O design gráfico para o designer grafico
As dificuldades de se encontrar
novos clientes, dispostos a investir em design, o que
é diferente de “gastar” com design,
já são conhecidas por nós, que
sentimos na pele as dificuldades de manter um fluxo
de caixa constante em nossos escritórios. Portanto,
não vou ficar aqui choramingando pelas mesmas
mazelas de sempre. Vou, no entanto, levantar uma nova
questão: Muito se fala e se escreve sobre a dificuldade
e lentidão com que novos mercados consumidores
de Design são criados, abertos ou conquistados
no Brasil, mas pouco se fala sobre um mercado cada vez
maior em nosso país, que consome enorme quantidade
de recursos, e que envolve profissionais que gerenciam
investimentos de porte para uma grande variedade de
empresas: Nós Designers, somos um mercado consumidor
e gerenciador em constante crescimento.
Primeiro o óbvio. Nossos gastos
com equipamentos em escritórios, principalmente
em materiais de papelaria e informática, vão
além dos gastos que outros empreendimentos de
mesmo porte. Nossos computadores tem de ser mais velozes
e ficam defasados mais rapidamente, usamos periféricos
mais sofisticados, e temos como ferramentas uma grande
variedade de softwares, que além de seu custo
direto, envolve também gastos com treinamento,
cursos e atualizações.
Mas além de consumidores, a partir
do momento em que nos envolvemos com processos de tomada
de decisão junto aos nossos clientes, passamos
a ser gerentes de recurso e investimento. Dentre as
várias escolhas que tomamos ao desenvolver um
layout, embalagem, ou qualquer outra forma de elemento
gráfico, estão inclusas determinações
sobre a produção das peças. Na
maioria das vezes, somos nós que definimos quem
produzirá o fotolito, que gráfica melhor
executa determinada técnica de reprodução,
que firma de sinalização fará as
peças para um cliente exigente, ainda assim,
é surpreendente como nossos fornecedores não
investem em nossa atividade.
Recentemente, ao rever meus arquivos
de periódicos, ficou claro que um dos mercados
que ainda não conquistamos é o dos pequenos
e médios anúncios em revistas. O que nos
parece grave, principalmente por estarmos tratando de
uma das aplicações do design gráfico
com melhor custo benefício, se torna catastrófico
quando esses anúncios são publicados em
revistas que direta ou indiretamente, são voltadas
para designers. É degradante como as mesmas empresas
que recomendamos para execução de nossos
projetos não investem em nós.
Comparando edições antigas
destas revistas com seus novos números, podemos
perceber que o porcentual de anúncios sem a evidente
participação de um designer caiu de aproximadamente
80% para 50% (variando em cada edição
e em cada revista). O que aparentemente pareceria uma
melhora significativa, na verdade apenas retrata a entrada
de empresas de maior porte como anunciantes. Estas,
tradicionalmente, compram grandes espaços nas
publicações e descobriram há tempos
a potencialidade do design na divulgação
e venda de seus produtos e serviços. Enquanto
isso 70% dos pequenos anúncios continuam omissos
à nossa importante participação
como mercado consumidor e profissionais incumbidos de
tomadas de decisão.
A maior parte destes anúncios
são de gráficas, bureaus, empresas de
impressão digital, sinalização,
cursos de informática, etc que tem em nós
um importante referencial na captação
de clientes. A tragédia deste fato não
está apenas no descaso com que nossos fornecedores
tratam dos nossos serviços, mas também
por muitas vezes, oferecerem serviços similares
aos nossos, com baixos orçamentos e qualidade
duvidosa.
Uma dessas empresas recentemente chegou
a colocar o seguinte texto em seu anúncio: “Criação
e Designer ao seu alcance” … Realmente não
entendi se o que ele queria dizer era design, em lugar
de designer, o que demonstra que esta empresa oferece
serviços de design sem saber nem ao menos a nomenclatura
correta, ou será que eles “emprestam”
um designer para o cliente. Somos tão insignificantes
que já estamos sendo prostituídos? Desta
forma em poucos anos estaremos nos semáforos
das cidades perguntando: e aí gatinha, interessada
em uma programação visual? Vai uma marca
aí tio? Poderemos até fazer uma versão
do saquinho no retrovisor: “Estou vendendo este
logotipo para ajudar minha família, aceito passe,
e tick”
A pergunta fica: O que fazer? Reclamar
que as pessoas não valorizam o design não
adianta. No entanto, como consumidores, temos um enorme
potencial de decisão, compreendo que não
podemos mudar de padaria porque o letreiro de uma ou
de outra é mais bonito. Mas não apenas
como designers, devemos exigir, pelo menos destas empresas,
uma postura adequada e ética em relação
à nossa atividade. De que forma? Da mesma forma
que a dona de casa reclama de um produto do supermercado
que não atendeu suas expectativas: deixando de
consumi-lo e muitas vezes optando por um produto similar
mesmo que mais caro.
Pode parecer panfletário, mas
funciona.
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Autor: Guilherme Sebastiany.







