Os luditas e os gurus da tecnologia

PorFábio Flatschart em

O futuro sempre fascinou o homem. Vislumbrar novas possibilidades, novos contextos e novas realidades (virtuais ou não) fazem parte da trajetória da civilização desde os seus primórdios.

Esta visão ou pré-visão, que já foi guiada por rituais mágicos ou escritos religiosos em tempos distantes, aos poucos foi se inserindo no campo da racionalidade, tornando a futurologia uma ciência palpável e com lugar de destaque na academia e no mercado, contribuindo para o planejamento, posicionamento e direcionamento de empresas, marcas e veículos de comunicação.

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A rápida ascensão e obsolescência de tecnologias, ferramentas e processos, cria ciclos de vida cada vez mais curtos para produtos e serviços. No século XXI, a noção do continuum do tempo é contraposto ao nowismo da sociedade contemporânea, na qual a sensação do presente eterno, descolado do passado e ligado diretamente ao futuro, nos faz, muitas vezes, tratar os meios de comunicação como uma constante sobreposição de formatos, canais e veículos que “matam” seus antecessores e apagam suas origens.

A construção do mundo digital, binário e conectado não é feita a partir de um reset do velho mundo analógico. É embasada no resultado de milênios de experiência investigativa conduzida à duras penas pelos nossos antepassados. Vejam o caso do livro, hoje se discute a morte do livro impresso e a primazia do livro digital, não é o livro que morre é o suporte que evolui. O livro já foi pedra, argila, madeira, couro, papiro, papel encadernado. Nos últimos anos ele virou PDF, ePUB, app, web, nuvem…

As mudanças não são cartesianas; não são decretadas através de uma data de início com validade pré-determinada e uma nova prática não elimina por completo a anterior. Elas se mesclam e se complementam durante um período até que a mais confortável, a mais viável e principalmente aquela que permite a adoção de modelos de negócios claros e mensuráveis se consolide como uma nova solução.

Qual a variável que mudou radicalmente em todo este processo histórico? A velocidade!

A história da evolução das tecnologias midiáticas não é uma curva linear; é uma curva exponencial que a partir do final do século XIX rapidamente aponta para uma infinita linha vertical, após percorrer séculos de um aclive suave, quase na horizontalidade.

Esta (re)visão histórica é hoje viável por que temos agora ciclos tecnológicos mais curtos dentro dos quais podemos medir e comparar as vantagens, desvantagens e impactos destas tecnologias na maneira como criamos, produzimos, distribuímos e consumimos conteúdo. A supremacia de uma nova tecnologia midiática só pode ser avaliada em sua eficácia quando temos a chance de compará-la com aquela que foi suplantada.

Esses períodos de comparação e transição entre os ciclos tecnológicos são um terreno fértil para a ação de dois personagens: Os luditas e os gurus.

  • Os luditas: Por volta de 1810, época onde os efeitos da revolução industrial faziam-se sentir de maneira intensa em Londres, os trabalhadores temiam que com o crescente emprego das máquinas a vapor, eles perdessem seus empregos. Ned Ludd, também chamado de “King” Ludd, liderou revoltas dos operários que invadiam fábricas e destruíam suas instalações como forma de conter a escalada da automação industrial na qual a mão de obra operária seria substituída pelo uso das máquinas. Daí a expressão Ludita ou Neoludita, usada até hoje para nomear os tecnofóbicos e depois os digifóbicos – aqueles que se mantém à margem da evolução e negam ou ignoram a chegada dos novos meios e processos.
  • Os Gurus: Figuras místicas conhecidas pelo seu carisma e poder de liderança, anunciam, evangelizam e profetizam o futuro, as vezes sombrio, mas na maioria das vezes utópico. Estabelecem uma relação quase religiosa com seus seguidores. Atuam com desenvoltura no ambiente tecno-digital, conquistando usuários menos avisados e criando multidões de early-adopters que se deslumbram com a promessa de exclusividade e de um mundo perfeito de novas tecnologias e dispositivos.

Os primeiros se prendem ao passado e às práticas consagradas. Os segundos visualizam uma tábua rasa onde tudo se apresenta como inovação, tudo é um novo tempo, uma nova solução. Uma nova  tecnologia só se afirma como tal quando se integra no contexto cotidiano das relações entre homem e sua cultura, é o momento onde ela se torna invisível, é assimilada e passa a ser uma extensão do ser humano.

A escolha e implantação de novos processos, métodos, tecnologias é um caminho que requer equipes multidisciplinares, cientes do legado histórico e cultural dos processos de comunicação, mas conectada no admirável mundo novo que já se faz presente.

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