Discute-se
hoje a possibilidade de manter livre e indiscriminado o acesso às redes
wi-fi no Brasil. Esse é inclusive um tema polêmico nos Estados Unidos,
onde algumas pessoas vinculadas a ONGs defensoras da inclusão digital,
como a EFF (Eletronic Frontier Foundation), tomaram essa iniciativa por
conta própria, mesmo sabendo que certos provedores repudiam esse
comportamento, podendo suspender ou até cortar o serviço.
A
causa parece nobre, mas como técnico estou cético quanto a esse modelo,
uma vez que o usuário não tem controle, ou mesmo conhecimento, de quem
acessa a rede. Nunca se sabe quando alguém de má-fé pode usar esse
benefício para cometer crimes como roubo de dados bancários, ou acesso a
sites de pedofilia, por exemplo.
Em
meio a uma investigação de crime virtual, o rastreamento do IP feito
pela polícia pode levar ao endereço de uma pessoa sem relação alguma com
essas ações ilegais. Ainda assim, seu ato terá facilitado o delito. É o
mesmo que deixar a porta de casa sempre aberta, ou permitir que
qualquer um tenha acesso ao seu revólver.
A
cada dia, mais e mais reportagens mostram que o Brasil ganha a fama de
celeiro de hackers. Por isso, livre acesso certamente não é a melhor
opção no momento. Inclusive, no ano passado houve um caso no Piauí onde a
Anatel multou um usuário em cerca de R$ 3 mil por manter a rede
aberta.
Creio
que medidas como essa devem ser repensadas, pois não auxiliam a reduzir
o oportunismo do cibercrime. O usuário ainda é a pedra fundamental da
segurança da informação e, muitas vezes, por falta de educação, não
passa de uma vítima. Será que nossa população sabe colocar senha num
roteador e proteger informações pessoais? Compreende os riscos de deixar
a rede aberta? Para um país situado no 88º lugar no ranking mundial de
educação da Unesco é até covardia exigir isso.
Nos
Estados Unidos, cidades como San José e Mountain View (sede do
Googleplex) têm todo o território coberto por uma rede wi-fi gratuita,
fornecida respectivamente pelo governo e pelo Google. No Vale do
Silício, alternativas como a encriptação de dados são apenas “a cereja
do bolo” para a proteção de informações pessoais. Já no Brasil, ainda
estamos dando nossos primeiros passos no Plano Nacional da Banda Larga,
previsto para 2014. Não sabemos como será esse cenário nos próximos
anos, mas aqui ainda são poucas as pessoas e empresas que têm roteador
sem-fio.
Um
dos maiores empecilhos para essa política serão os impostos. É verdade
que hoje com cerca de R$ 30 mensais um brasileiro pode ter acesso à
banda larga em sua casa, ainda que com 1 MB de potência. Contudo, se
tirássemos as taxas impostas pelas operadoras sobre o serviço, o preço
ficaria em torno de R$ 7. Isso mudaria completamente a realidade da
classe C, a que mais cresce em acesso à internet de acordo com a e-bit.
Para
nós, facilitar o acesso não será o suficiente. Carecemos muito de
iniciativas educacionais eficazes no ambiente escolar, seja público ou
particular. O aluno necessita estar desde o início imerso em noções
básicas de tecnologia associadas a questões éticas para que um dia, quem
sabe, possamos todos compartilhar a mesma rede.







