NOTÍCIA

Tipo A a Z

"As palavras nem sempre significam
o que delas se espera, pois elas não são
apenas palavras que significam, mas são significantes:
têm feições sonoras, visuais e táteis".
Paulo Leminski, no livro Catatau

TIPO A.
Pressupõe começo. Partida. Letra partindo
para a forma. Desenha forma no ar. Transmuta-se em conjunção
caótica com demais letras idênticas de
natureza A. Mas com corpos distintos, com barriga, sem
serifa. Separadas por trackings, ungidas por pernas.

Neste balé, dançam As.
No seu movimento estático surgem formas que compõe
paisagens. Que são percebidas suscitando lugares
esquecidos e aromas coloridos. Poesia visual feita de
visualidade letrada.

A.
Esta primeira letra, de tão alfa alfabetizada,
de tão capitular, traz consigo as demais, guiando-as
no mesmo balé revolto, envolto de dicionários.
Em forma, todas as outros tipos, formam formas imaginárias
de famílias de uma só letra. Sozinhas,
em seu universo de particularidades, mas múltiplas,
na companhia de si mesmas. Os Bs que se acasalam e se
amontoam e se desdobram numa gravidez desconhecida,
mas imagina.

Letras, nada iletradas, são experimentadas,
por todos os todos os órgãos sensitivos,
portas da possível percepção de
um lúdico imaginável, deste universo ao
qual cabe o onírico.

Compõem o cenário que quer
se fazer sentir. São tipos cabíveis da
função de informar a forma, de falar pela
forma. Melhor função cumprida se der vontade
de comer, se à superfície trazer o asco,
se permitir devaneios, se pulsionar desvarios amorfos.

Função primorosa e primordial:
atuar como elemento principal da linguagem. Uma tipografia
que se organiza pra se desorganizar em elementos semióticos,
que trazem a visualização de seus enunciados
à superfície dos sentidos, derivando,
às vezes. Outras, sintaxe de cor e forma, remetendo
a variantes repletas de desejo. Constância de
nuances de pontos que tracejam símbolos, determinando
orientações, lançando pensamentos
no ar de um vácuo qualquer. Incongruências
… Escrevem um diário tipográfico, onde
letras também querem contar seus contos, aumentando
pontos, para relembrar velhas canções.

Uma estrutura fonogramática através
de uma linguagem abecedária. Abecedário
construtivo, que pode destruir linhas pela medula formal
(seria a letra F um H de medula quebrada?). Linguagem
visual, abortada pela olhar (o B sempre quis parir algo,
seriam dois C´s invertidos?). Linguagem recriada
em sua própria linguagem (o E se suicida para
tornar-se M?). Linguagem ilusória (o F faz de
conta que já foi A?). Linguagem limitando o tempo
(o Q marca o chá das cinco?). Linguagem nos limites
do movimento (o S nunca sabe se está subindo
ou descendo?). Linguagem que busca, sempre (o U olha
pra baixo ou pra cima?). Linguagem desenhando elementos
(o I de sombreiro parece T?). Linguagem que é
parte de um todo (o H é um degrau de escada?).
Linguagem antropofágica (um M comendo outro pode
ser um cavalo?). Linguagem metafísica (as letras
alinhadas são mesmo finitas?)

Tipo Z.
Pressupõe fim. Finalidade, letra exausta partindo
pro começo. Quer recriar, revistar o que já
foi visto. Vai zappiando encontrar-se no princípio,
com o tipo A. Até isto se dar, várias
histórias foram escritas por palavras, que nada
mais são que uma análise combinatória
de tipos.

Crédito das imagens: Experimentações
tipográficas por Carla Porto para o Catálogo
Tipo AaZ.

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