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O mundo não era mais o mesmo no futuro

Lembro como se fosse ontem, meu pai mostrando a coleção da Enciclopédia Britânica que tinha acabado de comprar com dinheiro economizado durante anos. Isso foi no início da década de 1980. Mal sabia que, em menos de 20 anos depois, não precisaríamos mais de enciclopédias, nem gastar tanto dinheiro com elas. Teríamos computadores pessoais, ligados on-line a impressoras e a outros computadores ao redor do mundo via Internet, com informação a qualquer hora, sobre qualquer coisa e em qualquer lugar. Pois é, nem ele conseguiu adivinhar isso e nem aqueles que passaram a infância ou juventude da década de 1980 conseguiram.

Aliás, o famoso autor de ficção científica, Artur C. Clarke, em 1975, foi quem chegou bem próximo da Internet quando em seu livro Terra Imperial citou um comsole (com ‘m’) de comunicação doméstico e universal, parecido com o que temos hoje, que atingiria seu platô tecnológico no início do século 21. Por meio dele, tínhamos acessos a todas as informações de bibliotecas de todo o mundo e conexão com vários outros comsoles. Clarke só não previu o comércio através da rede, que teríamos amigos virtuais e redes de relacionamento, que poderíamos seguir nossos ídolos e o que eles fazem pelo Twitter ou mesmo escrever um artigo de revista ou criar um filme completo em três dimensões.

A máquina de escrever virou peça de museu ou de alguma repartição pública que não se informatizou ainda. O equipamento durou mais de 300 anos, da criação até sua suposta extinção. Ainda me lembro das máquinas de escrever elétricas onde se podia escrever uma linha inteira antes que a máquina batesse cada letra na folha. Era genial, dava para corrigir antes de sair no papel. A máquina de escrever, pouco tempo atrás, era indispensável em qualquer empresa ou instituição. Hoje, os computadores, que se popularizaram nas décadas de 1970 e 1980, são indispensáveis. O Google, que tem 13 anos de existência, é hoje também indispensável para muita gente. Inclusive o Twitter, que não existia há 3 anos, hoje faz parte da rotina de muitos jovens.

Como é possível voltar a viver sem tudo isso? Como é possível absorver tudo isso? Como é possível viver em um mundo que mudou vigorosamente nos últimos 10 ou 20 anos? Para muitos, talvez, 10 ou 20 anos pode parecer muita coisa, mas comparando com a máquina de escrever, que já possui 300 anos e só se popularizou uns 200 anos depois de sua invenção, por exemplo, 10 ou 20 anos parecem muito pouco. E realmente é pouco tempo. É uma geração. Hoje em dia não conseguimos mais passar nossa experiência para os filhos, pois eles vivem em outro mundo que nós também estamos conhecendo junto com eles. Como viver nesse mundo então? A palavra chave é adaptabilidade.

Ser um cara durão, de raízes, que possui diretrizes imutáveis, vai ficar para trás em poucos dias. O que temos que preservar sempre são nossos princípios, não as nossas visões, opiniões, conclusões, paradigmas, enfim, nossos meios de vida. Desde que preserve seus princípios, não há nada de mal em rever conceitos e paradigmas da nossa vida cotidiana, reinventar, remodelar e reviver. Hoje não temos mais a mesma privacidade que tínhamos anos atrás.

Com o Google Latitude, por exemplo, sabemos onde nossos amigos, nossa namorada ou nossa família estão via celular. Podemos fazer tudo ou saber de quase tudo com a Internet. Conhecemos pessoas, marcamos encontros, sabemos detalhes e histórias de muita gente, apenas com um toque na tela do computador, até o mouse está em extinção. Carros com chips de monitoramento, câmeras espalhadas pela cidade, em supermercados, lojas e clubes, muitos com acesso direto pela Internet. Não há fronteiras, e quando há caem rapidamente com alguma genialidade que aparece na Internet. Já me adaptei a tudo isso. E acho que todos devem seguir o mesmo caminho. Ser adaptável, é ser jovem para o resto da vida. Afinal, crianças e jovens são sempre grandes usuários de novas tecnologias porque aceitam mudanças, aprendem a aceitar sempre, são adaptáveis. Não precisamos mudar quem somos constantemente, apenas precisamos aprender a viver com mudanças. E precisamos nos manter assim, por mais contraditório que isso pareça ser.

Ao se adaptar e aceitar as mudanças, você consegue usufruir dos benefícios que toda essa mudança traz. Hoje consigo saber a que horas posso sair de casa para ir ao aeroporto buscar um amigo, verificando a que horas o voo chega pelo site da Infraero ou se haverá atrasos. Posso verificar o trânsito pelo site da companhia de tráfego. É um novo modo de vida. É como se eu não pertencesse mais àquela geração que cresceu com a Enciclopédia Britânica, ou com a máquina de escrever elétrica.

Sou da geração que jogava ATARI, que tinha de ter mais imaginação do que perícia para enxergar um quadradinho colorido na tela como um bravo soldado no jogo Adventure. Mas também sou da geração do meu filho de 15 anos e jogo Playstation com ele. Às vezes, consigo até ganhar. Provavelmente vestirei uma roupa de bravo soldado para jogar videogame com meu neto somente movendo a espada e movimentando meu corpo, ou seja, pertencerei à geração dele também. Não existe mais conflito de gerações, mas pessoas de geração que se recusam a estar em outra geração, pois não sabem se adaptar. Televisão, celular e computador serão tudo uma coisa só. Já quase são. Teremos que nos adaptar a isso ou em breve nem mais ligar a TV saberemos.

A privacidade que existia como antigamente não existe mais. Isso não quer dizer que ela deixou de existir. Apenas mudou-se o jeito de consegui-la. Temos de nos reinventar todos os dias. Mudar nossos hábitos. Não existe mais rotina. Temos de ser mais receptivos a essas mudanças, mudar nossos pensamentos, para que possamos ser felizes e não se tornar um ancião do passado.

Todas essas mudanças surgiram nesta velocidade graças ao avanço absurdo dos computadores e da eletrônica. Enfim, a dita área de TI ou Tecnologia da Informação. E o que falar desses profissionais de TI, que ‘reinventam a roda’ toda semana? A vida deles é, sem dúvida alguma, muito mais alucinante do que a dos demais seres humanos que só precisam usar a tecnologia disponível por eles. Como ser profissional de sucesso em meio a tantos desafios novos que surgem a cada dia?

A única dica que tenho a dizer é que seja flexível. Ser flexível é muito mais do que ser adaptável. Adaptar é para quem quer usar uma nova tecnologia, mas quem é flexível pode ser criativo o suficiente para criar essas novas tecnologias. Só com boa formação sólida em conceitos básicos como Matemática, Física, entre outras, permitirá essa flexibilidade. Quando me formei, na década de 1990, me questionava por que tinha de aprender tanta Matemática e Física no curso?

Por que tenho de aprender isso se nunca vou usar? Hoje já não faço mais essa pergunta e nenhum aluno tem condição de fazê-la. Ninguém sabe como será o dia de amanhã. A palavra nunca agora tem prazo de validade, nunca mais poderemos usar a palavra nunca. As mudanças ocorrem num piscar de olhos, toque de celular, numa mensagem do Twitter. Ter base sólida permite sobrevida neste mundo em constante mudança. E se você não tem conhecimento sólido ou mente que absorva mudanças, você acabou de ficar para trás, pois o mundo acabou de mudar de novo enquanto você lia este artigo.

é coordenador do Curso de Ciência da Computação do Centro Universitário da FEI (Fundação Educacional Inaciana).

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