Há alguns dias, participei de uma mesa redonda em uma universidade com diversos jovens empreendedores, que estavam muito motivados a criar negócios baseados em computação móvel, escrevendo apps. Aparentemente, a fórmula para ganhar dinheiro com apps é simples: ter uma boa ideia, saber alguma linguagem de programação, como Java, desenvolver o aplicativo, colocá-lo na AppStore ou PlayStore, definir um preço baratinho, como US$ 0,99 e, pronto, agora é só esperar os milhões de downloads e aproveitar a grana. Afinal, segundo o Gartner, em 2011 as vendas mundiais de apps representaram US$ 15 bilhões e deverão chegar a US$ 52 bilhões em 2015.
Infelizmente, a vida real não é tão simples assim. A imensa maioria dos aplicativos é grátis e aqueles que cobram têm que pagar uma comissão à loja virtual. Em média, a loja fica com 30% da receita, e o desenvolvedor com 70%. O próprio Gartner estima que mais de 85% dos downloads feitos nas lojas virtuais são de aplicativos gratuitos. Uma pesquisa feita em meados de 2011 em cima da AppStore mostrou que as então 370 mil apps existentes tinham sido criadas por 78 mil desenvolvedores (individuais ou pequenas empresas), com um preço médio de US$ 2,52. E da lista dos top 100 mais vendidos, 43 eram games. Nenhum app vendido tinha tornado seu desenvolvedor milionário… A pesquisa mostrou também que 68% dos apps que não eram jogos tinham preço US$ 0,99 ou US$ 1,99. O máximo de ganhos médio por aplicativo não passava dos US$ 27 mil. O relatório pode ser visto em http://gigaom.com/apple/the-average-ios-app-publisher-isnt-making-much-money/ .
Portanto, a discussão na mesa redonda voltou-se para a questão de como gerar receita neste, aparentemente, promissor mundo dos apps.
Várias questões foram debatidas. Uma delas é básica: precificar o aplicativo. Mas como alavancar um número significativo de downloads que gere receita palpável? Uma estratégia é oferecer o download gratuito e vender espaço publicitário, que, infelizmente, também não gera muito dinheiro. Os sistemas mais utilizados para isso são o Admob do Google e o iAd da Apple. É um modelo simples: a cada clique na propaganda durante a execução do programa, o desenvolvedor ganha uma porcentagem, geralmente alguns centavos de dólar. Precisa-se, portanto, de milhões de downloads para gerar uma receita significativa.
Existem muitos apps voltados para o setor de games e, nestes, de maneira geral, o modelo é baseado no conceito de Freemium, divulgado pelo livro “Free, the future of radical price”, de Chris Anderson. Esse conceito tem como principal finalidade oferecer às pessoas a possibilidade de usarem uma parte do produto ou serviço de graça e, caso queiram obter mais vantagens e funcionalidades, podem adquirir uma versão Premium mediante o pagamento de um determinado valor. No caso dos jogos, é permitir o download gratuito e cobrar por acessórios, como novos personagens. Um caso interessante é o jogo “Tiny Zoo” para iPads. Embora o jogo seja gratuito, a empresa coloca à venda vários bichinhos virtuais pelos quais se paga, em alguns casos, dezenas de dólares. Os recursos que esses jogos utilizam é chamado de in-app, que permite a compra de conteúdo digital de dentro do próprio aplicativo. Uma pesquisa feita no ano passado mostrou um dado interessante: eles constituíam 94 dos 150 top free games baixados.
Mas, na minha opinião, um modelo que tende a ser bem sucedido é o desenvolvimento de apps para outras empresas. Aqui no Brasil, temos algumas pequenas empresas bem sucedidas, como a I.ndigo, que desenvolveu alguns aplicativos de sucesso mundial. Começa também a despontar o desenvolvimento de novos aplicativos para o ambiente corporativo, ou aplicativos que implementem funcionalidades dos sistemas já desenvolvidos nas empresas. Uma pesquisa feita nos EUA e Europa mostrou que cerca de 60% das empresas compram aplicativos customizados de terceiros, das lojas virtuais ou dos fornecedores dos sistemas atuais. Apenas 42% preferem desenvolver in-house. Penso que a razão seja a falta de expertise interna para o desenvolvimento de aplicativos móveis. Para desenvolver aplicativos corporativos, para múltiplas plataformas, é necessária uma ferramenta que permita escrever um único código, mas que rode nos principais ambientes, como Android, iOS e HTML5. Recomendo dar uma olhada no Worklight da IBM, em http://www-01.ibm.com/software/mobile-solutions/worklight/ .
Esse mercado, entretanto, deverá ser em sua maior parte mantido pelas empresas que já desenvolveram os aplicativos para o mundo do teclado e mouse e que agora os estão reposicionando rapidamente para o touchscreen. Nas conversas com executivos das empresas de software, as chamadas ISVs (Independent Software Vendors), fica claro o interesse e a movimentação deles em criar novas funcionalidades para o ambiente móvel. Claro que sempre surgirão novas e inovadoras empresas que criarão aplicativos diferenciados diretamente para o mundo móvel, mas o mercado brasileiro não oferece muitas oportunidades para essas empresas florescerem. Gostaria muito de ver surgir uma outra Totvs nascida no mundo móvel, mas as chances me parecem pequenas. A possibilidade maior é de as empresas que despontarem serem compradas por empresas maiores. De qualquer maneira, para os empreendedores que queiram se aventurar nesse mundo da mobilidade, sugiro olhar de perto os setores de mídia e entretenimento, varejo, transporte, saúde, educação e utilities. Me parece que esses setores apresentam um bom potencial para criação de aplicações inovadoras.
O debate também derivou para uma outra questão importante. Para criar um aplicativo pago, é essencial saber por que e quando os usuários compram aplicativos. E quanto eles estariam dispostos a pagar. Existe um serviço interessante, chamado Mopapp, que monitora o desempenho financeiro do aplicativo. Ele próprio coloca em prática o modelo grátis para uma versão simplificada e variantes pagas para funcionalidades adicionais.
Outra questão que debatemos foi como destacar o aplicativo em um mar de aplicativos? No AppStore, já contamos hoje mais de 600 mil apps. Devemos ter também uns 400 mil para Android. É realmente um desafio e tanto, e uma das melhores táticas é o uso intenso e inteligente das próprias mídias sociais. Recomendações de amigos e entusiastas pelo app é uma fonte importante de geração de atenção. Um exemplo interessante de serviço para localizar apps é a Xyologic, ainda em beta, em http://beta.xyologic.com/. A ideia dessa startup é bem legal.
A prática de gerar divulgação nas mídias sociais criou um serviço inovador chamado BuzzDoes, que explora os efeitos virais para acelerar o processo de divulgação do aplicativo. Uma grande ideia. Pena que não fui eu que a tive…
Enfim, existe mercado, só que como em qualquer mercado, ganhar dinheiro não é fácil. As oportunidades com os apps existem, mas é importante desenhar um bom e rentável modelo de negócios, ser criativo e, principalmente, acreditar na ideia. Sugiro aos desenvolvedores de apps a se manterem atualizados com as últimas informações sobre o cenário de aplicativos, e aí recomendo concentrar esforços no Android, iOS e HTML5. Recomendo olhar o http://148apps.biz/ que se especializou em noticiar fatos sobre o que eles chamam ‘”business side” da AppStore. E para ter uma ideia do que existe no mundo Android recomendo acessar http://www.androlib.com/.
Enfim, quem sabe, alguém não aparece com um novo Instagram aqui no Brasil?







