em Edge Animate. Nossa, eu me dediquei de mais!

Não havia uma tela no fluxo do meu aplicativo que não fosse interativa. Entre os Ease-in e Ease-out, tive o prazer de usar uma ferramenta que dava infinitas opções de customizações, e era visual ao mesmo tempo. Tinha seus bugs? Tinha. Mas eu adorava ver meu aplicativo “funcionando”.

E então, adivinhem! No fim de 2015, a Adobe anunciou que estava descontinuando o Edge Animate.

Ali, resolvi virar a mesa, desistir da vida e vender bijuterias em uma praia no Rio de Janeiro – ou quase isso -.

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Agora, em 2017, eu não  – necessariamente – me vejo tendo que aprender uma técnica nova porque uma antiga entrou em desuso, mas uma tendência do mercado de interfaces é o uso do Sketch App. A migração foi fácil por eu já estar acostumado a aprender ferramentas novas e por ter aprendido a não me apegar à técnicas, mas sim, à conceitos. Essa foi a melhor lição que aprendi depois de tanto me ralar caindo nas rasteiras que os programas me davam.

Sobre o Sketch, a comunidade é incrível e tem muitos plugins sendo produzidos para ele, além deles ofertarem um sistema de assinatura mais acessível que a Adobe (US$99 por ano). Mas não sei, já fui traído muitas vezes pelas ferramentas para me apegar demais a uma. Fica a dica de qual estou usando agora, porque sou quase o Mick Jagger dos programas de design.

Dica máxima para não ficar obsoleto tão facilmente:

Embase-se em conceitos, não em técnicas. No âmbito visual, estude cores, formas, texturas e tipografia. A boa comunicação que fará uma boa peça gráfica, não um programa. Pense no que você quer fazer, esboce seus thumbnails em papel e execute.

 

 

No âmbito da experiência, estude seu problema, seu produto, seus usuários. Não dependa também da técnica que você vai usar para prototipar ou fazer o fluxo de uso.

Não importa a técnica, mas o que você tem na cabeça! Faça bom uso de suas ideias.

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Este artigo foi publicado originalmente em: https://www.concrete.com.br/2017/08/18/contos-de-um-designer-ficando-obsoleto-mais-de-uma-vez/