Estamos vivenciando o início de uma profunda transformação no modelo computacional e no papel de TI, mas isto muitas vezes não fica claro para nós. A razão é simples: estamos em um período que podemos chamar da transição do momento pré-cloud para o pós-cloud. Mas se observarmos os sinais de mudanças, vemos que agora é um momento em que começamos a ver o modelo de cloud computing se disseminando e a área de TI começando a assumir novos papéis dentro da organização.
Toda mudança causa estranheza no início, principalmente quando o paradigma é quebrado. Compara-se as mudanças com os modelos que estamos acostumados e muitas vezes não percebemos que no período de transição, como vivenciamos hoje, o paradigma ainda não está completamente definido. A transição, como o nome diz, é transitória, ou seja, não é o modelo que vai perdurar no futuro. É passageira.
Para ficar mais claro as diferenças entre os modelos pré e pós-cloud, vamos analisar o momento atual. Este momento vamos denominar como periodo pré-cloud e é basicamente fundamentado na arquitetura cliente-servidor, com uso muito limitado (quase embrionário) de cloud computing. É um momento de evangelização do mercado. Na maioria das empresas, a área de TI é responsavel pelos custos e controle dos recursos computacionais. É um centro de custos. Sua função primordial é suportar as operações do negócio, padronizando as tecnologias e determinando quais que podem ou não entrar nas empresas. É um modelo que tanto os fornecedores, quanto os compradores de tecnologia se acostumaram e baseados nele criaram todo um ecossistema. As empresas planejam desenvolver ou contratar novas aplicações, adquirem tecnologia (hardware e software) e aguardam um determinado período de tempo (às vezes semanas e meses) até que as máquinas físicas sejam instaladas e o software disponilizado para uso.
O período de transição já nos mostra algumas mudanças. Começamos a ver o cloud computing cada vez mais disseminado, mas devido aos questionamentos e interesses dos dois lados (vendedores e compradores), busca-se um modelo que não faça transformações radicais. Notamos claramente a adoção do que chamamos de nuvens híbridas, com parte da demanda computacional das empresas sendo atendidas pelo modelo de nuvem (de IaaS a SaaS) e parte ainda no modelo on-premise. Ou seja, vemos algumas soluções indo para a computação em nuvem ao mesmo tempo que vemos em paralelo novas aquisições de hardware e licenças de software. Mas a área de TI começa a se desgarrar do paradigma de controlar os recursos computacionais, passando muitos deles para provedores de nuvem externos. A consumerização de TI é um impulsionador para acelerar o deslocamento do eixo da adoção de tecnologias na empresa da TI para os usuários. Começamos a ver TI focar-se mais na padronização dos serviços do que nas tecnologias. Ou seja, em vez da preocupação em definir padrões de tecnologia, a TI começa a buscar padrões de serviços em nuvem. É um periodo desafiador, pois os principais provedores de nuvem tentam impor seus próprios padrões como padrões de fato do mercado. A TI deve buscar concentrar esforços em adotar provedores que se baseiem em padrões abertos, pois o momento atual é de transição e a visão estratégica terá que olhar o longo prazo.
Provavelmente, no fim desta década ou início da próxima estaremos vivenciando o período pós-cloud ou seja, o momento em que não terá mais sentido falar em cloud computing e sim apenas em computing, pois este será o paradigma computacional dominante. Claro que quando falamos em modelo dominante não estamos falando que 100% do cenário computacional estará em cloud. Sempre haverá demandas e especificidades que exijam a preservação do modelo atual em determinadas situações.
Mas quando estivermos neste modelo, qual será o papel da TI? A maioria dos serviços estará em nuvens públicas e em empresas de maior porte, com uma parte também em nuvens privadas. Uma diferença é que o aparato tecnológico, como servidores e middleware serão commodities. A TI vai criar diferença se deixar de ser suporte do negócio para ser parte integrante. É o momento em que falar da sigla CIO como Chief Information Officer será tão revelador da obsolescência quanto o título de gerente de CPD. Deveremos falar em funções como Chief Innovation Officer ou Chief Digital Officer.
O período pós-cloud é o modelo “TI is the Business”, ou seja, não terá mais significado debater se TI está ou não alinhado com o negócio. TI será o negócio. As discussões e decisões corporativas vão incluir tecnologias desde o inicio, pois esta estará cada vez mais invisível e ubiqua. A Tecnologia estará tão integrada às discussões como o dinheiro para investimento. Praticamente todo e qualquer produto ou serviço, seja aos clientes ou de uso interno, terá TI embutida. Lembramos que não estamos falando apenas da TI como a vemos hoje, responsavel basicamente pelos ERPs e bancos de dados, mas a nova TI deverá incluir toda tecnologia embutida na organização, inclusive a operacional, que está embutida em objetos, câmeras, sensores, etc.
A TI passará a ser vista como geradora de receita e não como centro de custo. Para isso acontecer, alguns níveis de amadurecimento deverão ocorrer. Primeiro é indicutível que esta nova TI tenha a excelência operacional como padrão mínimo. E para conseguir isso, a computação em nuvem é fundamental. O processo de automatização que a computação em nuvem embute é essencial para alcançar esta excelência operacional. Não terá sentido nenhum a área de TI gastar horas ou dias de recursos humanos para fazer upgrades de software ou exercer tarefas que não agregam valor para o negócio. Muito menos fazer as áreas de negócio esperarem semanas por um novo recurso computacional como um servidor…
Outro nível de amadurecimento será a mudança no perfil profissional dos gestores e profissionais de TI. Quanto maior o uso de provedores de nuvem, menor a necessidade de administradores de sistema in-house. Estes estarão concentrados nos provedores. Quanto maior a utilização de PaaS, menor a demanda por desenvolvedores dentro de casa, pois grande parte desta tarefa poderá ser feita externamente. Mas conhecer em profundidade o negócio e alavancar novos produtos e serviços com tecnologias e processos inovadores fará toda a diferença. Esta deverá ser a postura e o perfil do profissional de TI: conhecer e aplicar de forma pró-ativa e inovadora as tecnologias que farão diferença para o negócio.
A linguagem de TI também deverá mudar. Reduzir custos e gerenciar ativos de TI passam a ser função de provedores. Não será uma tarefa nobre para o novo perfil da TI. Mas entender do negócio e discutir como reduzir fraudes em sistemas de seguro e bancários, diminuir o churn rate de uma empresa de telecomunicações, reduzir as ocorrências de “out-of-stock” do varejo e assim por diante, é que deverão ser as conversas de corredor da TI e não se o sistema operacional é Linux ou outro qualquer.
Este não é um processo que vai acontecer de uma dia para outro. Passaremos, aliás, estamos passando por um período de transição e as empresas e os CIOs deverão ter uma estratégia para transformar suas TI’s em um centro de resultados. Ficar parado esperando a mudnça é que não tem sentido. Elas acontecerão, queiramos ou não.



