DataARTIGO

PostgreSQL em debate

Quando fiquei sabendo da 3º
Conferência Brasileira de PostgreSQL (PgCon Brasil 2009) fiquei interessado em
participar deste evento e acompanhar como anda a comunidade que trabalha com esse banco
de dados de software livre.

A conferência foi realizada em
Campinas, São Paulo, nos dias 23 e 24 de outubro
de 2009. Infelizmente não pude participar do primeiro dia, mas estive lá no segundo e trago aqui um pouco do que aconteceu por lá. Informações mais completas estão no site do evento.


Poster da conferência.

A primeira palestra que fui assistir foi a de Flavio H. A. Gurgel, “PostgreSQL em ambiente financeiro de alta criticidade“. Ao mesmo tempo, em outro auditório, havia uma palestra internacional em inglês, “Rapid Upgrade With Pg_Migrator“, apresentada por Bruce Momjian, um membro ativo da comunidade PostgreSQL americana. A maior parte do público estava na palestra do Flavio.

O Flávio começou fazendo uma pequena apresentação da 4Linux,
empresa de consultoria onde ele trabalha, e de como ela presta suporte
de nível 2 (24/7) para a Caixa Econômica Federal. Ele
explicou um pouco o contexto no qual havia a necessidade da utilização
de software livre: a internacionalização dos serviços e também a
participação dos usuários na comunidade do PostgreSQL. A próxima parte
da palestra se concentrou em explicar o caso de estudo: o ambiente
multicanal, que engloba os serviços de caixa eletrônico (ATM), SMS e
transações bancárias. Foram apresentados os elementos da arquitetura,
com aplicações JBOSS, Mainframe, Plataforma, Services, Storage,
Replicação, bancos de dados PostgreSQL e outros.

No decorrer da palestra, Flavio Gurgel apresentou as principais dificuldade técnicas encontradas para fazer o PostgreSQL suportar o ambiente, em particular o requisito de manter um valor mínimo de transações por segundo durante o uso do banco de dados. Este requisito, chamado de throughoput, com certeza foi uma das principais preocupações de todo o projeto, uma vez que um estudo preliminar indicou que outras soluções que não utilizam software livre poderiam atender com folga este requisito. 

Várias opções e configurações foram comentadas, inclusive com algumas dicas para quem deseja utilizar o PostgreSQL em ambientes financeiros com um grande número de transações. O conceito de Pensar PostgreSQL foi apresentado na final da palestra junto com algumas necessidades e problemas identificados. Para finalizar, o palestrante deu ênfase que o PostgreSQL é uma alternativa de código livre confiável e robusta o suficiente para atender as necessidade de ambientes que precisam alcançar e manter um alto número de transações bancárias, apesar do fato de o próprio palestrante admitir que o PostgreSQL ainda não é a realidade nos datacenters. 


Participantes do evento – foto oficial

Após o coffee break e tempo para networking, assisti à palestra do Euler Taveira, “pg_similarity: funções e operadores para executar consultas
para similaridade
“. Essa palestra foi baseada na pesquisa realizada pelo próprio Euler durante a sua tese de mestrado e basicamente abordou como estender o PostgreSQL através da criação de novos operadores para buscas aproximadas, ou seja, que não retornam do banco de dados valores exatamente iguais aos que foram pesquisados. O palestrante iniciou contextualizando o que é uma pesquisa aproximada, quais são os problemas envolvidos nas abordagens e também as conseqüências. Em seguida ele apresentou diversas funções de similaridade que podem ser utilizadas para realizar a busca, entrando em detalhes de uma função em particular. 

Depois foram apresentados alguns exemplos de como as funções foram implementadas, os novos operadores para a linguagem do PostgreSQL e também como utilizá-los. Em geral a palestra foi simples, sem entrar em muitos detalhes técnicos e procurando abordar apenas o aspecto de implementação do trabalho. Alguns ouvintes fizeram perguntas a respeito de testes e outros itens, porém tive a impressão de que este ainda é um trabalho que precisa de um pouco mais de resultados antes de ser colocado em prática.

Ao mesmo tempo em que o Euler apresentava sua palestra, houve uma mesa redonda no Auditório 2, com o tema “Adoção de PostgreSQL pelo Governo Federal Brasileiro“. Participaram representantes da Celepar, DataPrev, do Ministério da Educação e outras empresas. Acompanhei uma parte da discussão e percebi que o Governo, em geral, está muito engajado não apenas em utilizar o software livre, como o PostgreSQL, mas também em incentivar, discutir e aprender com a comunidade.

Destaco dois pontos que chamaram a minha atenção: a questão da colocação de informações gerais sobre software em licitações e editais de concursos a respeito de software, para evitar favorecimento de uma empresa ou outra, e também a iniciativa de não apenas contratar candidatos que passaram no concurso, mas também em incentivar e, em algumas casos, exigir, a participação na comunidade como pré-requisito para a contração.

Outro ponto relevante apresentado na mesa de discussão foi sobre investimentos; ao invés de comentar apenas sobre a redução de custos relacionada à adoção do software livre, foi discutido o quanto é investido na comunidade.


Mesa redonda: software livre no governo.

Após o término da mesa redonda, Bruce Momjian fez um pequeno discurso sobre a evolução e a adoção do PostgreSQL. Ele disse, logo no começo, que estava preocupado sobre o que faz um software ter sucesso e quais os fatores que influenciam esse sucesso. Ao comentar que o primeiro país com uma comunidade forte de usuários do PostgreSQL foi o Japão, ele disse que o fundamental para o sucesso de um software livre é a comunidade e a forma como ela interage e produz recursos com o software. Ele terminou dizendo que, depois do Japão, o Brasil é a segunda maior comunidade de usuários do PostgreSQL.

