Tipografia F.C.
Junto a popularização
dos microcomputadores em meados da década de
80, surgiram as fontes. Não que elas não
existissem antes, mas certamente eram objetos de manuseio
mais crítico, ou seja, não era qualquer
um que sabia usar os livros tipográficos. Na
verdade, era um universo mais limitado, para poucos,
entenda-se designers e diretores de arte. Bom, mas já
que todo mundo hoje em dia tem uma pastinha recheada
delas no micro, o que parecia avanço tecnológico,
democracia estética, virou mesmice.
São milhares de opções:
das clássicas "Frankfurt" e "Garamond"
as mais espalhafatosas novidades. Tem de tudo, embora
a maioria tenha caráter "penteadeira de
puta", ou seja, faz muita firula e peca pelos exageros.
E é essa diversidade, aliada a democracia tecnológica,
que muitas vezes depõe contra os layouts nossos
de cada dia.
Para tudo parece existir um tipo de
letra. Mas não é bem assim. Por ser tão
fácil trabalhar com a fontes, inseri-las num
layout, a caligrafia a mão sucumbiu. É
raro vermos alguma peça que tenha esse cuidado,
alguma marca que não se repita nas letras e por
ai vai. Muitas vezes sabemos que o melhor caminho está
numa letra "exclusiva", falo em desenhar mesmo,
fazer a mão se necessário. Depois você
pode até transforma-la em ttf se quiser, softwares
não faltam. Mas a preguiça impera, a falta
de tempo rege o mercado, os prazos e afins canalizam
os layouts para a falta de imaginação,
criatividade.
Eu mesmo já chequei a colecionar
galerias de fontes inúteis, daquelas que você
olha e sabe que talvez nunca usará, mas tem quardada,
quase uma mania. E material não falta para isso.
Os próprios softwares de criação
de fontes ajudaram, e muito, na proliferação
das mesmas. Hoje qualquer um pode criá-la e distribuí-la
pela web. Isso é muito bom, é democrático,
só resta saber o que é bom e o que é
lixo. Assim, muitas vezes acabamos encurralados, sem
saber o que usar. Mas a saída está, em
vários casos, na sua própria mão.
Por que não nos arriscamos mais no próprio
traço, fazemos nós mesmos. Poderíamos
contribuir para aumentar a diferenciação,
sair da mesmice, do lugar comum.
Talvez estejamos acabando com uma das
maiores características do nosso design. Pois
qual será nosso estilo? Sabemos que os alemães
são precisos e extremamente geométricos,
que os americanos são detalhistas e adoram usar
vários elementos, que os espanhóis primam
pelo estilo etc. Pela diversidade do nosso país,
o caráter de miscigenação, os trópicos
ardentes e as curvas provenientes eu arriscaria num
traço solto, feito a mão. Talvez essa
seja nosso linha de expressão (dentre outras,
é claro). Uma linha com cara brasileira, mais
desorganizada visualmente, irregular. É por essas
e outras que eu to de saco cheio das letras de sempre.
Existem vários caminhos e estamos seguindo pelo
mesmo, há tempos, desnecessariamente.