Na parte da tarde assisti à palestra “O uso do PostgreSQL e PostGIS para o cadastro geocodificado de acidentes“, apresentada por George Rodrigues da Cunha Silva. A palestra foi um relato do trabalho de seu mestrado. George Rodrigues focou na utilização do PostgreSQL e do PostGIS para auxiliar o processo de geocodificação e a automatização deste processo. Foram explicados os conceitos de GIS/SIG, o modelo de dados, a base referencial utilizada, como as informações foram geocodificadas e outros aspectos técnicos que permitiram a utilização do PostgreSQL neste contexto.

A palestra seguinte foi “Acesse e utilize os metadados do PostgreSQL sem medo“, com Evandro Ricardo Silvestre. Para mim essa foi a única palestra do evento focada nos iniciantes, em um público que não conhece muito bem o PostgreSQL e está à procura de conteúdo. Ele apresentou o que são os metadados do PostgreSQL e de como utilizá-los para facilitar a criação de aplicações simples que armazenam dados que podem ser migrados para o banco de dados, como descrição de campos, hints, tamanhos, algumas validações e outros.

Ao mesmo tempo em que as palestras de Rodrigues George e Evandro Silvestre aconteciam no Auditório 2, João Cosme de Oliveira Júnior apresentava a palestra “Particionando os dados e balanceando a carga com o PLPROXY“, no Auditório 1. Essa palestra explicou a utilização do PLPROXY em detalhes, com especial atenção ao case da empresa Skype, que possui uma popular ferramenta de VoIP. João Oliveira apresentou como programar em PL SQL para o PostgreSQL e definir as funções para implementar o balanceamento de carga, sempre focando na questão da alta disponibilidade e de como fica o ambiente com esta configuração.

Na sequência, após um intervalo, fui presenciar as Lightning Talks, são pequenas ‘palestras’ de 5 minutos apresentadas pelos membros da comunidade. Qualquer um podia fazer sobre qualquer assunto relacionado ao PostgreSQL em 5 minutos.

Vários assuntos foram apresentados, como a transformação de arquivos DBF para SQL com o xHarbour, detalhes sobre o uso do PostgreSQL na Agência de Tecnologia da Informação do Estado de Pernambuco, práticas para se obter Baixa Disponibilidade com o PostgreSQL (ou seja, o que não deve ser feito) e até relatos da ‘Minha Vida com o PostgreSQL’. 

O evento terminou com a apresentação ” Os passos do elefante no Brasil“,  que foi conduzida por Claudio Filho. Ele apresentou um histórico da conferência e também os principais membros da comunidade. Destaque para a foto em grupo que é tirada em cada edição da conferência: cada vez mais e mais pessoas estão decidindo participar da comunidade. Para encerrar, Fábio Telles deu algum vislumbre dos próximos passos da comunidade.

Um evento como esse, organizado por e para a comunidade, é uma excelente oportunidade de ver quem é o tipo de pessoa que utiliza o PostgreSQL e que contribui não só para o projeto em si, mas também para que novas pessoas possam adotar este banco de dados e abraçar o espírito da comunidade de software livre.

Entrevista

Aproveitando a oportunidade, fiz uma breve entrevista com Fábio Telles, um dos principais organizadores do evento:

Como surgiu o PgCon Brasil?
Tudo começou quando os próprios usuários começaram a se encontrar em diversos eventos de software livre, como o FISL (Fórum Internacional de Software Livre) e o Conisli (Congresso Internacional de Software Livre). Cada vez que a comunidade se juntava, as pessoas começavam a pensar em montar um evento, que quase aconteceu em 2006.

A partir de um stand que montamos em 2005 no FISL, vi que a comunidade precisava de um evento próprio. Assim, em 2006, houve uma organização dos membros da lista de discussão PostgreSQL-BR, que sempre deu apoio e suporte à comunidade, e o evento quase aconteceu. Foi em 2007, finalmente, que a primeira edição da PgCon aconteceu, com cerca de 150 participante reunidos em São Paulo.

Em 2008, o evento foi em Campinas. Quisemos aproveitar esse ambiente de universidade, um espaço legal e com um bom custo. Além disso, fazer um evento dentro da Unicamp mostra o reconhecimento do valor da conferência por parte da universidade.

Quais as principais dificuldades em organizar um evento como esse?
O tempo, sem dúvida. Todo o trabalho é voluntário. O mais complicado é arrumar tempo para organizar os detalhes e tudo que precisa acontecer durante a conferência.

Como foram escolhidos os palestrantes e os temas das palestras?
Tivemos aproximadamente 40 propostas de palestras, que foram cuidadosamente analisadas e escolhidas pela comunidade. O PgDay, outro evento da comunidade, também é uma boa fonte para essa escolha. O PgDay é um evento de um dia, organizado em diversas cidades, que junta os usuários locais e discute assuntos relacionados ao PostgreSQL em forma de palestra. No PgDay são abordados assuntos mais voltados para o usuário iniciante. Em 2009 a comunidade montou 5 PgDay em estados diferentes: Rondônia, São Paulo, Brasília, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Quais são as expectativas para o próximo evento, em 2010?
Ainda não temos nada definido. Estamos estudando alguns locais, mas somente depois dessa conferência que vamos conversar com a comunidade e estudar onde vai ser o próximo evento. Não sabemos onde será, mas com certeza teremos a quarta PgCon Brasil.

Mauro Pichiliani é bacharel em Ciência da Computação, Mestre e doutorando em computação pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Trabalha há mais de 10 anos utilizando diversos bancos de dados e ferramentas de programação. Pode ser contatato no twitter como @pichiliani e no e-mail pichiliani@gmail.com

Ver perfil